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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Paciência, mas fiz o que devia.

– E agora ainda quererás suspender-me?

– Não; convém que aquele moço seja abatido.

– Bem: tomo isso à minha conta.

Ficaram os dois velhos pensando durante algum tempo, e depois João perguntou:

– E a respeito do outro, que novidades há?

– Ontem à noite fez ele vinte e um anos.

– Eu o sei.

– À meia-noite bateu à porta do “Purgatório-trigueiro” uma mulher de mantilha, que o foi procurar.

– E essa mulher...

– Era Mariana.

– O que queria dele?

– Não sei bem, mas parece que conseguiu muito, porque ao romper do dia de hoje cheguei ao “Purgatório-trigueiro” muito a tempo...

– A tempo de quê?

– De desmanchar um projeto de viagem a mais extravagante do mundo. Cândido ia partir.

– Para onde?

– Ele mesmo não sabia dizer.

– Rodrigues, aquela mulher é o diabo em pessoa.

– É muito desgraçada, João.

– Por culpa dela: tu foste sempre mais piedoso do que eu.

– Não, tu és que te finges mau.

– Está bem; e então não conseguiste saber o motivo dessa viagem?

– O nosso pequeno teimou em ocultá-lo.

– Mas por fim, cedeu e ficou.

– Sim; porém custou-me muito. Foi-me preciso tocar-lhe na corda mais sonora de seu coração.

– Ah! já sei, falaste-lhe em sua mãe.

– É verdade.

– Pobre rapaz!... e como vai ele de amores?

– Olha, João, eu não o entendo. Até ontem à meia-noite era todo ardor, paixão e esperança.

– E hoje?

– Não quer ouvir o nome da “Bela Órfã”.

– E esta!...

– A mulher da mantilha dobrou muito à sua vontade aquele coração.

– Quando eu digo que ela é o diabo!

– Infeliz! treme diante do mundo. Salustiano é um espectro que a assombra; obedece-lhe como a um senhor.

– Cedo eu a livrarei desse fantasma.

– Como?

João ficou olhando por algum tempo para Rodrigues, e depois disse:

– Está bem... era um segredo que eu queria guardar para mim só, mas vou dizer-to.

Rodrigues escutou curioso.

– Tens um belo vizinho ali defronte, disse João.

– Sim, é o celebre Jacó... aquele nosso escrivão do processo.

– Pois sabe que é muito meu amigo.

– Teu amigo?... e tu apertas a mão de semelhante homem?

– Aperto.

– João!

– Nada de repreensões. Escuta: observei que o tal Jacó ia de vez em quando ter com Salustiano; ficavam a sós por algum tempo, e depois o escrivão retirava-se muito alegrezinho, e o outro ficava por algumas horas de mau humor.

– E a razão?

– Um dia consegui ficar em posição de ouvi-los, e apanhei-lhes o segredo. O escrivão é duas vezes infame.

– Como?... explica-te.

– Infame, porque recebeu dinheiro para queimar um processo, e por isso perdeu o ofício, e infame outra vez, porque o processo não está queimado.

– E então?...

– Ele o guarda.

– Oh! mas isso é o diabo.

– Pelo contrário, eu julgo que é excelente. Já te disse que tenho estreita amizade com Jacó.

– E que pretendes fazer?

– Ir morar com ele.

– E esperas conseguir isso?

– Com dinheiro tudo se consegue daquele homem. Vou alugar-lhe um quarto em sua própria casa.

– E depois?

– Depois os papéis estão lá, e hão de ser meus, custe o que custar.

– Falar-lhe-ás nisso?

– Deus me defenda. Salustiano deve tê-los pago bem, para que ele mos quisesse ceder!

– Olha, João, se te vás meter nalguma...

– Deixa o caso por minha conta; mas que é isto?...

Ouviu-se uma voz terna e melancólica, que começava a cantar o romance do “Sonho da Virgem”.

“Era um dia um mancebo, que ardente, “Pobre vida esquecido vivia; “E uma virgem...

O velho Rodrigues sorriu.

– De que te ris?... perguntou João.

– É que este canto me está chamando. A “Bela Órfã” tem que me confiar.

– Pois vai, adeus!

– Não, espera; pode ser que convenha que saibas o que ela tem para me dizer.

João ficou outra vez só no quarto de Rodrigues.

Uma hora depois voltou o velho guarda-portão.

– Que novidades há? perguntou João.

– O caso vai-se complicando.

– Então, que temos?

– A tal mulherzinha de mantilha obteve do nosso pequeno uma carta para Celina.

– Bravo! provavelmente o rapaz desmanchou-se todo em juramentos de amor.

– Ao contrário, declara a nossa “Bela Órfã” que a não ama, e que não quer iludi-la por mais tempo.

– E esta!... que dizes a isto?

– Fiquei com a cara à banda, João!

– Que disseste à pobre menina?

– Que desconfiasse e que esperasse.

– Realmente foi boa resposta.

– Agora vamos sair, João.

– Para onde?

—Tu para casa de Jacó, e eu para o “Purgatório-trigueiro”.

– Vamos.

Os dois velhos separaram-se à porta do alpendre. João entrou na casa de Jacó, e Rodrigues foi conversar com a velha Irias.

CAPÍTULO XL

O “CORAÇÃO” DE JACÓ

ESTAVA correndo a segunda noite depois daquele dia em que João tinha sido lançado fora da casa de Salustiano.

Eram cerca de dez horas.

Na acanhada saleta de jantar da casinha que ficava fronteira ao “Céu cor-derosa”, estavam três personagens ceando alegremente, sentadas ao redor de uma pequena mesa: eram Jacó, Helena e João.

O antigo agente da casa de Salustiano tinha calculado bem com o gênio interesseiro do ex-escrivão; logo que se separou de Rodrigues apresentou-se na casa de Jacó com a bolsa na mão e foi imediatamente recebido e instalado no melhor quarto da casa.

(continua...)

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