Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Se não conheceis bastante que homem era esse Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, informai-vos das melhores obras antigas de que se ufana a capital do Brasil, e avaliareis as proporções desse ilustre varão pela altura dos monumentos e pela importância dos trabalhos que executou.
Se ainda não vos basta isso, ide ao paço da nossa municipalidade, e aí encontrareis o seu retrato conservado pela mais justa gratidão e permitido muito excepcionalmente por el-rei de Portugal, que reco nheceu os direitos que ele tinha a essa patriótica manifestação, de que até então somente os soberanos podiam ser objeto.
Quereis ainda conhecê-lo melhor? Apreciai-o na morte, depois de havê-lo admirado na vida. O conde de Bobadela achava-se com a saúde alterada, quando os espanhóis, em 1762, tomaram a colônia do Sacramento, e logo depois desbarataram uma esquadrilha que em socorro dos portugueses ele mandara. Estes desastres e a injusta murmuração com que o ofenderam os negociantes do Rio de Janeiro, que muito sofreram em seus interesses com a perda da colônia, o afrontaram de paixão tão grave que morreu em janeiro de 1763.
Realmente, já não há Bobadelas no nosso tempo! Nem com a lanterna de Diógenes seríamos capazes de encontrar um ministro que morresse de desgosto por causa de um desastre desses. A medicina pode descansar completamente: a moléstia de que morreu o conde de Bobadela já não aparece hoje em dia, nem mesmo com caráter esporádico.
Não esqueçamos, porém, a história do palácio.
Palácio? É preciso atender ao modo por que nos exprimimos. Palácio não. Casa dos governadores sim. Uma carta régia proibiu chamar palácio à casa da residência dos governadores. Palácio, pois, deveríamos chamá-la somente mais tarde, se não estivéssemos há mais de um século de distância daquela ordem de el-rei, e por isso livres de culpa e pena.
Um pouco de favor da virtude da paciência. Trata-se agora da descrição.
O palácio (perdi o medo à carta régia) passou por algumas modificações, que convém lembrar cronologicamente.
Constava ele, como ainda hoje, de quatro faces octogonais. A principal, que olha para o mar, oferecia à vista três corpos separados por pilastras e com três janelas em cada um deles. Tinha um só andar, e inferiormente três pórticos de pedra mármore branca, sendo o do centro formado por duas colunas rematadas superiormente por graciosas cambotas, e os dos laterais mais estreitos e de forma vulgar. De um e outro lado destes, abriam-se janelas de peitoril. Cada um dos pórticos descansava sobre uma escadaria própria, de mármore branco.
A face do norte apresentava, ao ligar-se com a anterior descri ta, um pórtico fronteiro a outro igual da face do sul, dando entrada para o saguão, e além desse, mais dois para serventia particular, e entre eles duas cocheiras e dezenove janelas de peitoril. No pavimento superior, havia vinte e quatro janelas como as da fachada principal.
Na face do sul, que olha para o atual paço da Câmara dos Deputados, havia, além do outro pórtico, vinte e três janelas de peitoril e mais uma porta para serviço particular, e no pavimento superior vinte e três janelas, das quais sete eram de peitoril e colocadas quase a meio da fachada.
A face do fundo apresentava nove janelas de sacada no andar superior, e inferiormente um pórtico ladeado por quatro janelas de peitoril.
A entrada do palácio era nobre: duas filas de colunas conduziam à escada, que agora é nobre, também constando de dois lances no mesmo sentido e outros dois em sentido oposto. Como era, porém, no tempo do conde de Bobadela, não sei: não nos ficou memória da escada primitiva, sem dúvida porque no século passado ainda não se conhecia no Brasil a importância extraordinária que tem uma boa escada.
Depois do conde de Bobadela, chegou a seu tempo a vez do vice-rei conde de Resende aumentar as proporções do palácio. O primeiro, como simples governador, tinha-se contentado com um só andar, além do pavimento inferior. O conde de Resende, que era vice-rei, elevou-se a maior altura, e fez construir um segundo andar de doze janelas de sacada que se vê ao meio do primeiro da face do norte.
Abro um parêntesis nesta descrição, que não me custa nada, porque apenas tenho o trabalho de copiá-la de um livro cujo título não declaro, para ver se passo por autor da obra, e interrompendo por momentos o fio do discurso, entro em certas explicações que não me parecem desnecessárias.
Visto que, com as obras dos dois condes, o palácio já tem
não menos de cento e vinte e cinco janelas, convém dizer o que se via nesse
tempo mais próximo a elas.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.