Por Franklin Távora (1878)
Francisco sobresteve um momento imóvel, como estatua; mas notando que o madrugador tão depressa levantara a cabeça, como se abaixará e desaparecera no meio do juncal, mergulhou por entre as folhagens que o ocultavam, e saiu da outra banda no animo de ir por dentro da água até ao ponto onde se sumira o desconhecido. Quando ia a atirar-se na água, a cabeça reapareceu a seus olhos, e uma voz, reboando por cima das aningas e dos juncos, foi levar-lhe aos ouvidos estas palavras, em grau de grito e em tom de repreensão: - Que vem cá fazer, Francisco? Você quer morrer? Era a voz de Marcelina.
Tanto bastou para que ele não avançasse mais um só passo. Fixando a vista com mais serenidade, reconheceu no desconhecido sua mulher.
- E você que está fazendo ai metida, com esse tempo todo? Saia dai, que nem sabe os sustos que me causou com sua ausência.
- Anda você sempre assustado, Francisco! Susto de que? Parece menino.
- Saia já, que eu não posso apanhar chuva.
Agora já não pôde apanhar chuva. Há, instantinhos podia até meter-se na água da lagoa. Parece menino este meu marido. Já lá vou.
Momentos depois, Marcelina achava-se na margem, a saia a tiracolo, o chapéu de palha na cabeça, os pés descalços, a perna de fora, sobraçando um alentado feixe de juncos.
- Então acha que só devo trabalhar nos cestos e na limpa dos abacaxis? perguntou ela ao marido, logo que se achou em terra firme. Vim cortar estes juncos para fazer esteiras de cangalha. Estão dando muito em Goiana, segundo me disse ontem o compadre Victorino, que até me encomendou umas de que precisa.
Livre do peso que lhe oprimia o coração como se fora uma montanha, não teve Francisco para sua mulher demonstrações de desagrado nem rudes expressões, antes agradecido á sua solicitude, para a qual não havia solução de continuidade; seu semblante fez-se de boa sombra, e até um risosinho meigo e terno ensaiou o matuto satisfeito com esta nova manifestação do gênio essencialmente ativo e previdente daquela com quem repartia o peso da vida.
- Não estranho, Marcelina, disse-lhe ele brandamente. – que você, vendo-me no estado em que me acho, trate de suprir as faltas da casa aumentando o seu esforço e trabalhando por você e por mim. Mas por que razão não me há de dizer o que tem de fazer antes de entrar em obra? Que lhe custa isso? Se me tivesse dito o que vinha aqui fazer, eu não teria saído de casa com risco de recair, estando já quase bom.
- Para que está dizendo isso? Se eu lhe dissesse que vinha cortar juncos na lagoa, você não me deixaria vir. Eu bem o conheço, Francisco.
- Deixava. Porque não deixava? No que eu não vejo razão foi em esconder-se de mim, quando eu já a tinha
visto.
- Cuidei que não me tinha visto, senão eu tinha logo aparecido. Eu disse comigo: Francisco, não me vendo, volta para casa, e deixa-me tempo de sair da lagoa nas costas dele.
- Que lembrança esta, Marcelina! Então as ervas não haviam de declarar-me a verdade?
Ora! Eu podia dizer-lhe que as tinha comprado ao Manoel da Hora, como disse quando você perguntou donde tinham vindo os cipós.
- E então os cipós também foram cortados por você na mata virgem?
Está bom, Francisco; fiquemos nisso. Você tudo quer saber. Vamos já para casa; Deus queira que não lhe voltem as malditas. Não satisfeito com apanhar esta chuva, ainda queria meter-se na água.
- Marcelina, você faz mal em andar assim só pelos matos. Para que faz isso, meu bem? As vezes aparecem por estas bandas, malfeitores. Ali dentro havia até bem pouco um couto dos negros fugidos do engenho. Quem sabe se não estão metidos lá ainda alguns que seu sargento-mór não pôde descobrir?
- Não se lembre disso, Francisco. Quem é que me há de ofender? Os negros? Eles não. Conheço todos e sei que gostam de mim, porque compro algumas coisas que trazem de seus mucambos. Vamos já, que a chuva está engrossando.
Assim falando, Francisco e Marcelina meteram-se por sob as folhagens, e com pouco estavam debaixo de coberta enxuta.
De outravez achava-se Francisco muito a seu salvo, limpando o seu partido de abacaxis, quando ouviu fortes bateduras na janela da casa.
Receando fosse alguma violência praticada pelos ditos negros, em quem ele, menos crédulo e simples do que sua mulher, não tinha a menor confiança, poz no ombro a enxada com que estava trabalhando e que, em caso de necessidade, serviria de arma contra os agressores, e tirou para a casa. Entrou ai agitado e perturbado.
- Hoje voltou muito cedo do serviço – disse-lhe Marcelina.
- Vim correndo ver que pancadas eram estas. Cuidei que, tendo-se você trancado com medo dos negros, eles, não pensando que eu me achasse aqui por perto, estavam botando a porta abaixo. Você tem lembranças, Francisco!
Eis a causa dos estrondos, que assustaram o almocreve.
De há muito Marcelina batalhava com o marido para que lhe arranjasse uma taboa, de que dizia ter grande necessidade. Por esquecimento ou por não lhe sobrar tempo, o matuto estava ainda em falta para com ela. Naquele dia Marcelina, que, quando tinha qualquer idéia que lhe parecia vantajosa, não descansava enquanto a não punha por obra, lembrou-se de um meio de realizar sua intenção, sem ser preciso o concurso do marido.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.