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#Romances#Literatura Brasileira

Ubirajara

Por José de Alencar (1874)

Ubirajara passou entre os guerreiros e dirigiu-se à cabana mais alta que ficava no centro da ocara.

A figura do tucano, feita de barro pintado, e colocada em cima da porta, dizia que era ali a cabana do grande chefe. Mas Ubirajara já o sabia; pois antes de penetrar na taba, subira à grimpa do mais alto cedro da floresta para conhecer o sítio onde habitava Araci, a estrela do dia.

A cabana estava deserta naquele instante, mas ouvia-se a fala das mulheres que trabalhavam no terreiro.

Ubirajara transpôs o limiar e, levantando a voz, disse:

— O estrangeiro chegou.

Acudiram as mulheres e conduziram Ubirajara à presença do grande chefe dos tocantins.

Itaquê passava as horas da ardente calma à sombra da frondosa gameleira, que podia abrigar cem guerreiros embaixo de sua rama.

Repousando dos combates, o formidável guerreiro não desdenhava as artes da paz em que era tão consumado como nas batalhas.

Assim honrava as fadigas da taba, dando o exemplo do trabalho à família de que era pai, e à nação de que era chefe.

Nesse momento as mulheres colocadas em duas filas, com as mãos erguidas, urdiam os fios de algodão, passados pelos dedos abertos em forma de pente. Itaquê manejava a lançadeira, tão destro como na peleja vibrava o tacape. Sua mão ligeira tramava a teia de uma rede, que entretecia das penes douradas do galo-da-serra.

Quando chegou Ubirajara, o grande chefe dos tocantins, depois de ter rematado a urdidura, entregou a lançadeira ao guerreiro Pirajá que estava a seu lado, e veio ao encontro do hóspede.

— O estrangeiro veio à cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim; disse Ubirajara.

— Bem-vindo é o estrangeiro à cabana de Itaquê, grande chefe da nação tocantim.

Então o tuxava voltou-se para Jacamim, a mãe de seus filhos

— Jacamim, prepara o cachimbo do grande chefe, pare que ele e o estrangeiro troquem a fumaça da hospitalidade.

Os mensageiros já corriam pela taba, avisando os guerreiros moacaras da vinda do hóspede à cabana de Itaquê.

Os moacaras, revestidos de seus ornatos de festa, se encaminharam com o passo grave à oca principal, a fim de honrar o hóspede do grande chefe da nação tocantim.

Ali chegados, cada um dirigiu ao estrangeiro a pergunta da hospitalidade e deu-lhe a boa vinda.

Depois que Itaquê ofereceu a Ubirajara o cachimbo da paz, e com ele trocou a fumaça da hospitalidade, os cantores entoaram a saudação da chegada

"O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz a alegria à cabana; e quando parte, leva consigo a fama do guerreiro que teve a fortuna de o acolher.

"Nas tabas por onde passe, e na terra de seus pais, ele conta aos velhos, que depois ensinam aos moços, as proezas dos heróis que viu em seu caminho, e de quem recebeu o abraço da paz.

"O hóspede é mensageiro de Tupã. Ele traz consigo a sabedoria; na cabana do guerreiro, que tem a fortuna de o acolher, todos o escutam com respeito.

"Em suas palavras prudentes, os anciões da taba aprendem, para ensinar aos moços, os costumes dos outros povos, as façanhas de guerras desconhecidas por eles, e as artes da paz, que o estrangeiro viu em suas viagens.

"O hóspede é mensageiro de Tupã. O primeiro que apareceu na taba dos avós da nação tocantim, foi Suma, que veio donde a terra começa e caminhou pare onde a terra acaba.

"Dele aprenderam as nações a plantar a mandioca para fazer a farinha; e a tirar do caju e do ananás o generoso cauim, que alegra o coração do guerreiro.

"O hóspede é mensageiro de Tupã. Quando o estrangeiro entra na cabana, o guerreiro que tem a fortuna de o acolher, não sabe se ele é um chefe ilustre ou o grande Suma que volta de sua viagem.

"O sábio ensina, por onde passa, os segredos da paz, e o herói, as façanhas da guerra; mas ambos deixam na cabana da hospitalidade, a glória de ter abrigado um grande varão.

"O hóspede é mensageiro de Tupã. Por seu caminho vai deixando a abundância e a festa; depois do banquete da boa vinda, as árvores vergam com os frutos e a caça não cabe na floresta.

"A cabana, que fecha a porta ao hóspede, o vento a arranca, o fogo do céu a abrasa. O guerreiro que não se alegra com a chegada do hóspede, vê murchar ao redor de si a esposa, os filhos, as mulheres e as roças que ele plantou.

"Bem-vindo seja o estrangeiro na cabana de Itaquê, o grande chefe da nação tocantim, que teve a glória de ser escolhido pelo hóspede.

"Os guerreiros exultam com a honra de seu chefe, e os cantores te saúdam, mensageiro de Tupã."

Enquanto na cabana ressoa o canto da boa vinda, Jacamim, a esposa de Itaquê, chamou as amantes do marido, sues servas, pare ajudá-la a preparar o banquete da hospitalidade.

As servas pressurosas estenderam à sombra da gameleira as alvas esteiras de palmas entrançadas de airi; e colocaram sobre elas os urus cheios de farinhad'água.

Trouxeram também os camucins rasos, onde se apinhavam as moquecas envoltas em folhas de banana, e peças de carne, assada no biaribi, que ainda fumegava nos pratos feitos de concha de tartaruga.

(continua...)

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