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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Leve mudança de fisionomia, rápido toque de gesto, ou relance d’olhos, eram sinais imperceptíveis para estranhos; mas para êles caracteres vivos, em que liam tão correntemente como em um livro aberto. 

O algarismo quatrocentos, que o velho acabava de murmurar não era senão a conclusão do diálogo quase instantâneo, que o seu olhar trocara com o de Arnaldo. O semblante do velho anunciara a chegada do inimigo, e o vaqueiro o interrogara sôbre a fôrça que ameaçava a Oiticica. 

Nesse momento recordou-se Arnaldo da viagem de Jó, sôbre a qual ainda não tivera ocasião de trocar uma palavra: 

— E Anhamum? perguntou Arnaldo. 

— Quando partí, êle convocava seus guerreiros. 

Foi então que Arnaldo, depois que deixou o velho Jó em segurança na caverna, correu à Oiticica para levar a notícia ao capitão-mór. 

As três bandeiras do Marcos Fragoso tomaram posição em volta as casarias da fazenda e estabeleceram um cêrco em regra, a fim de cortar toda a comunicação exterior, e evitar que o capitão-mór mandasse aviso à numerosa parentela de Russas, que logo acudiria em seu auxílio. 

Quando Campelo viu o poder de gente com que vinha o Marcos Fragoso, e reconheceu que não tinha fôrças para sair-lhe imediatamente ao encontro e castigar aquela ousadia, o seu orgulho rugiu-lhe n’alma como um tigre na jaula. 

Êle que nunca até êsse momento, em uma vida de cincoenta anos, sofrera um insulto em face, nem encontrara resistência à sua vontade, ser de repente assim afrontado, e não poder esmagar o insolente que o provocava! 

Nas circunstâncias em que achava-se, com sua bandeira reduzida pela expedição do Agrela à Barbalha, uma sortida seria um ato de desespêro, que sacrificaria o melhor de sua gente e entregaria a casa e os moradores aos assaltantes. 

Não tinha remédio, pois, senão recalcar o seu ímpeto, e aproveitar os recursos que lhe oferecia a Oiticica para uma defesa tenaz, enquanto podia mandar um emissário a seu cunhado Gameiro em Russas. 

Concentrou-se, porém, tão profundamente aquela soberba, que desde a chegada do Fragoso às terras da Oiticica não proferiu mais uma palavra e em pé no meio do terreiro esperou o ataque iminente. 

Tinha à mão, no ombro dos pagens, seus três famosos bacamartes. O primeiro, conhecido por Jacaré, nome tirado da enorme bôca; o segundo, chamado Trovão por causa de seu formidável ribombo; e o terceiro, Farol, porque ao disparar levantava um clarão medonho. Todos eram de grosso calibre, que mais parecia de canhão. 

Leandro Barbalho ficava-lhe à direita, Arnaldo à esquerda, e toda a gente estava a postos. D. Genoveva com Flor e Alina, a-pesar-de transidas de susto, já tinham voltado da capela, onde foram pedir a proteção divina; e tomaram todas as providências para socorrer os combatentes e munições, e de pronto curativo no caso de serem feridos. 

Depois de longa espera, em que o capitão-mór não via senão um ardil paramais tarde caírem de surpresa, apareceu uma pequena escolta, que vinha do campo inimigo, e dirigia-se à Oiticica, parando a trechos e agitando uma grande bandeira branca. 

— É um parlamentário que nos enviam, disse Leandro Barbalho. 

O capitão-mór sem quebrar o silêncio levantou o braço e apontou o bacamarte. Leandro mediu o alcance da ação, mas não se atreveu a opor-se. Foi Arnaldo, que sem hesitar, lançou a mão ao cano da arma a tempo de evitar o tiro. 

Voltou-se Campelo com terrível expressão. O rapaz encostara ao peito a bôca do bacamarte: 

— Atire em mim, sr. capitão-mór, porém não mate sua mulher e sua filha que estão lá dentro fiadas na prudência, ainda mais do que na coragem de vossa senhoria. 

Sentiu o fazendeiro a justeza daquela observação, que fizera calar em seu espírito o rasgo do intrépido vaqueiro, expondo o seu peito à carga do bacamarte. 

— Carecemos antes de tudo ganhar tempo, continuou o sertanejo. Nossa posição agora é má; porém esta noite, amanhã ou depois, a sorte pode mudar de repente. 

O Manuel Abreu foi ao encontro do parlamentário. Êste não era outro senão o licenciado Ourém, que vinha pôr à prova a sua diplomacia em uma negociação cuja dificuldade e risco êle bem previa. 

Não havia no campo do Fragoso pessoa mais apta para o delicado mister, e nestas circunstâncias entendeu o licenciado que faltaria a seu dever de cristão e de parente, se não oferecesse os seus serviços de medianeiro para evitar um rompimento funesto a ambas as partes. 

Leandro Barbalho adiantou-se para receber no terreiro o parlamentário, e o levou à presença do capitão-mór na sala. Trocada a saudação, afável e insinuante da parte do Ourém, muda e arrogante da parte do capitão-mór; quando aquele dispunha-se a entrar no assunto, foi atalhado pelo fazendeiro: 

— O senhor licenciado veio como parlamentário, e com esta segurança foi recebido. Mas veja como fala, porque, se faltar com o respeito que deve ao capitão-mór Gonçalo Pires Campelo, não respondemos por nós. Fique prevenido. 

Ourém acudiu logo com pressurosa cortesia: 

(continua...)

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