Por Martins Pena (1845)
CLEMÊNCIA – Talvez que não ignore que pela sentida morte de meu defunto...
(Finge que chora) fiquei senhora de uma boa fortuna.
GAINER – Boa fortuna é bom.
CLEMÊNCIA – Logo que estive certa de sua morte, fiz inventário, porque me ficavam duas filhas menores; assim me aconselhou um doutor de S. Paulo. Continuei por minha conta com o negócio do defunto; porém o sr. mister bem sabe que numa casa sem homem tudo vai para trás. Os caixeiros mangam, os corretores roubam; enfim, se isto durar mais tempo, dou-me por quebrada.
GAINER – Este é mau, quebrada é mau.
CLEMÊNCIA – Se eu tivesse porém uma pessoa hábil e diligente que se pusesse à testa de minha casa, estou bem certa que ela tomaria outro rumo.
GAINER – It is true.
CLEMÊNCIA – Eu podia, como muitas pessoas me têm aconselhado, tomar um administrador, mas temo muito dar esse passo; o mundo havia ter logo que dizer, e minha reputação antes de tudo.
GAINER – Reputation, yes.
CLEMÊNCIA – E além disso tenho uma filha já mulher. Assim, o único remédio que me resta é casar.
GAINER – Oh, yes! Casar miss Mariquinha, depois tem uma genra para toma conta na casa.
CLEMÊNCIA – Não é isto o que eu lhe digo!
GAINER – Então mi não entende português.
CLEMÊNCIA – Assim me parece. Digo que é preciso que eu, eu me case.
GAINER, levantando-se – Oh, by God! By God!
CLEMÊNCIA, levantando-se – De que se espanta? Estou eu tão velha, que não possa casar?
GAINER – Mi não diz isto... Eu pensa na home que será sua marido.
CLEMÊNCIA, à parte – Bom... (Para Gainer:) A única coisa que me embaraça é a escolha. Eu... (À parte:) Não sei como dizer-lhe... (Para Gainer:) As boas qualidades... (Gainer, que já entendeu a intenção de Clemência, esfrega, à parte, as mãos de contente. Clemência, continuando:) Há muito que o conheço, e eu... sim... não se pode... o estado deve ser considerado, e... ora... Por que hei de eu ter vergonha de o dizer?... Sr. Gainer, eu o tenho escolhido para meu marido; se o há de ser de minha filha, seja meu...
GAINER – Mim aceita, mim aceita!
CENA XXVI
ALBERTO sai da janela com NEGREIRO e agarra GAINER pela garganta.
CLEMÊNCIA – O defunto, o defunto! (Vai cair desmaiada no sofá, afastando as cadeiras que acha no caminho.)
GAINER —Goddam! Assassina!
ALBERTO, lutando – Tu é que me assassinas!
GAINER – Ladrão!
NEGREIRO – Toma lá, inglesinho! (Dá-lhe por trás.)
ALBERTO, lutando – Tu e aquele infame...
CENA XXVII Entra MARIQUINHA e JÚLIA.
MARIQUINHA – O que é isto? Meu pai! Minha mãe! (Corre para junto de Clemência.) Minha mãe! (Alberto [é] ajudado por Negreiro, que trança a perna em Gainer e lança-o no chão. Negreiro fica a cavalo em Gainer, dando e descompondo. Alberto vai para Clemência.)
ALBERTO – Mulher infiel! Em dois anos de tudo te esqueceste! Ainda não tinhas certeza de minha morte e já te entregavas a outrem? Adeus, e nunca mais te verei.
(Quer sair, Mariquinha lança-se a seus pés.)
MARIQUINHA – Meu pai, meu pai!
ALBERTO – Deixa-me, deixa-me! Adeus! (Vai sair arrebatadamente; Clemência levanta a cabeça e [implora a] Alberto, que ao chegar à porta encontra-se com Felício. Negreiro e Gainer neste tempo levantam-se.)
FELÍCIO – Que vejo? Meu tio! Sois vós? (Travando-o pelo braço, o conduz para a frente do teatro.)
ALBERTO – Sim, é teu tio, que veio encontrar sua casa perdida e sua mulher infiel!
GAINER – Seu mulher! Tudo está perdida!
ALBERTO – Fujamos desta casa! (Vai a sair apressado.)
FELÍCIO, indo atrás – Senhor! Meu tio! (Quando Aberto chega à porta, ouve-se cantar dentro.)
UMA VOZ, dentro, cantando –
O de casa, nobre gente,
Escutai e ouvireis,
Que da parte do Oriente
São chegados os três Reis.
ALBERTO, pára à porta – Oh! (N.B.: Continuam a representar enquanto dentro cantam.)
FELÍCIO, segurando-o – Assim quereis abandonar-nos, meu tio?
MARIQUINHA, indo para Alberto – Meu pai!...
FELÍCIO, conduzindo-o para a frente – Que será de vossa mulher e de vossas filhas? Abandonadas por vós, todos as desprezarão... Que horrível futuro para vossas inocentes filhas! Esta gente que não tarda a entrar espalhará por toda a cidade a notícia do seu desamparo.
MARIQUINHA – Assim nos desprezais?
JÚLIA, abrindo os braços como para abraçá-lo – Papá, papá!
FELÍCIO – Vede-as, vede-as!
ALBERTO, comovido – Minhas filhas! (Abraça-as com transporte.)
GAINER – Mim perde muito com este... E vai embora!
NEGREIRO – Aonde vai? (Quer segurá-lo; Gainer dá-lhe um soco que o lança no chão, deixando a aba da casaca na mão de Negreiro. Clemência, vendo Alberto abraçar as filhas, levanta-se e caminha para ele.)
CLEMÊNCIA , humilde – Alberto!
ALBERTO – Mulher, agradece às tuas filhas... estás perdoada... Longe de minha vista este infame. Onde está ele?
NEGREIRO – Foi-se, mas, em suma, deixou penhor.
ALBERTO – Que nunca mais me apareça! (Para Mariquinha e Felício:) Tudo ouvi junto com aquele senhor, (aponta para Negreiro) e vossa honra exige que de hoje a oito dias estejais casados.
FELÍCIO – Feliz de mim!
NEGREIRO – Em suma, fiquei mamado e sem o dote...
CENA XXVIII
Entram dois moços vestidos de jaqueta e calças brancas.
(continua...)
PENA, Martins. Os dois ou o Inglês Maquinista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2164 . Acesso em: 29 jan. 2026.