Por José de Alencar (1875)
Depois da conferência recolheu-se o fazendeiro, mas a-pesar-das fadigas e comoção da véspera, ao romper do dia já estava de pé e saíu fora ao terreiro. Ainda todos dormiam; pela primeira vez deixara-se de ouvir na fazenda o toque de alvorada à hora costumada.
Viu o capitão-mór esvoaçar um bando de urubús à beira da mata e pousar no campo. Embora seja êsse um acidente muito comum nas fazendas de criar, desperta sempre a atenção do dono e de seus vaqueiros.
Caminhou Campelo até o fim do terreiro; e daí pôde confusamente avistar os pedaços de carniça, espalhados pelo chão, e que atraíam os abutres. Atinou que eram os corpos dos dois sequazes mortos na véspera pelo tiro de seu bacamarte, e despedaçados pelas patas dos cavalos, quando corriam atrás de Corrimboque.
O capitão-mór não era sanguinário; mas nessa ocasião experimentou um esquisito prazer com aquele espetáculo, e sentiu que não estivessem estendidos no campo todos os sequazes do Fragoso, para que êle os esmagasse sob as patas de seu ruço.
Com pouco apareceu Leandro Barbalho, que j-á vinha em hábitos de viagem, e só esperava para pôr-se a caminho, que o pagem lhe trouxesse a cavalgadura.
O sobrinho do capitão-mór, filho dos Carirís, onde residiam seus pais antes de mudarem-se para o outro lado da serra do Araripe, era mancebo de trinta anos, de baixa estatura, mas robusto, com ombros largos e a cabeça chata, tipo mais comum do sertanejo cearense e que o distingue de seus vizinhos das províncias limítrofes. Tinha o parecer franco e jovial.
— Pronto, sobrinho? disse Campelo ao avistá-lo.
Barbalho beijou a mão do capitão-mór com respeito filial e respondeu:
— Já podia estar em caminho, se não fosse a demora do pagem.
— Assim foi bom, porque ontem não tivemos tempo de falar sôbre um particular. Sabe por que o mandámos chamar, sobrinho?
— O senhor dirá, meu tio.
— Nós o escolhemos para marido de nossa filha D. Flor.
— Como for de sua vontade, senhor meu tio.
— Vá buscar a gente para ensinarmos ao atrevido do Fragoso, e na volta cuidaremos do noivado.
Ouvindo o galope de um cavalo, o capitão-mór voltou-se, e viu Arnaldo que subia o tombador a toda a carreira do Corisco. Chegando ao terreiro, sem dar-se ao trabalho de parar o animal, o rapaz saltou da sela e caminhou para o fazendeiro.
Depois dos últimos acontecimentos, a súbita vinda do sertanejo àquela hora, sua brusca parada e a inquietação de seu gesto, eram de natureza a dar rebate de novos perigos.
Não obstante, o capitão-mór esperou sem nenhuma alteração a notícia, que lhe trazia o rapaz.
— O Fragoso aí vem, sr. capitão-mór.
— Pois atreveu-se?
— E traz muita gente.
— Melhor; não é preciso fazer pontaria.
Tocou-me alarma na Oiticica e imediatamente começaram os preparativos para receber o inimigo. A posição da fazenda oferecia todas as condições favoráveis à defesa; e a construção do edifício principal fôra de algum modo copiada das casas fortes, fortes, em que então muitos fazendeiros ricos eram obrigados por segurança a ter sua moradia.
Uma hora depois do aviso de Arnaldo, avistou-se uma grande nuvem de poeira. Era o Marcos Fragoso com sua bandeira.
O Daniel Ferro chegara de Inhamuns naquela madrugada com sua gente; e o Fragoso, irritado com o malôgro da véspera, resolveu marchar para a Oiticica sem mais demora. Tinha êle então às suas ordens cêrca de quatrocentos homens, que dividiu em três bandeiras, tomando uma para si, e dando as outras ao Daniel Ferro e João Correia.
Arnaldo, que seguira durante a noite o rasto da escolta do Onofre, lá pela madrugada encontrou-se com o Aleixo Vargas, que vinha adiante como explorador. Percebendo a presença do sertanejo, o Moirão escondeu-se; mas conhecendo que já estava descoberto, marchou direito ao rapaz.
— Estimei encontrá-lo, amigo Arnaldo.
— Também eu, Aleixo Vargas. lembra-se do que lhe disse vai para um mês? Que se o achasse a uma légua da Oiticica…
— A que vem isso agora?
— Pelo jeito parece que você está em caminho para lá; e então pergunto-lhe, se já encomendou sua alma a Deus?
— A coisa não é como pensa, Arnaldo; sou eu quem lhe avisa, como seu amigo, que não torne mais à Oiticica, senão está perdido. Tome outro rumo, rapaz.
— Mas então o que está para acontecer?
O Moirão pôs o sertanejo ao corrente do que se havia passado, e da expedição que marchava naquele instante para a fazenda do capitão-mór.
— Obrigado pelo aviso, amigo Aleixo Vargas. Eu não carecia dele, tornou Arnaldo, mostrando o vulto de Jó que aparecera entre a ramagem. Mas sempre lhe digo que veja o que faz; eu só tenho uma palavra.
O vaqueiro dirigiu-se ao velho que lhe disse rapidamente em voz baixa:
— Quatrocentos.
O velho chegava naquele instante de uma excursão. Havia entre essas duas almas, a do solitário e a do sertanejo, tão íntima comunicação, que muitas vezes não careciam falar, para entenderem-se entre si e transmitirem-se os seus pensamentos.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.