Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Puseram-se algumas galinhas a girar atarantadas, ao passo que vários galos, já empoleirados na cumeeira da morada, bradavam novidade e uns porcos e bacorinhos aqui e acolá se erguiam dentre palhas de milho e, estremunhados, olhavam para os recém-chegados com olhos pequenos e cheios de sono.

Do interior da habitação, não tardou a sair uma preta idosa mal vestida, trazendo atado à cabeça um pano branco de algodão, cujas pontes pendiam ate ao meio das costas.

—Olá, Maria Conga, perguntou Pereira, que há de novo por cá?

—Atenção, meu senhor, pediu a escrava chegando-se com alguma lentidão.

—Deus te faça santa, respondeu o mineiro. Como vai a menina? Nocência?

—Nhã está com sezão.

—Isto sei eu, rapariga de Cristo; mas como passou ela de trasantontem para cá?

—Todo o dia, vindo a hora, nhã bate o queixo, nhor-sim.

—Está bem... É que o mal ainda não abrandou... Daqui a pouco, veremos. E a janta?... Está pronta? Venho varado de fome. Que diz, Senhor Cirino? indagou, voltando-se para 0 companheiro.

—Não se me dava também de comer alguma coisa. Temos razão para. . .

—Pois então, interrompeu Pereira, ponha pé no chão e pise forte que o terreno é nosso. Minha casa, ia lho disse, é pobre, mas bastante farta e a ninguém fica fechada.

Deu logo o exemplo, e descavalgou do cavalinho zambro, o qual foi por si correndo em direção a uma dependência da casa com formas de tosca estrebaria.

Apeou-se igualmente Cirino, mas, ao penetrar numa espécie de alpendre de palha que ensombrada a frente toda, mostrou repentina e viva contrariedade no gesto e na fisionomia.

—Ora, Senhor Pereira, exclamou ele batendo com o tacão da bota num sabugo de milho, só agora é que me lembro que as minhas cargas vão todas tomar caminho do Leal e aqui me deixam sem roupa, nem medicamentos. Que maçada! Devíamos ter esperado na boca da sua picada.

Respondeu-lhe o mineiro todo desfeito em expansivo riso:

—Olé, pois o doutor é tão novato assim em viagens? Então pensa que lá não deixei aviso seguro à sua gente? Não se lembra de um ramo verde que pus bem no meio da estrada real?

—É verdade, confirmou Cirino.

—E então? Daqui a pouco a sua camaradagem está batendo o nosso rasto. Entremos, que a fome já vai apertando.

Consistia a morada de Pereira num casarão vasto e baixo, coberto de sapé, com uma porta larga entre duas janelas muito estreitas e mal abertas. Na parede da frente que, talvez com o peso da coberta, bojava sensivelmente fora da vertical, grandes rachas longitudinais mostravam a urgência de serias reparações em toda aquela obra feita de terra amassada e grandes paus-a-pique.

Ao oitão da direita existia encostado um grande paiol construído de troncos de palmeiras, por entre os quais iam rolando as espigas de milho, com o contínuo fossar dos porquinhos, que dali não arredavam pé.

Corrido na frente de toda a vivenda, via-se um alpendre de palha de buriti, sustentado por grossas taquaras, ligeiro apêndice acrescentado por ocasião de alguma passada festa, em que o número de convidados ultrapassara os limites de abrigo da hospitaleira habitação.

Internamente era ela dividida em dois lanços: um, todo fechado, com exceção da porta por onde se entrava, e que constituiu o cômodo destinado aos hóspedes, outro, à retaguarda, pertencia à família, ficando, portanto, completamente vedado às vistas dos estranhos e sem comunicação interna com o compartimento da frente.

Era de barro compacto e secado o chão desta sala, vendo-se nele sinais de que as vezes ali se acendia fogo: pelo que estavam o sapé do forro e o ripamento revestidos de luzidia e tênue camada de picumã que lhes dava brilho singular como se tudo tora jacarandá envernizado.

—Isto aqui, disse Pereira penetrando na sala e sentando-se numa tripeça de pau, não é meu, e de quem me procura. Poucos vêm cá decerto parar, mas enfim é sempre bom contar com eles... Minha gente mora na dependência dos fundos.

E apontou para a parede fronteira à porta de entrada, fazendo um gesto para mostrar que a casa se estendia além.

—Senhor Pereira, disse Cirino recostando-se a uma sólida marquesa, não se incomode comigo de maneira alguma... Faça de conta que aqui não há ninguém

—Pois então, retorquiu o mineiro, deite-se um pouco, enquanto vou lá dentro ver as novidades. A hora é mais de comer, que de cochilar; mas espere deitadinho e a gosto, o que é sempre mais cômodo do que ficar de pé ou sentado.

Não desprezou o hóspede o convite. Tirou o pala, puxou as botas e, cruzando-as, fez dos canos travesseiros, em que descansou a cabeça.

Quem se coloca em posição horizontal, depois de vencidas umas estiradas léguas, adormece com certeza. Depressa veio, pois, o sono cerrar as pálpebras do recém-chegado e intumescer-lhe o peito com sossegada respiração.

Dormiu talvez hora e meia, e mais houvera dormido, se não fosse acordado pelo tropel de animais que paravam, e por grita de gente a pôr cargas em terra. Assomou Pereira à porta com ar jovial.

—Então, que lhe disse eu?

—De fato; estou agora sossegado.

—E o Senhor tomou uma boa data de sono.

—Quem sabe uma hora?

—Boa dúvida, se não mais. Fiquei todo esse tempo ao lado de Nocência, que de frio batia o queixo, como se estivesse agora em Ouro Preto, quando cai geada na rua.

—Então não vai melhor?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →