Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Alfarrábios: o Ermitão da Glória

Por José de Alencar (1853)

— Maria da Gloria! bradou o corsario arrastando-se de joelhos para a cabeceira do leito.

Demorou a menina um instante n'elle o olhar e o sorriso, depois volvendo-os ao nicho cruzou as mãos ao peito, e balbuciou flebilmente algumas palavras de que apenas se ouviram estas:

— Eu vos rendo graças, minha celeste Madrinha, minha Mãi Santissima, por me terdes ouvido...

Expirou-lhe a voz nos labios; outra vez cerraram-se as palpebras, e descahiu-lhe a cabeça nas almofadas. A donzella dormia um somno placido e sereno.

Passára a crise da infermidade. Estava salva a menina.

NOVENA

A primeira vez que Maria da Gloria sahiu da camara para a varanda, foi uma festa em casa de Duarte de Moraes.

Ninguem se cabia de contente com o regozijo de ver a menina outra vez restituida ás alegrias da familia.

De todos o que mostrava menos era Ayres de Lucena, pois por instantes sua feição velava-se com uma nuvem melancholica ; mas sabiam os outros que dentro d'alma ninguem maior, nem tamanho jubilo sentira, como elle; e sua tristeza n'aquelle momento era alembrançado que soffrera vendo a moça a expirar.

Ahi estava entre outras pessoas da privança da casa, Antonio de Caminha que se houvera galhardamente na perseguição dos francezes, embora não lograsse capturar a preza a que dera caça.

Não escondia o moço o regozijo que sentia com o restabelecimento d'aquella a quem já tinha chorado, como perdida para sempre.

N'esse dia revelou Maria da Gloria aos pais um segredo que escondia.

—É tempo de saberem o pai e a mãi que fiz um voto a N. Senhora da Gloria, e peço sua licença para o cumprir.

— Tu a tens! disse Ursula..

— Fala ; dize o que prometteste! acrescentou Duarte de Moraes.

— Uma novena.

— O voto foi para te pôr boa? perguntou a mãi.

Córou a moça e confusa esquivou-se á resposta. Acudiu então Ayres que até ali ouvira calado:

— Não se precisa saber o motivo; basta que o voto se fez, para se dever cumprir. Tomo sobre mim o que fôr preciso para a novena, e não consinto que ninguem mais se encarregue d'isso; estais ouvindo, Duarte de Moraes.

Cuidou Ayres desde logo nos aprestos da devoção, e para que se fizesse com o maior apparalo, resolveu que a novena seria em uma capella do mosteiro, para o qual se transportaria de seu nicho da escuna a imagem de N. Senhora da Gloria.

Diversas vezes foi elle com Maria da Gloria e Ursula a uma loja de capellista para se proverem de alfaias com que adornassem a sagrada imagem. O melhor ourives de S. Sebastião incumbiuse de fazer um novo resplendor cravejado de brilhantes, emquanto a menina com suas amigas recamava de alcachofras de ouro um rico manto de brocado verde.

N'este preparativos consumiam-se os dias, e tão occupado andava Ayres com elles, que não pensava em outra cousa, nem já se lembrava do voto que fizera; passava as horas junto de Maria da Gloria, entretendo-se com ella dos adereços da festa, satisfazendo-lhe as minimas fantasias; essa doce tarefa o absorvia por modo que não lhe sobravam nem pensamentos para mais.

Afinal chegou o dia da novena, que celebrouse com uma pompa ainda não vista na cidade de S. Sebastião. Foi grande a concurrencia de devotos que vieram de S. Vicente e Itanhaem para assistir á festa.

A todos encantou a formosura de Maria da Gloria, que tinha um vestido de riço azul com recamos de prata, e um collar de turquezas com arrecadas de saphiras.

Mas suas joias, de maior preço, as que mais a adornavam, eram as graças de seu meigo semblante que resplandecia com uma aureola celeste.

— Jesus!... exclamou uma velha beata. Podiase tirar d'ali, e pol-a no altar que a gente havia de adoral-a, como a propria imagem da Senhora da Gloria.

Razão, pois, tinha Ayres de Lucena, que toda a festa a esteve adorando, sem carecer de altar, e tão absorto, que de todo esqueceu o lugar onde se achava, e o fim que ali o trouxera.

Só quando, terminada a festa, elle sahia com a familia de Duarte de Moraes, acudiu-lhe que não rezára na igreja, nem rendera graças á Senhora da Gloria por cuja milagrosa intercessão escapára a menina da cruel enfermidade.

Era tarde porém; e si passou-lhe pela mente a idea de tornar á igreja para reparar seu esquecimento, o sorriso de Maria da Gloria arrebatou-lhe de novo o espirito n'aquelle enlevo, em que o tivera preso.

Depois da doença da menina dissipára-se o enleio que ella sentia na presença de Ayres de Lucena. Agora com a chegada do corsario, em vez de acanhar-se, ao contrario expandia-se a flôr de sua graça, e desabrochava em risos, embora roseados pelo pudor.

Uma tarde que passeiavam os dois pela ribeira, em companhia de Duarte de Moraes e Ursula, Maria da Gloria, vendo embalar- se airosamente sobre as ondas a escuna, soltou um suspiro e voltando-se para Lucena, disse-lhe:

— Agora tão cedo não vai ao mar!

— Porque ?

— Deve descançar. .

— Sómente por isso ? perguntou Ayres desconsolado.

— E tambem pelas saudades que deixa aos que lhe querem, e pelos cuidados que nos leva. O pai que diz? Não é assim?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →