Por José de Alencar (1875)
Arnaldo suspendeu a donzela em seus braços robustos, recomendando-lhe que envolvesse a cabeça e o busto no gibão de couro para defender-se dos galhos e espinhos. Com êsse precioso fardo preparou-se para romper o meto.
Nesse transe não se lembrou o mancebo que estreitava o corpo gentil de uma donzela. O que êle carregava era uma relíquia ou a imagem de uma santa, e as formas encantadoras que êle palpava no seio eram de jaspe ou marfim.
Jó pedira a Flor que rompesse um fôlho de seu vestido. Enquanto Arnaldo desaparecia com a donzela na espessura, o velho esgueirou-se na direção oposta esgarçando a tira de pano pelos crauatás e unhas de gato.
O sertanejo chegou depois de algumas voltas a uma brenha atravessada por um trilho de veado. A meio dessa vereda caíra um grosso toro que a atravessava.
Arnaldo lembrou-se que nesse lugar havia um fojo. Como a caça já o conhecia, tinha-o êle condenado por algum tempo, cobrindo com o tronco a bôca a fim de mais tarde aproveitá-lo. Mal sabia então que serviço devia prestar-lhe.
Afastando o madeiro e retirando a terra, abriu o alçapão e entrou na cova para examinar, se tinha alguma cobra ou outro objeto capaz de assustar a donzela.
— É preciso esconder-se aquí, Flor.
— Só? perguntou a donzela.
— Tem mêdo?
— Não; seja meu coveiro, disse a moça com um sorriso. Enterre-me viva.
Arnaldo desceu Flor à cova, fechou o alçapão, cobriu-o novamente de terra, e colocou o toro sêco no lugar onde estava. Apagando todos os vestígios que podiam denunciá-lo, grimpou ao tope das árvores, onde zombava dos olhos mais perspicazes.
O Onofre e seus companheiros bateram o mato em todos os sentidos e não descobriram sinal de gente. O Fragoso, irritadíssimo com o novo revés, cobria o seu cabo de bandeira das mais pesadas injúrias, que êste sofria com uma calma inalterável, pois entendia que o patrão o pagava não só para serví-lo, como para aturá-lo.
Não achavam D. Flor e todavia tinham certeza que a donzela alí estivera. Rosinha o afirmara e as tiras do vestido rasgado pelos espinhos o provavam. Era impossível que saísse do caapoão sem a verem os do cêrco; e que ela não tinha conseguido escapar-se, bem indicava o engano do capitão-mór.
O Onofre, pois, insistia na esperança de afinal descobrir o esconderijo da moça e do sertanejo.
— No chão não está, disse o bandeirista; ainda que ela fosse uma cobrinha cipó, não me escapava. Só pode estar nos ares, aí trepada nalguma árvore.
Por ordem do bandeirista, subiram alguns à copa das árvores e começaram uma ronda pelos galhos. Diversas vezes passaram junto de Arnaldo, que os iludia imitando o canto da graúna. Onde pousava um passarinho, não podia estar oculto um homem. Também por diversas vezes passaram pelo fojo, e Flor ouviu o som dos passos por cima de sua cabeça.
Afinal já fatigados da porfia, escutaram tropel de animais que aproximavam-se rapidamente.
Eram sem dúvida o capitão-mór que voltava desenganado; e não tiveram outro remédio senão abandonar a partida e dá-la por perdida.
Quando Arnaldo conduziu Flor à casa, alí acabava de chegar o Leandro Barbalho.
Foi o tropel de seus animais que assustara o Onofre. À primeira notícia, êle arrependeu-se de ter salvado a virgem de sua adoração para vê-la noiva de outro. Não seria melhor morrer com ela vingando-a?
O sobrinho do capitão-mór, encontrando a casa em desordem, ouvia do Padre Teles a narração dos estranhos sucessos, quando soube da volta de D. Flor.
Pareceu-lhe inconveniente falar à prima na ausência dos pais e porisso limitou-se a mandar por Alina recado, do pesar que tivera com o desacato feito à sua pessoa.
XVII – A intimação
Depois dos acontecimentos que na véspera à tarde haviam perturbado o sossêgo da Oiticica, era natural que seus moradores prolongassem um tanto pela manhã o repouso da noite.
Arnaldo apenas restituira Flor à casa, partiu no Corisco em seguimento do capitão-mór, que só encontrou a três léguas de distância, já de volta.
A notícia que levava-lhe o seu vaqueiro o encheu de tamanha alegria, que êle esqueceu-se a ponto de abraçar a mulher diante de toda a gente, e fez o mesmo ao rapaz.
Chegando à casa, depois das efusões do contentamento de ver a filha, entrou com o sobrinho e o capelão em conferência acêrca das ocorrências extraordinárias que se acabavam de passar; na ausência do Agrela, foi o padre Teles incumbido de escrever duas cartas aos parentes de Russas e Aracatí, chamando-os a toda pressa com a gente que pudessem juntar.Leandro Barbalho partiria no dia seguinte para reunir uma bandeira no ouricurí; enquanto o Arnaldo seria incumbido de avisar todos os moradores espalhados pelos campos de Quixeramobim até à serra do Baturité.
O Campelo tinha jurado por suas barbas que havia de castigar o Fragoso ainda que fosse preciso arrasar todo o Inhamuns.
— Hei de trazê-lo à Oiticica amarrado como um negro fugido; e depois de bem surrado, o padre Teles o casará com a negra mais cambaia da fazenda.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.