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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Ernesto — Não diga isso, Júlia. Que coisa mais bela, do que as pessoas que vivem na abastança protegerem divertindo-se aqueles que necessitam e são pobres! O prazer eleva-se à nobreza da virtude; o dinheiro que o rico esperdiça para satisfazer os seus caprichos, transforma-se em oferta generosa, mas nobremente disfarçada, que anima o talento do artista e alivia o sofrimento do enfermo; a caridade evangélica torna-se uma instituição social. Não; não tem razão, prima! Esses benefícios, que a Sra. censura, formam um dos mais belos títulos do Rio de Janeiro, o título de cidade generosa e hospitaleira.

Júlia — Não sei por que, meu primo, o Sr. vê tudo, agora, de bons olhos. Por mim, confesso-lhe que, apesar de ser filha daqui, não acho na corte nada que me agrade.

O meu sonho é viver no campo; a corte não tem seduções que me prendam.

Ernesto Ora, Júlia, pois realmente não há no Rio de Janeiro nada que lhe agrade?

Júlia — Nada absolutamente. Os passeios nos arrabaldes são um banho de poeira; os bailes, uma estufa; os teatros, uma sensaboril.

Ernesto — Como se diz isto, meu Deus! Pode haver coisa mais linda do que um passeio ao Corcovado, donde se vê toda esta cidade, que merece bem o nome que lhe deram de princesa do vale? Pode haver nada de mais encantador do que um baile no Clube? Que noites divertidas não se passa no Teatro Lírico, e mesmo no Ginásio, onde fomos tantas vezes?

Júlia — Fui por comprazer, e não por gostar. Acho tudo isto tão insípido! Mesmo as moças do Rio de Janeiro...

Ernesto — Que têm?

Júlia — Não são moças. São umas bonecas de papelão, uma armação de arames.

Ernesto — Mas é a moda, Júlia. Que remédio têm elas senão usar? Hão de fazer-se esquisitas? Demais, prima, quer que lhe diga uma coisa? Essas saias balões, cheias de vento, têm uma grande virtude.

Júlia — Qual é?

Ernesto — Fazer com que um homem acredite mais na realidade e não se deixe levar tanto pelas aparências.

Júlia — Não o entendo; é charada.

Ernesto — Ora! Está tão claro! Quando se dá a um pobre um vintém de esmola, ele recebe e agradece; mas, se lhe derem uma moeda que pareça ouro, desconfiará. Pois o mesmo me sucede com a moda. Quando vejo uma crinolina, digo com os meus botões — "é mulher ou pode ser". Quando vejo um balão, não tem dúvida. —

"é saia, e saia unicamente!"

Júlia (rindo) — Pelo que vejo, não há nada no Rio de Janeiro, ainda mesmo o que é ruim, que não tenha um encanto, uma utilidade para o senhor, meu primo? Na sua opinião é uma terra excelente.

Ernesto — Diga um paraíso, um céu na terra! (Júlia dá uma gargalhada) De que rise, Júlia?

Júlia (rindo-se) — Muito bem! Eis onde eu queria chegar. Há três meses, no primeiro dia em que veio morar conosco, tivemos uma conversa perfeitamente igual a esta; com a diferença que então os papéis estavam trocados; o senhor achava que o Rio de Janeiro era um inferno.

Ernesto — Não me fale desse tempo! Não me lembro dele! Estava cego!

Júlia — Bem; o que eu desejava era vingar a minha terra. Estou satisfeita: esqueço tudo o que houve entre nós.

Ernesto — Como! Que diz, Júlia? Não, é impossível! Esses três meses que se passaram, esses três meses de felicidade, foi apenas uma vingança de sua parte?

Júlia — Apenas.

Ernesto (despeitado) — Oh! Obrigado, prima.

Júlia — Não tem de que, meu primo; jogamos as mesmas armas; o senhor ganhou a primeira partida, eu tomei a minha desforra.

Ernesto — Eu ganhei a primeira partida! De que maneira? Acreditando na senhora.

Júlia — Fazendo que eu chegasse a aborrecer o meu belo Rio de Janeiro, tão cheio de encantos; que achasse feio tudo quanto me agradava; que desprezasse os meus teatros, as minhas modas, os meus enfeites, tudo para.

Ernesto — Para... Diga, diga, Júlia!

Júlia — Tudo para satisfazer um capricho do senhor; tudo por sua causa! (Foge)

Ernesto — Ah! perdão... A vingança foi doce ainda; mas agora vou sofrer uma mais cruel. Oito meses de saudade e ausência!

Júlia — Para quem tem uma memória tão fraca. .. Adeus! (Vai sair) Adeus!

Ernesto — Ainda uma acusação.

Júlia — E se fosse um receio! (Sai de repente)

Ernesto (seguindo-a) — Júlia! Escute, prima! (Sai).



CENA X

Augusto, D. Luísa



Augusto (na porta, a Teixeira) — Sim, senhor; pode contar que hoje mesmo fica o negócio concluído! Vou hoje à praça. Quinze e quinhentos, o último. (Dirige-se à porta e encontra-se com D. Luísa que entra).

D. Luísa — O senhor faz obséquio de ver este papel?

Augusto — Ações?... De que companhia? Estrada de ferro? Quantas? A como?

Hoje baixaram. (Abre o papel).

D. Luísa — Qualquer coisa me serve! Pouco mesmo! Oito filhinhos...

Augusto — Uma subscrição!... (Entregando) Não tem cotação na praça.

D. Luísa — Uma pobre viúva...

Augusto — É firma que não se desconta. Com licença!

D. Luísa — Para fazer o enterro de meu marido! A empresa funerária...

Augusto — Não tenho ações desta empresa; creio mesmo que ainda não foi aprovada. Naturalmente alguma especulação... Passe bem! (Sai).



CENA XI

D. Luísa, Teixeira

Teixeira (atravessando a sala) — Hoje não nos querem dar almoço.

D. Luísa — Sr. Teixeira!

Teixeira (voltando-se) — Viva, senhora.

D. Luísa – Vinha ver se me podia dar alguma coisa!

Teixeira — Já? Pois acabou-se o dinheiro que lhe dei?

(continua...)

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