Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Agora?... não sei... duvido ainda, respondeu a custo, e erguendo-se a “Bela Órfã”.
– Onde vai, Celina?
– Preciso recolher-me e ficar só, senhora.
Celina já estava na porta.
– E o sr. Salustiano?
A moça voltou-se e respondeu quase com altivez:
– Ainda quando isto não seja efeito de uma nova calúnia, senhora, eu nunca serei esposa desse homem por quem se mostra interessada.
– E saiu.
Por sua vez Mariana empalideceu e ficou de novo muda, pensativa e abatida.
CAPÍTULO XXXVIII
HISTÓRIA DOS DOIS VELHOS
NO MESMO gabinete em que, poucas horas antes, escreviam João e Salustiano, foi que Rodrigues achou este último ainda agitado pela cena que tivera lugar.
O velho entrou com ar solene e grave, e cumprimentou o mancebo com um simples movimento de cabeça.
– Pode sentar-se, disse secamente Salustiano.
– Obrigado, disse Rodrigues, estou bem de pé.
– Como lhe parecer. Dirá então o motivo que me deu a honra de sua visita?
– A visita de um pobre velho não honra... incomoda.
– Deixemo-nos disso, disse o moço, tenho que fazer; diga o que quer.
O velho guarda-portão sorriu amargamente daquele modo incrível, e daquele árduo desprezo com que era tratado por Salustiano.
– Então?! tornou este.
– Venho contar-te uma história, mancebo.
– Crê o senhor que tenho tempo de sobra para gastar ouvindo suas histórias?...
– Oh! que sim! rico senhor! baixando à sepultura, teu pai te repetiu com voz já sumida as mesmas palavras, que mil vezes te havia dito nos tempos da vida: – ouve, meu filho, ouve e obedece a João e a Rodrigues, como se fosse a mim que obedecesses.
– E a que vem isso?
– É preciso portanto que ouças a história desses dois velhos, e a de teu pai também; porque enfim... o moço vai de novo indo no mau caminho!
– Senhor!
– Mancebo! escuta: não é por mim, é por ti que eu aqui venho. O raio está levantado sobre tua cabeça e prestes a desfechar-se... eu quero mostrar-te o meio de vencer a tempestade: escuta.
A voz do velho tinha um não sei quê de lúgubre e terrível, que causou impressão profunda em Salustiano, o qual, como para esconder a comoção que ela acabava de produzir em seu ânimo, sorriu à força, e disse:
– Portanto, escutemos o profeta.
Rodrigues fingiu não ter ouvido a zombaria do moço, e, cruzando os braços sobre o peito, em pé, defronte de Salustiano, começou a história assim:
– Noutro tempo, mancebo (bastantes anos já são passados), haviam nesta mesma província do Rio de Janeiro, e em um dos seus municípios de serra acima, dois jovens belos, ardentes, e generosos. Tinham ambos a mesma idade, vinte e cinco anos; seus pais haviam morrido e lhes deixado ricas heranças. Pedro e Paulo se chamavam eles. Não eram parentes; achavam-se no mundo sós e com um destino em tudo semelhante. Paulo tinha apenas um tio que dele não gostava; Pedro não conhecia parente algum. Esses dois moços encontraram-se pois no mundo tão iguais, tão semelhantes, que se abraçaram um com o outro, juraram amizade eterna, amaram-se como irmãos gêmeos, misturaram seus prazeres e seus pesares; de modo que aquele que ofendesse Paulo teria ofendido Pedro, e o que fosse amigo deste seria por força também amigo daquele.
– Até aí nada de novo, meu caro, disse Salustiano, e, para poupar-lhe palavras, declaro que já sei que esse Paulo era meu bisavô, e esse Pedro o respeitável avô do sr. Rodrigues.
Sem dar atenção ao que acabava de dizer Salustiano, o velho continuou:
– Esses dois amigos amaram ao mesmo tempo duas interessantes jovens; casaram-se no mesmo dia, e cedendo ao ardor da idade, e às instigações de falsos amigos, votaram-se ambos a uma vida de prazeres e de loucuras, que eles não pensavam de acabar um dia. Os banquetes eram sucedidos por outros banquetes, e somente interrompidos pelas caçadas, pelas pescarias, e por mil outros prazeres. Levaram muito tempo assim, até que chegou um dia em que Pedro foi ter com o seu amigo, e disse-lhe:
“– Paulo, temos andado mal; os meus bens chegam apenas para os meus credores.”
“– Pedro, disse o outro, acordamos tarde; eu devo também tudo quanto possuo.”
“– Que faremos agora?”
“– Primeiro que tudo pagar a quem devemos.”
– Os dois amigos chamaram os seus credores, satisfizeram suas obrigações como homens honrados que eram, e acharam-se com uma simples e pobre casinha para ambos, com uma mulher e um filho cada um deles, com duas espingardas, dois cães de caça, uma canoa, uma rede e mais nada.
Sorriram ambos, olhando um para o outro, quando inventariaram os restos de sua antiga riqueza.
Os antigos companheiros de festas e de seus prazeres desprezaram os dois amigos; eles riam-se ainda.
Eram dois homens de grande coração, de muito orgulho, e de imenso valor.
Pedro nada tinha que esperar; Paulo nunca se lembrou que lhe restava um tio.
Unidos sempre, esses homens embarcavam-se na leve canoa, e os férteis rios do Brasil lhes davam peixe para suas mulheres e seus filhos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.