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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

No primeiro dia que se seguiu a este colóquio, Lúcia cumpriu restritamente a ameaça que fizera de não voltar mais à fonte; mas só Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi, porém acompanhada de sua irmã e de Joana; pensava seriamente nas conseqüências daquele passo, e tinha medo; mais o coração a arrastava para lá. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava quando estava em casa, e que, além disso, subindo um pouco pela encosta do espigão podia atravessar o estreito trilho que embrenhando-se pelo pomar ia ter à fonte não pôde deixar de manifestar seu descontentamento não por palavras mas por seu ar triste e taciturno.

Ao terceiro dia Lúcia não pôde conter-se, tomou sua cestinha de costura e lá desceu a sentar-se à sombra no gramal da fonte. Elias bem o pressentiu; mas era já muito tarde para ter tempo e dar as voltas necessárias a fim de ocultar seus passos; e portanto lá não apareceu.

- Cumpriu a sua promessa de não ir mais à fonte? - perguntou-lhe ele no outro dia à hora da lição.

- Cumpri sim senhor; sozinha não vou lá mais.

- Entretanto se me não engano parece-me que a vi ontem descer sozinha para lá.

- Quem? A mim? O senhor viu? . . .

- Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.

- Pode ser. . . à tarde faz tanto calor aqui em casa; e demais estou certa que o senhor lá não há de aparecer, não é assim?

Elias sorriu-se, e Lúcia sentiu o rubor afoguear-lhe as faces.

Elias costumava caçar pelos campos do arredor, mui abundantes em perdizes, codornizes e outras caças.

No dia seguinte, logo após o jantar, arreou seu cavalo, pegou na espingarda, chamou seu cão, e saiu. Deu longas voltas para poder, sem ser observado, entrar pelo capão que desde as cabeceiras bordejava o córrego até os fundos do quintal. Apenas se embrenhou no mato, apeou-se, atou o animal a uma árvore, e desceu costeando o córrego por estreitos trilhos feitos pelos pés do gado e de animais silvestres.

Elias contava quase com certeza encontrar Lúcia na fonte, e não se enganou. Ela já estava com efeito, não naquele doce descuido d’alma, em que a temos visto outras vezes, mas inquieta, anelante, como a corça espavorida, que cuida ouvir a cada instante o latir dos cães e as vozes do caçador.

A entrevista durou apenas alguns minutos. Elias, que tinha estudado mil frases apaixonadas, apenas disse, tomandolhe a mão e beijando- a:

- Eis-me aqui, D. Lúcia; perdoe-me esta audácia. . . se soubesse quanto a amo! . . .

- O senhor é bem mimoso – disse ela entre risonha e enfadada. - Não lhe tinha pedido que não viesse aqui? . . .

- Bem lhe queria obedecer; mas o amor foi mais forte que eu. Vim para ouvir de seus lábios uma só palavra de que depende a minha felicidade, a minha vida. Diga-me, a senhora me tem amor? . . .

Lúcia hesitou um instante, fitou os olhos no chão, e murmurou timidamente:

-muito! . . .

- Anjo! - exclamou Elias caindo a seus pés e procurando derramar em palavras de ternura o prazer que lhe transportava a alma; mas não pôde dizer mais nada. Quando o coração está cheio de felicidade, a vida toda se concentra ali, a cabeça fica erma de idéias, e a língua fica paralisada.

Mas Lúcia imediatamente o tirou daquele embaraço, dizendo-lhe com ar inquieto.

- Está satisfeito o seu desejo. Agora retire-se, retire-se quanto antes. A cada momento pode aqui chegar alguém. . .

E, tirando uma flor que tinha no cabelo, a entregou a Elias. Este enlaçando-lhe o braço em torno ao colo, tomou-lhe a mão e beijou- a com ardor. Foi tudo quanto ousou fazer.

- Adeus!

- Adeus!

Quando Lúcia, tendo dado alguns passos, voltou o rosto para ver ainda uma vez seu amante, avistou- o de joelhos, beijando a relva em que ela estivera reclinada. Fez-lhe vivamente aceno com a mão, para que se retirasse, e sumiu-se entre o laranjal.

Eis em que consistiu aquela entrevista tão ardentemente desejada. Parece que não valia a pena tomarem tanto trabalho, sujeitarem-se a tantos sustos e inquietações, para trocar duas palavras, dar um beijo na mão e receber uma flor. Mesmo debaixo dos tetos do Major não faltaria ocasião azada para fazerem outro tanto muito a seu salvo. mas era sempre uma entrevista, e uma entrevista tem grande importância aos olhos dos amantes, principalmente se tem lugar ao ar livre, tendo por testemunhas o céu, o bosque, a fonte. É mais uma prova de confiança mútua, uma garantia mais solene da lealdade e pureza do amor. O beijo da entrevista é o selo imposto ao contrato que liga para sempre duas almas.

Os amantes são de ordinário mui fáceis em capacitar-se de que ninguém adivinha o sentimento que lhes ocupa o coração; cegos, não se apercebem que em cada palavra, em cada gesto, em cada olhar estão traindo a todo o momento a paixão que julgam escondida nos mais íntimos seios d’alma e que entretanto lhes vai transparecendo em todo o seu ser.

(continua...)

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