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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Os dois contendores estavam em distância de quatro a cinco passos um do outro; as facas brandidas convulsivamente relampeavam ameaçadoras por cima de suas cabeças, rangiam-lhes os dentes, e nos olhos lhes fuzilava um lume torvo como as chamas do inferno. Eram como dois canguçus enciumados, que ao se encontrarem arreganham os dentes e rosnam furiosos antes de se arrojarem um sobre o outro.

O negócio já cheirava a sangue, e aquela festa, começada na paz e na alegria, estava prestes a ter o mais sanguinolento desfecho.

— Misericórdia! misericórdia! — que será isto! — Virgem Santa! — bradavase de todos os cantos.

Uma turba de homens e mulheres em gritos lançam-se afoitamente em meio dos dois.

— Deixe, deixe esse maluco vir rasgar-me as tripas! vociferava Reinaldo como querendo voar por cima deles e a muito custo o podiam conter.

— Chega-te, rapaz, rugia Gonçalo, chega-te para cá, que quero aqui mesmo coser-te a facadas, e aliviar-te para sempre desse ciúme danado que te ferve no coração.

Por alguns momentos durou esta cena sinistra, que teria tido o mais trágico resultado, se a turba em uma gritaria imensa não se entrepusesse intrepidamente entre as duas facas, que se agitavam fuzilando por cima daquela multidão de cabeças, e já retiniam chocando-se uma na outra; até que a muito custo conseguiu-se que se não travasse a luta.

O sossego restabeleceu-se finalmente; mas que sossego triste e desanimado! que contraste entre o festival e alegre bulício e algazarra que ainda há pouco reinavam naquela reunião e esse surdo e sinistro murmúrio que agora rumorejava pelos ângulos da sala. Os convivas tinham perdido toda a vontade de rir e divertir-se, e andavam em grupos pelos cantos conversando em voz baixa debaixo da impressão de um invencível terror, fazendo as mais temerosas reflexões sobre aquele triste incidente.

Em vão mestre Mateus com seu ar bonachão e jovial se esforçava por desvanecer a terrível impressão que deixara nos ânimos de todos aquela temerosa pendência; era tudo baldado. Os mais prudentes ou medrosos foram-se pondo ao fresco, e a sala em poucos instantes ficou reduzida a menos de metade dos comparsas.

— Vamos, minha gente! gritava mestre Mateus, que pasmaceira é esta! aquilo foi uma ninharia, e uma travessura de rapazes; daqui a pouco terão esquecido tudo, e estarão mais amigos do que dantes. Vamos, rapaziada! ânimo! tomem da assada, e vamos com o folguedo acima.

Gonçalo, posto que não deixasse de sentir profundo abalo com aquele conflito com o seu amigo, entendeu que faria um triste papel se continuasse a ficar mudo e amuado; portanto, sopeando o mais que pôde sua emoção, saltou logo na sala com o maior desembaraço exclamando:

— Êh! com mil diabos! tens razão, compadre; viva o prazer, leve o diabo a tristeza, e vamos com a folia por diante. O que sucedeu foi uma bagatela sem importância. Não é a primeira vez, nem será a última, que se vê dois homens puxarem faca um contra outro; nós não somos crianças; e se Reinaldo entende que eu o agravei, não faltará ocasião nem lugar mais oportuno em que possa desagravar-se: não é assim, Reinaldo?

— Sem dúvida, rosnou Reinaldo com voz carregada.

— Viva a paz! viva a alegria! exclamou mestre Mateus batendo palmas. Falou quem pode: não há mais motivo de desgosto; toca a folgar. Mas agora, camaradas, caluda sobre este negócio! Não quero por modo nenhum que se saiba aí por essas ruas, que em minha casa, onde nunca houve desordens, e sempre gozou de muito boa fama, puxaram-se facas, e esteve-se em termos de ver correr sangue. O passado, passado; faça-se de conta que nada houve e toca a folgar. Olá das violas, vamos com isto!... um vai-de-roda bem esquentado!

As violas ressoaram, e a dança recomeçou, se bem que ainda um tanto fria e constrangida. Gonçalo porém dançava, palrava e gritava por todos com a maior frescura e desembaraço, como se nada tivesse acontecido. Com o seu exemplo os outros também foram pouco a pouco se animando. Quanto à Maroca, ia também gradualmente recuperando toda sua desenvoltura natural, e alardeava de novo toda a sua graça e faceirice.

Só Reinaldo, triste e taciturno a um canto, não podia dissimular a tremenda tempestade que lhe agitava o espírito, e devorava em silêncio lágrimas de raiva e desesperação.

Gonçalo pela sua parte ia-se sentindo cada vez mais subjugado pelos encantos da sedutora menina. Aquela triste pendência com um amigo, a quem gratuitamente ofendera, longe de contê-lo em seus desmandos, não foi mais que um novo incentivo que lhe fez mais vivamente cobiçar aquela beleza tão ciosamente vigiada por seu amante.

Pela primeira vez em sua vida estava disposto a desenvolver toda sua força de touro, toda sua bravura de leão, toda a sua destreza de onça, não por um mero capricho ou ostentação de valentia, mas para satisfazer uma paixão cega, que lhe rebentava na alma com a violência de um vulcão.

Este amor fatal – se é que se pode chamar amor um desejo caprichoso e brutal – junto à louca mania de querer provar a todos a força e agilidade de seu braço, extinguiram ao menos naquela noite no coração de Gonçalo todo o instinto de lealdade, todo o sentimento de amizade que ainda votava a Reinaldo.

(continua...)

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