Por Bernardo Guimarães (1875)
Isaura teria soltado um grito de pavor, se há muito não estivesse familiarizada com aquela estranha figura, pois era ele, sem mais nem menos, o senhor Belchior, fiel e excelente ilhéu, que há muitos anos exercia naquela fazenda mui digna e conscienciosamente, apesar de sua deformidade e idiotismo, o cargo de jardineiro. Parece que as flores, que são o símbolo natural de tudo quanto é belo, puro e delicado, deviam ter um cultor menos disforme e repulsivo. Mas quis a sorte ou o capricho do dono da casa estabelecer aquele contraste, talvez para fazer sobressair a beleza de umas à custa da fealdade do outro.
Belchior tinha em uma das mãos o vasto chapéu de palha, que arrastava pelo chão, e com a outra empunhava. não um ramalhete, mas um enorme feixe de flores de todas as qualidades, à sombra das quais procurava eclipsar sua desgraciosa e extravagante figura. Parecia um desses vasos de louça, de formas fantásticas e grotescas, que se enchem de flores para enfeitar bufetes e aparadores.
—Valha-me Deus! — pensou Isaura ao dar com os olhos no jardineiro.
— Que sorte é a minha! ainda mais este!... este ao menos é de todos o mais suportável: os outros me amofinam, e atormentam: este as vezes me faz rir.
— Muito bem aparecido, senhor Belchior! então, o que deseja?
— Senhora Isaura, eu... eu... vinha... — resmungou embaraçado o jardineiro.
—Senhora!... eu senhora!... também o senhor pretende caçoar comigo, senhor Belchior?...
— Eu caçoar com a senhora!... não sou capaz... minha língua seja comida de bichos, se eu faltar com o respeito devido à senhora... Vinha trazer-lhe estas froles, se bem que a senhora mesma é uma frol...
— Arre lá, senhor Belchior!... sempre a dar-me de senhora!... se continua por essa forma, ficamos mal, e não aceito as suas froles... Eu sou Isaura, escrava da senhora D. Malvina; ouviu, senhor Belchior!
— Embora lá isso; e soverana cá deste coração, e eu, menina, dou-me por feliz se puder beijar-te os pés. Olha, Isaura...
— Ainda bem! Agora sim; trate-me desse modo.
— Olha, Isaura, eu sou um pobre jardineiro, lá isso é verdade; mas sei trabalhar, e não hás de achar vazio o meu mealheiro, onde já tenho mais de meio mil cruzados. Se me quiseres, como eu te quero, arranjote a liberdade, e caso-me contigo, que também não és para andar aí assim como escrava de ninguém.
— Muito obrigada pelos seus bons desejos; mas perde seu tempo, senhor Belchior. Meus senhores não me libertam por dinheiro nenhum.
— Ah! deveras!... que malbados!... ter assim no catibeiro a rainha da Jermosura!... mas não importa, Isaura; terei mais gosto em ser escravo de uma escrava como tu, do que em ser senhor dos senhores de cem mil cativos. Isaura!... não fazes idéia de como te quero. Quando vou molhar as minhas froles, estou a lembrar-me de ti com uma soidade!...
— Deveras! ora viu-se que amor!...
— Isaura! — continuou Belchior, curvando os joelhos, — tem piedade deste
teu infeliz cativo...
— Levante-se, levante-se, — interrompeu Isaura com impaciência.
— Seria bonito que meus senhores viessem aqui encontrá-lo fazendo esses papéis!... que estou-lhe dizendo?... ei-los aí!... ah! senhor Belchior!
De feito, de um lado Leôncio, e de outro Henrique e Malvina, os estavam observando.
Henrique, tendo-se retirado do salão, despeitado e furioso contra seu cunhado, assomado e leviano como era, foi encontrar a irmã na sala de jantar, onde se achava preparando o café e ali em presença dela não hesitou em desabafar sua cólera, soltando palavras imprudentes, que lançaram no espírito da moça o germe da desconfiança e da inquietação.
— Este teu marido, Malvina, não passa de um miserável patife — disse bufando de raiva.
— Que estás dizendo, Henrique?!... que te fez ele?... – perguntou a moça, espantada com aquele rompante.
—Tenho pena de ti, minha irmã... se soubesses... que infâmia!...
— Estás doido, Henrique!... o que há então?
— Permita Deus que nunca o saibas!... que vilania!...
— O que houve então, Henrique?... fala, explica-te por quem és, — exclamou Malvina, pálida e ofegante no cúmulo da aflição.
— Oh! que tens?... não te aflijas assim, minha irmã, - respondeu Henrique, já arrependido das loucas palavras que havia soltado. Tarde compreendeu que fazia um triste e deplorável papel, servindo de mensageiro da discórdia e da desconfiança entre dois esposos, que até ali viviam na mais perfeita harmonia e tranquilidade. Tarde e em vão procurou atenuar o terrível efeito de sua fatal indiscrição.
— Não te inquietes, Malvina, continuou ele procurando sorrir-se; - teu marido é um formidável turrão, eis aí tudo; não vás pensar que nos queremos bater em duelo.
— Não; mas vieste espumando de raiva, com os olhos em fogo, e com um
ar...
— Qual!... pois não me conheces?... sempre fui assim; por – dá cá aquela palha — pego fogo, mas também é fogo de palha.
— Mas pregaste-me um susto!...
— Coitada!... toma isto, — disse-lhe Henrique, oferecendo-lhe uma xícara de café, é a melhor coisa que há para aplacar sustos e ataques de nervos.
Malvina procurou acalmar-se, mas as palavras do irmão tinham-lhe penetrado no âmago do coração, como a dentada de uma víbora, aí deixando o veneno da desconfiança.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. A escrava Isaura. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16580 . Acesso em: 21 fev. 2026.