Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
Outras vezes, seguidos dos dois únicos amigos que tinham ficado sempre fiéis, de seus dois cães, Pedro e Paulo embrenhavam-se nessas matas verde-negras, que cobrem numerosas lagoas sem interrupção; aí, ao lado um do outro, com seus cães ao pé e suas espingardas no ombro, impávidos e frios, eles esperavam a hora em que começariam a combater com o tigre e o javali.
Cem vezes Pedro salvou a vida de Paulo; cem vezes Paulo livrou da morte a Pedro; e depois, rotos, feridos, cobertos de manchas de sangue, eles voltavam à sua pobre casinha curvados sob o peso das vítimas de seu valor e de sua destreza.
Mas um dia, no meio dessa vida de trabalhos e de perigos, chega a notícia da morte do tio de Paulo, e outra vez a riqueza para este.
Paulo era o herdeiro de seu tio.
“– Somos ricos outra vez, disse este ao seu amigo; vamos para nossa casa. E agora saberemos ajuntar para nossos filhos.”
“– Vamos, respondeu Pedro sem vexame.”
Começaram de novo os dois amigos a gozar vida de abundância e de sossego; porém nada mais de banquetes, nem de festas.
E quando eles morreram deixaram seus dois filhos unidos como se fossem dois irmãos gêmeos.
O filho de Paulo tinha ficado rico, e o seu amigo era apenas senhor de medíocres teres; mas essa diferença da fortuna não mudou nada a amizade que os ligava.
Amaram-se constantemente como seus pais; como seus pais casaram-se no mesmo dia. Um deles teve um fruto de seu himeneu; foi um belo menino que se chamou Leandro! foi o filho do rico.
– Meu pai, murmurou Salustiano.
– O outro teve dois filhos gêmeos e uma filha, que se chamavam João, Rodrigues e Emília. Fomos nós, sr. Salustiano.
– Eu o sei.
– Quando nossos pais morreram, bem cedo!... ficamos no mundo, herdeiros dessa amizade pura e sagrada, que era a honra de nossas famílias e que fazia admiração das outras.
Salustiano não disse nada.
– Com orgulho, com a consciência cheia de prazer, de verdade, e de sossego, nós dizíamos: – seremos como nossos pais! – oh! não desmentimos nunca!... fomos os derradeiros, é certo... porque minha irmã morreu e meu irmão e eu não temos filhos; e porque o sr. Leandro teve um filho que se não parece com seus antepassados.
– Senhor!
– Silêncio, mancebo!... eu tenho o direito de te repreender! fui o irmão da alma de teu pai... sou um dos últimos herdeiros da amizade de cem anos!... Abaixa os olhos diante de mim, porque tu não serás nunca como foram os teus e os meus, e como somos ainda, meu irmão e eu. Silêncio, mancebo; quem fala aqui não é o pobre velho Rodrigues, é a voz da amizade de cem anos.
O moço, a pesar seu, abaixou a cabeça.
O velho prosseguiu:
– Sim... honra a nós; nós fomos como os nossos: Leandro, João e Rodrigues eram um só homem, e Emília, dez anos mais moça do que nós e seis do que Leandro, era a menina dos olhos de todos três, era o brilhante que se preparava para a coroa de alguém que fosse digno de ajuntar-se conosco. Emília era bela, pura, ingênua como um anjo, com seus olhos pretos, suas faces pálidas, e seu corpinho débil... pobre Emília!...
O velho enxugou com a face dorsal da mão direita duas grossas lágrimas que estavam pendendo de suas pálpebras. Depois continuou:
– Leandro apaixonou-se de uma jovem senhora, tão linda como vaidosa, tão rica como pouco nobre. Tarde conhecemos esses defeitos; aliás, o nosso amigo não teria sido esposo de Matilde.
– Fala de minha mãe, senhor? disse Salustiano erguendo a cabeça.
– Bem o sei, tornou o velho prosseguindo. Depois de casar-se, Leandro pediu-nos que consentíssemos que Emília fosse morar com sua mulher; nossa irmã tinha então dezesseis anos. Consentimos. Passaram os primeiros meses sem que suspeitássemos, sem que coisa alguma pudéssemos recear. Cedo, porém, começou Leandro a experimentar os excessos e efeitos de vaidade de sua mulher. Sua casa se tornou em um inferno; sua vida foi um martírio constante. O único lenitivo que achava para minorar seus sofrimentos o nosso pobre amigo, era vir depositar suas mágoas em nossos corações, e ir chorá-las ao pé de minha irmã.
O velho respirou, e depois disse ainda:
– Tua mãe, mancebo, aborreceu os amigos de teu pai: ciumenta e louca, viu uma rival em minha irmã, e inspirada pelo demônio, esquecida de tudo quanto é nobre e generoso, concebeu um pensamento infame!...
– Senhor!
– Na manhã de um domingo, depois do sacrifício da missa, que se celebrava na capela da fazenda de Leandro, estando a casa cheia, diante de meu irmão e de mim, mesmo à vista de seu marido, ela enxotou de sua casa a minha irmã, cobrindoa de impropérios e de maldições, dizendo contra ela calúnias que a nodoavam! Oh! sim, mancebo, a língua de tua mãe desonrou a minha irmã! Disse que uma virgem era uma mulher impura!... Disse que seu marido a desprezava por minha irmã... Disse tudo... tudo... disse tanto, que Emília caiu desmaiada nos meus braços.
Salustiano não pronunciou uma só palavra em defesa de sua mãe. O velho continuou:
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.