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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

Os versos de Eugênio eram apenas alguns ensaios incompletos e de forma tosca e imperfeita, e estrofes sem nexo esparsas aqui e acolá em pequenas tiras de papel. Eram as primeiras tentativas de um estro infantil que ensaiava os vôos, como o passarinho novo que não podendo ainda lançar-se pelo espaço, contenta-se com esvoaçar em torno do ninho.

O regente, que era também o seu professor de latim e muito curioso de espécimes desse gênero, conservou alguns desses versos, que lhe pareceram menos toscos e mais bem acabados, como as duas seguintes coplas:

Longe de teus lindos olhos,

Ó Margarida,

Passo a noite, passo o dia Em cruel melancolia; Ai! triste vida!

.................................................

Que importa estejas ausente

Ó bem querida;

O teu formoso semblante

Estou vendo a cada instante, Ó Margarida.

No gênero bucólico o que havia de mais completo e inteligível, era o seguinte:

Enquanto o nosso gado vai pastando

A verde relva ao longo da ribeira,

Vamos, Menalca, repousar um pouco A sombra da paineira.

Ali tu ressoando a doce avena

A Clore cantarás que é tua vida;

E eu te escutando chorarei saudades Da minha Margarida.

.......................................................

Mas basta; a sombra desce dos outeiros,

E o sol se esconde atrás daquela ermida, É tempo de ir buscar o manso gado Da minha Margarida.

O padre regente, conquanto admirasse o precoce talento poético do menino, foi às nuvens com semelhante descoberta, e tratou logo de seqüestrar e ir meter nas mãos do padre-mestre diretor aqueles execrandos papéis, à exceção de alguns poucos que como apreciador do talento de seu aluno quis conservar consigo.

O diretor, cheio de assombro e altamente escandalizado, resolveu chamar à sua presença e interrogar com todo o rigor o autor daquelas libertinagens, disposto a castigá-lo severamente.

— Que hipócrita! — exclamava o padre, cheio de santa indignação. — Em tão tenra idade e já com o coração tão corrompido!... ah! velhaquete!... e andava-me aqui com carinha de santo!... que castigo merece uma hipocrisia tal!...

Pobre menino!... aquela ingênua expansão de uma alma pura e afetuosa, que sabia ainda conciliar o culto do criador com o de criança, que se expandia como uma flor aos primeiros raios da aurora exalando perfumes de poesia, era pelo contrário aos olhos do fanático preceptor um pecado abominável, uma revoltante hipocrisia.

Portanto, depois que os seminaristas se recolheram do recreio e que a sineta deu sinal da hora do repouso, Eugênio foi intimado pelo seu regente para comparecer no quarto do padre-mestre diretor.

Este chamado era terrível. De ordinário só tinha lugar quando o estudante tinha incorrido em alguma grave falta, e era, quase sempre seguido de severas repreensões e por vezes de exemplares e rigorosos castigos. Transido de terror, posto que a consciência nada lhe argüisse, pálido e trêmulo como um réu, que vai ouvir a sentença de sua condenação, o pobre menino atravessou os longos corredores, e encaminhou-se para o cubículo do diretor, que ficava na extremidade do edifício.

— Então, senhor Eugênio, que papéis são estes? — foi-lhe logo perguntando sem mais preâmbulos o padre-mestre, com voz áspera e sobrolho carregado, e mostrando os papéis que tinham sido subtraídos da pasta do menino.

Eugênio reconheceu logo os seus papéis; ficou fulminado e lívido como um defunto. Quis responder, mas não atinava com o que havia de dizer. Tremendo e confuso abaixou a cabeça e calou-se.

— Que papéis são estes, senhor Eugênio? não me responderá?... continuou o padre com voz cada vez mais áspera.

Eugênio não respondia. Em pé, imóvel e de braços cruzados em frente do padre, que se achava sentado junto a uma mesa, dir-se-ia que a vergonha e o terror o tinham petrificado, se não fora um leve tremor que lhe agitava o corpo desde a cabeça até os pés.

— Com efeito, senhor estudante! — prosseguiu o padre com a voz grave e solene — quando nós todos aqui o tínhamos no conceito do melhor e mais bem comportado dos estudantes; quando eu o apontava como um exemplo a seus companheiros, cai-lhe enfim a máscara, e o senhor mostra que não é senão o tipo da mais rematada hipocrisia!... é incrível... entretanto é a pura verdade?... Que quer dizer esta carta?... estes versinhos? que abominação é esta? explique-me isto, senhor Eugênio. Então toda essa sua devoção, que tanto nos edificava, essa carinha de santo, esses seus modos humildes não eram mais do que uma máscara para nos enganar, e que encobria um libertino? é assim que corresponde aos louváveis desejos de seu pai, que tanta vontade tem de vê-lo padre? diga-me, não se peja dentro da consciência do triste papel que está fazendo?...

Que sermão para um menino de quinze anos e para uma alma tímida, boa e sensível como a de Eugênio.

(continua...)

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