Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

– Levamos a pobre moça desmaiada como estava para nossa casa. Mancebo, quando minha irmã tornou a si, estava doida! Infeliz! Vagava horas inteiras e sem cessar, interrompendo-se apenas para levantar a voz bradando – é falso!... – e vagava de novo, corria ajoelhando-se, erguia as mãos ao céu, e bradava – é falso! – lançava-se em nossos braços, chorava, soluçava, e por entre seus soluços deixava escapar o seu grito de inocência – é falso. – Ah! mancebo! mancebo!... um mês inteiro se passou desse modo, e no fim desse mês ela expirou em nossos braços murmurando ainda a triste frase – é falso! – Mancebo! mancebo! quem fez enlouquecer, quem fez morrer nossa irmã?...

Salustiano não respondeu nada.

– Foi tua mãe. Pois bem: a Providência tomou o cuidado de vingar-nos; Matilde não gozou o doce prazer de beijar seu filho. Mancebo, tu custaste a vida de tua mãe; ela morreu alguns momentos depois de te haver dado à luz.

– Infeliz! balbuciou Salustiano.

– E em nossos corações, prosseguiu o velho, a santa e imaculada amizade de cem anos teve força bastante para fazer com que João e Rodrigues carregassem ao colo o filho da assassina de Emília. Sim! porque o filho de Matilde era também de Leandro. Mas o nosso amigo tinha recebido terríveis golpes; a lembrança de Emília o atormentava; a morte de sua mulher, que apesar de tudo ele amara extremosamente, veio aumentar seus pesares; lembrou-se da corte, sempre cheia de ruído, de festas e de prazeres, e enfim, resolveu-se a deixar a vida do campo. Vendemos quanto possuíamos, e viemos estabelecer-nos aqui. Mancebo, o resto de nossa vida tu sabes... é uma história de vinte e cinco anos de cuidados gastos contigo, pois que tinhas apenas um ano quando deixaste os campos onde nasceste. Dize pois, não te lembras nunca do amor com que te tratavam os dois amigos de teu pai?...

– Senhor...

– Eras um menino indócil... passaste a ser um moço extravagante e altivo. Dize pois, mancebo, já te esqueceste de que uma nódoa... a desonra te ia manchar, e de que fomos nós os que te arrancamos, te salvamos da infâmia?

– Basta! exclamou Salustiano corando.

– Ninguém nos ouve aqui, tornou o velho; podemos falar sem receio. Para alimentar teus vícios ousaste furtar uma firma... teu nome foi escrito no rol dos criminosos... e quem te valeu então?... quem comprou um escrivão sem honra, que se prestou a queimar o processo?... quem pagou ao homem cuja firma tinhas imitado?... lembra-te, mancebo, que fomos nós, João e Rodrigues; porque teu pai queria que o filho indigno sofresse a pena merecida... lembra-te que fomos nós que suspendemos a maldição que dos lábios de um pai austero ia cair sobre o filho pervertido.

– Senhor! senhor!...

– Sim... conseguimos o teu perdão; e quando a morte veio arrebatar-nos o nosso amigo, as últimas palavras que te dirigiu, foram essas, que já mas ouviste hoje: “ouve, meu filho, ouve e obedece a João e Rodrigues, como se fosse a mim que obedecesses”.

– É preciso concluir, senhor!

– Morto teu pai, uma nobre missão chamou-me longe desta casa. Meu irmão porém ficou velando por ti. Mancebo, como pagaste ao amigo de teu pai os extremos que gastou contigo?...

– Respeitei-o, disse Salustiano, respeitei-o até ontem.

– E hoje?

– Hoje o ofendido fui eu.

– E qual a ofensa?... pretender meu irmão arrancar de teu poder um papel que te não pertence?... que direito tens sobre aquela carta?... que uso queres fazer dela?... ah! mancebo, o amigo de teu pai vem dizer-te que isso que tens no pensamento, e que cuidas realizar, mercê dessa carta, é uma infâmia.

– Senhor!

– Mas ainda é tempo de voltar atrás; os olhos da amizade dos cem anos ainda te olham com piedade. Em nome de teu pai João te perdoa; em nome de teu pai eu te venho chamar para o caminho da honra. Mancebo, dá-me a carta da filha de Anacleto.

– Oh!... eu tinha adivinhado o motivo da sua visita, sr. Rodrigues.

– E então?

– É impossível conseguir de mim o que pretende. Reconheço os serviços que lhe devo, respeito os velhos amigos de meu pai, mas não posso abandonar assim a única esperança...

– A esperança de quê?

– De alcançar a posse da mulher que adoro.

– Não a alcançarás nunca.

– E essa carta, senhor?!

– Essa carta fará a desgraça de uma mulher, e mais nada.

– Mas essa mulher terá meios de fazer-me esposo de Celina.

– Não, não; porque haverá quem se levante entre a virgem pura e nobre, e o mancebo pervertido...

– E quem ousará?...

– Eu.

– Bem, sr. Rodrigues, veremos.

– E a carta, infeliz moço?...

– Nunca!

– Mas quando a vingança do ofendido vier cair sobre tua cabeça?...

– Nada receio.

– Pensa bem, mancebo: daqui a uma hora nada poderá salvar-te... pensa...

– Estou decidido, senhor.

– Então toda a esperança de conciliação está perdida?

– Toda.

– E as conseqüências?...

– Embora.

– Fiz quanto pude, disse o velho com voz lúgubre; agora nada mais há que esperar.

Salustiano sorriu.

Rodrigues ergueu o braço direito como apontando para o céu, e saiu dizendo: – Justiça será feita.

CAPÍTULO XXXIX

NO ALPENDRE

LOGO QUE Rodrigues saiu, João entrou para o quarto deste, cerrou a porta e esperou a volta de seu irmão, meditando sobre os meios de realizar um projeto que desde muitos dias, e então mais que nunca, o ocupava.

Chegou Rodrigues, e adivinhando onde se recolhera o irmão, abriu a porta e entrou.

O velho guarda-portão estava triste e abatido.

– Então?... perguntou João.

– Nada.

– Não te havia eu prevenido de que serão inúteis todos os teus esforços?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...100101102103104...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →