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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

– Valente! – exclamou ele com um sorriso forçado e amarelo; – ora não fale, prima. É paulista, e basta. Dizer paulista, é o mesmo que dizer bazófia e fanfarrice. Eu tenho matado mais onças, antas, queixadas, jacarés, sucuris, e quanto bicho bravo há pelo mato, do que a prima mata de pulgas na sua cama, e disso nem dou fé e nem ando me gabando. Agora porque aquele pelintra de um muladeiro matou por acaso uma onça estão fazendo um escarcéu, meu Deus! já pensam que estão em casa com um Roldão ou um Ferrabrás de Alexandria.

– Não é por ter matado a onça, primo... arre lá! quem ouvisse isto, havia de dizer que o primo ou tem a cabeça muito dura ou o coração muito mau; não é por ter matado ao nça, já se lhe disse, – mas por me ter salvado a vida, que damos e havemos de dar sempre a nossa amizade e gratidão a esse digno moço.

– Ora gratidão!... outro qualquer teria feito o mesmo. Eu também quando a prima era mais pequena, não se lembra? não a livrei de ser atravessada pelos chifres de um boi bravo?... se eu não agarro e carrego-a no ombro, e pulo de um salto a cerca do curral, adeus, prima Paulina! já estava comendo terra há muitos anos. E nem por isso eu vi ninguém vir derreter-se em agradecimentos...

– Ora, primo, nem fale nisso. Eu era uma criancinha, não podia dar o devido apreço a esse imenso serviço que me fez o primo. Mas hoje eu o reconheço, e beijo-lhe as mãos agradecida, meu bom e valente primo. Mas se também lhe devo a vida, primo, não é isso razão para que eu deixe de mostrar-me também agradecida a quem acaba de prestar-mo um serviço não menos importante.

Quanto mais Paulina procurava encarecer as qualidades de Eduardo, e a nobre e valerosa façanha de que fora herói, tanto mais se exacerbava o ciumento Roberto, e mais procurava deprimir e abocanhar aquele que em sua imaginação já era um rival perigoso.

– Enfim, prima, – disse ele com fingida indiferença – faça lá e pense lá o que quiser. O que sei dizer é que se aquela maldita onça o tivesse alinhavado ali, bem pouco se perdia.

– Não fale assim, primo. Que agravo lhe fez esse moço para lhe desejar tanto mal?

– Quem sabe se a prima está pensando, que aquela figura é alguma coisa neste mundo. Se a prima o não conhece, conheço-o eu muito bem. Não passa de um tocador de bestas muito ordinário e muito gangolina, que tem passado a manta a meio mundo. A mim mesmo empurrou-me ele por duzentos mil-réis uma besta pêlo de rato, que não vale cem, e que vem a não servir nem para cangalha. Mesmo esse punhado de bestas, que vem tocando, a prima pensa que é dele? Qual! O biltre não é mais do que um capataz, que vem impingir o refugo da tropa do patrão aos bobos do sertão.

– E que nos importa isso, meu primo, o que sei é que ele me salvou galhardamente a vida das garras de uma onça e é motivo de sobra para que eu lhe seja eternamente agradecida, e creio que também para que o primo não abocanhe e não despreze assim um homem, que não lhe fez mal algum.

– Nenhum mal!... eu sei!.. e também que me importa a mim esse homem. Ou por sim, ou por não, amanhã ou depois, logo que ele possa montar a cavalo, hei de levá-lo para minha casa, porque é nosso hóspede, e meu tio nenhuma obrigação tem de agüentá-lo.

– Alto lá, primo! – atalhou Paulina com vivacidade;– menos essa!... temos muito mais obrigação do que o senhor, e havemos de agüentá-lo com muito prazer. Enquanto não sarar de todo, ele é nosso, e não arreda pé daqui.

– Isso era bem belo!.. e a mulada dele que lá fica à toa?... não hei de ser eu que hei de tomar conta dela. Aquele arranhão, que levou, ora bolas! aquilo sara num instante, e nestes dois ou três dias ele que trate de montar a cavalo, vá tomar conta da sua tropa, e depois... puxe para a sua terra, e passe por lá muito bem.

– Arre! primo! que ojeriza é essa que tomou com o pobre moço! pois

ele não tem camaradas, que tomem conta da tropa!...

– Muito ordinários; uma súcia de preguiçosos.

– Nesse caso mandaremos uma pessoa capaz de tomar conta da mulada; mas ele não; tão cedo não se poderá mover daqui. Coitado! perdeu tanto sangue; está tão fraco.

– Coitadinho do nhonhô cheiroso! olhem não vá morrer de fraqueza – exclamou Roberto com uma expressão de ironia e um trejeito de cara indefinível – o tal maganão, prima, parece que caiu-lhe no gosto... não quererá também guardá-lo no seio?... Prima, olhe que não fica bonito a uma moça filha-família mostrar tamanho empenho assim por um... um... pé de poeira, que ninguém sabe donde veio, nem para onde vai...

Esta grosseira reprimenda fez enrubescer até os olhos a filha do fazendeiro. O rústico primo tinha tocado do modo o mais rude e brutal em uma ferida recente, de que a menina ainda nem dava fé, e a fazia sangrar cruelmente.

Mas aquela primeira perturbação do pudor virginal para logo passou e deu lugar ao despeito e à indignação. Vermelha como lacre, e mal retendo uma lágrima, que lhe pendia da pálpebra trêmula e cintilante, levantou a cabeça com altivez e respondeu:

(continua...)

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