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#Romances#Literatura Brasileira

O Sacrifício

Por Franklin Távora (1879)

Era longe deles o pensamento de ocultar-se às vistas da família. Encontraram-se por ali casualmente. Paulo por ocasião de ir verificar quantas formas havia na casa de purgar. Virgínia de caminho para a choupana de uma moradora a quem devia encomendar umas varas de rendas de que precisava Maurícia. Sentaram-se um momento, e entraram a conversar, sem lhes ocorrer nenhum pensamento de que semelhante passo poderia dar causa a reparos.

A tarde estaca deliciosa. Namorados de outra esfera, namorados da cidade, trocariam ente si, apartados como estavam eles do centro da família, frases de sentido duvidoso, e talvez amplexos e beijos, que arriscassem as canduras que velam as primeiras paixões, como as neblinas ocultam os abismos. Aqueles dois pintassilgos, porém, meigos e inocentes, tinham suaves confidências que eram mais gorjeios do que palavras.

Eis o que eles diziam:

— Caiu? E por meu respeito! Quem o mandou à árvore?

— Queria trazer-lhe estes ingás. O galho, onde pus os pés, estava podre, e vim ao chão antes e tirar as frutas.

— Podia ter-lhe sucedido alguma coisa pior, Paulo. Para que faz isso?

— Como não tinha uma lembrança que lhe trazer, corri às frutas logo que as vi. Eu quero que você saiba, Virgínia, que não me esqueço nunca de você.

— Eu bem sei que você me quer bem. Não é preciso que se exponha a perigos. Não caia em outra, Paulo.

Outra vez foi D. Carolina que deu com eles conversando depois do almoço.

— Volte cedo hoje — dizia Virgínia. Quando você chega já estou cansada de esperar; tenho curtido uma saudade imensa. Assim que me parecem horas, subo ao quarto de mamãe, e da janela olho ao longe; nada de você aparecer! Vejo somente as árvores, os canaviais, os caminhos sem gente. As horas custam a passar. O sol fica preso no céu, e não anda.

— Que hei de fazer? disse Paulo em resposta. Não sabe que sem mim os negros não trabalham?

— Se mamãe não se agastasse, eu era capaz de ir fazer-lhe companhia no serviço. Que é que tinha? Levava a minha costura, e tendo-o por junto de mim, sentiria grande prazer no meu trabalho.

Para este rasgo de amor singelo e inocente, Paulo teve uma resposta muda:

passou o braço pela cintura de Virgínia e apertou-a contra o peito. A menina inclinou os olhos ao chão e pela primeira vez, sentiu, por um gesto de Paulo, o sangue subirlhe as faces.

D. Carolina julgou prudente referir o que vira ao marido acrescentando algumas reflexões.

— Já uma vez — disse Albuquerque — achei-os conversando ao lado do alpendre. Sua conversação era inocentes, mas indicava que eles se amam.

— Não será tempo e atalhar este sentimento? Paulo, se as coisas continuarem como vão, virá a perder o casamento com Iaiazinha, e isto seria muito desagradável porque há toda uma conveniência em que se case com a prima.

— E é verdade - tornou Albuquerque; são parentes muito chegados; o sangue é o mesmo. Quanto à fortuna de Iaiazinha pode calcular-se em cem contos de réis. Mas qual o meio de impedir, sem risco de desagradar a D. Maurícia o desenvolvimento destas inclinações? Se Alice não precisasse hoje, mais do que nunca, dos serviços de D. Maurícia, a dispensa destes serviços remediava o mal, e podia realizar-se sem o indício do seu principal motivo; mas devemos acaso arriscarnos com alguma providência de rigor e perder tão boa mestra? Demais, o que não sucederia nesta casa com semelhante separação? Alice, como você sabe, tem para D. Maurícia afeição de filha; Paulo pelo mesmo. Por aí, calcule quanta tristeza não entraria aqui com a ausência dela. D. Maurícia é muito digna, é até responsável; e se não fosse viver separada do marido, estou quase a dizer-lhe que não haveria desdouro em Paulo casar-se com Virgínia, porque o que verdadeiramente se deve exigir na união conjugal - o amor, este os liga e promete ser indissolúvel. Ora, eu quero a felicidade de meus filhos, e não estou ainda deliberado a aprovar o casamento de Paulo com a prima, cuja educação não me parece boa. Esta é a verdade.

Esta linguagem na boca de Albuquerque era a maior das contradições, e só indicava que os merecimentos de Maurícia e Virgínia tinham dado golpe profundo no preconceito que fora até então a primeira lei moral do senhor do engenho.

— Eu também não estou longe de pensar com você neste ponto. Mas então, vejo lá aonde isso irá ter, porque a afeição deles, com a docilidade que há, irá aumentando de dia em dia, e D. Maurícia não cessa de dizer que nunca mais voltará para a companhia do marido. Veja, então, o que se há de fazer, concluiu D. Carolina.

(continua...)

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