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#Comédias#Literatura Brasileira

As Casadas Solteiras

Por Martins Pena (1845)

John — Pois ainda queres beber? (Sentando-se.)

Bolingbrok — John, bebe também comigo; eu quero bebe à saúde de minha Clarice, e tu, de Virgínia. (Gritando:) Tomás? Tomás? (O criado entra com uma salva com dois copos de ponche.) Bota aqui! (O criado deixa a bandeja sobre a mesa e sai.)

John (bebendo) — À tua saúde, Bolingbrok.

Bolingbrok (bebendo) — Yes, minha saúde... Também saúde tua. Oh, este ponche está belo. John, à saúde de Clarice!

John — Vá, à saúde de Clarice e de Virgínia. (Bebem.)

Bolingbrok — Oh, este garrafa... É rum de Jamaica. Toma, John. (Deita rum nos copos.)

John — À autoridade marital!

Bolingbrok — Yes, autoridade maritale! (Bebem.)

John — De duas coisas uma, Bolingbrok: ou é a mulher, ou o marido que governam.

Bolingbrok — Yes, quando mulher governa, tudo leva diabo!

John — Bravo! Tens razão e compreendes... À nossa saúde! (Bebem.)

Bolingbrok — Marido governa mulher, ou, - goddam! - mata ela. (Dá um soco na mesa.)

John (falando com dificuldade) — Obediência mata... salva tudo... Bolingbrok, à saúde da obediência!

Bolingbrok — Yes! (Falando com dificuldade:) Eu quer obediência. (Bebem.)

John — Virgínia é minha mulher... Há de fazer o que quero.

Bolingbrok — Brasil é bom para ganhar dinheiro e ter mulher... Os lucros... cento por cento... É belo! John, eu quero dorme, mim tem a cabeça pesada... (Vai adormecendo.)

John — Eu tenho sede. (Bebe.) Bolingbrok dorme. Ah, ah, ah! (Rindo-se.) Está bom, está bêbado! Ah, ah! Cabeça fraca... Não vai a teatro... Virgínia... (Adormece.)

CENA XI

Entram Virgínia, Clarice, Henriqueta e Jeremias como quem vão de viagem, trazendo trouxas, caixa de chapéu, etc.

Virgínia (entrando) — Silêncio, que eles dormem. (Adiantam-se para a cena, pé ante pé, passando entre os dois e o pano de fundo.)

Clarice (parando detrás dos dois) — Se eles se arrependessem...

Henriqueta — Nada de fraqueza, vamos!

Virgínia — Talvez ainda fôssemos felizes...

Jeremias — Nada de demora, ou vou só...

Virgínia — Clarice, fiquemos!

John (sonhando) — Virgínia é minha escrava.

Virgínia — Sua escrava?...

Bolingbrok (sonhando e batendo com o punho na mesa) — Eu mata Clarice...

Clarice — Matar-me?...

Virgínia e Clarice — Vamos! (Vão atravessando para a porta da esquerda.)

Henriqueta — Adeus, gódames!

Jeremias (da porta) — Good night, my dear! (Saem todos. Bolingbrok e John, com o grito de Jeremias, como que acordam; esfregam os olhos.)

Bolingbrok (dormindo) — Good night!

John (dormindo) — Yes! (Tornam a cair em sono profundo e desce o pano.)

Fim do segundo ato.

ATO TERCEIRO

Sala: portas laterais e no fundo; no meio, uma mesa. No segundo plano, à direita, um guarda-pratos, e à esquerda, duas meias pipas serradas pelo meio; cadeiras.

CENA I

Virgínia e Clarice, sentadas junto à mesa, cosendo. Narciso, tendo um papel na mão..

Narciso (entrando) — Está pronto. Muito bem! Meninas, é preciso que assinem este papel.

Virgínia — E que papel é este?

Narciso (apresentando-lhe o papel e uma pena) — A procuração para anular vossos casamentos.

Virgínia — Ah, dê-me! (Toma o papel e assina.) Agora tu, Clarice.

Clarice, toma o papel e assina — Está assinado.

Narciso — Muito bem, muito bem, minhas filhas! Tudo está em regra. Não descansarei enquanto não vir anulados estes malditos casamentos. Casamentos! Patifes, hei de ensiná-los. Já estive esta manhã com o meu letrado, que me dá muito boas esperanças. Minhas filhas, espero em Deus e na Justiça, que amanhã estejais livres.

Clarice — Livres?

Narciso — Sim, sim, e podereis casar-vos de novo com quem quiserdes.

Virgínia — Casarmo-nos de novo?

Narciso — E por que não? Filhas, uma coisa vos quero eu pedir...

Clarice — O quê, meu pai?

Narciso — Fugistes de minha casa; dois meses depois voltastes, e um só queixume ainda não ouvistes de vosso pai, que vos recebeu com os braços abertos. Virgínia — Meu pai... (Levantando-se.)

Clarice (levantando-se) — Ordenai.

Narciso — Amanhã estareis livres, e espero que aceiteis os noivos que eu vos destino.

Clarice — Noivos?

Virgínia — E quem são eles?

Narciso — Para ti será o amigo Serapião.

Virgínia — Serapião?

Narciso (para Clarice) — E para ti, o vizinho Pantaleão.

Clarice — Pantaleão?

Narciso — São duas dignas pessoas. Enfim, trataremos disso; talvez hoje vo-los apresente. Adeus, adeus, que é tarde. Vou daqui ao teatro. Já vos disse que hoje não janto em casa; por conseguinte, quando forem horas, não me esperem. Manda tirar estas vasilhas aqui da sala. (Sai.)

CENA II

As ditas e depois Henriqueta

Virgínia — Que me dizes a esta, mana? Eu, casada com um Serapião!

Clarice — E eu, com um Pantaleão!

Virgínia — Isto não pode ser...

Clarice — Que dúvida!

Virgínia — Até porque ainda nutro certas esperanças...

Clarice — E eu também.

Henriqueta (da porta) — Dá licença?

Virgínia e Clarice — Henriqueta! Entra!

Henriqueta — Como passam vocês?

Virgínia — Bem, e tu?

Henriqueta — Vamos passando. Então, o que há de novo?

Virgínia — Muitas coisas... Amanhã estaremos completamente livres.

Clarice — E poder-nos-emos casar com Serapiões e Pantaleões.

(continua...)

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