Por José de Alencar (1872)
Fábio, de gênio descuidado e folgazão, às vezes abusava, fazendo proezas com o “Galgo”; mas Ricardo coibia as travessuras, moderando o ardor do amigo. Disto nunca resultava menor desconfiança entre ambos. Nessa boa e verdadeira amizade, um punha em comunhão o sorriso, o outro o conselho; um era a alegria e a esperança, o outro era a consolação e a fé.
Depois do almoço, enquanto a velha foi rezar, como de costume, Fábio tomou a espingarda, Ricardo, sentando-se à janela, abriu o álbum e entreteve-se a desenhar. Primeiramente coloriu a figura do pequeno arbusto, parte de memória, e parte à vista do galho que tinha quebrado.
Enquanto se ocupava com esse trabalho, a mente repassava as recordações da cena recente e da posição em que o surpreendera a moça a cavalo; com estas lembranças vinham de envolta as saudade das pessoas a quem amava, e de quem se achava ausente. Quando as veria para contar-lhes todos esses pequenos incidentes de sua vida, para referirlhes essa longa história de uma esperança tão ansiada!
Como não se haviam de rir aqueles entes por quem se estremecia, quando soubesses dos beijos ardentes que ele dera na florinha agreste, e da risada desdenhosa que de repente o chamara à realidade!
Passou-lhe pela idéia traçar o quadro de Guida como ele vira. Sua família teria curiosidade de conhecer essa moça de que Fábio naturalmente havia de contar as travessuras. Insensivelmente o lápis começou a traçar no papel o primeiro e leve esboço do quadro que lhe ficara gravado no espírito plástico.
Ricardo nunca aprendera desenho com mestres de arte. Sentira em si a intuição da forma, e cultivara essa disposição natural, guiado pelas próprias observações. Não teve necessidade de que lhe ensinassem as regras da perspectiva, pois as tinha diante dos olhos nas paisagens que se desdobravam pelas lindas várzeas de São Paulo.
Deus criou três linguagens para o artista: a linguagem da forma, a pintura; a linguagem dos sons, a música; e a linguagem da palavra, a poesia, de todas a mais sublime porque fala não só ao coração, como à inteligência. Ricardo era um poeta da forma; ele fazia versos com as cores. Suas impressões, debuxava-as sobre o papel em imagens, retratadas ao vivo. Copiava-as da memória, onde ficavam estampadas como em uma lâmina fotográfica; depois a imaginação bordava a lápis com essas recordações algum soneto ou alguma ode, corretos no desenho, brilhantes no colorido.
Os contornos gerais do quadro já estavam delineados; via-se em traço quase desvanecido a moldura da folhagem entrançada de grinaldas amarelas, a estampa do soberbo cavalo isabel, e o lindo perfil da amazona cujo véu se enrolava ao sopro da brisa.
Sentindo que Fábio se aproximava, Ricardo voltou a página do álbum e disfarçou esboçando figuras grotescas em uma folha solta. Se o amigo visse o quadro, adivinharia quem era a moça; seria necessário referir a cena dos beijos. Ora, Ricardo tinha vexame de contar essa infantilidade de seu coração; e sobretudo a Fábio, que ele considerava como um irmão mais moço. À sua mãe não duvidaria contar, em um momento de ternura, e depois de decorrido algum tempo. Um coração de mulher compreende certas delicadezas, que parecem ridículas ao espírito de um homem; ainda mais quando esse homem é um moço de gênio prazenteiro, como era Fábio.
O resto do dia passou como de costume, repartido entre a conversa, a leitura, o banho, o jantar, e o jogo da paixão de D. Joaquina, a bisca cega.
À tarde, Ricardo, a quem tocou a vez, arreou o “Galgo” e foi dar um passeio, enquanto Fábio saía a pé sem destino, em busca de alguma companhia para passar a noite.
Seriam 6 ½ horas da tarde. Apenas um doce reflexo de ouro tingia o cume das mais altas montanhas. A suavidade do crepúsculo derramava-se na atmosfera. É encantador esse adeus do dia quando se despede da formosa serraria da Tijuca. O céu, despindo o fulgor da luz, mostra a limpidez e transparência do puro azul, seio infindo onde a alma se embebe, como o filho no colo materno.
Ricardo vinha entregue ao enlevo da contemplação da tarde, quando ao dobrar uma volta do caminho achou-se diante de um rancho de moças, que andavam passeando. Entre todas distinguia-se, pelo talhe esbelto e gracioso, uma, vestida de seda escocesa, desde a botina até as fitas do cabelo.
Diante dela corria, saltando e latindo, uma cachorrinha felpuda, muito alva, com brincos de ouro e uma coleira de veludo; mas apenas percebeu o cavaleiro, atirou-se ao “Galgo” para mordê-lo no jarrete.
Ricardo, tendo reconhecido a Guida, supôs que a cachorrinha era a mesma da história contada por Fábio, a Sofia.
Mais aborrecido ficou ainda com o impertinente animal, que investia furioso contra as pernas do cavalo.
A situação nada tinha de agradável; o caminho era estreito; de um lado o despenhadeiro, do outro a montanha cortada a pique. O “Galgo”, fogoso e irritado com a insultante ameaça do cão, encrespava-se, lançando fogo pelas narinas. Ricardo, excelente cavaleiro, conseguiu dominar o primeiro ímpeto, e tocando no chapéu, disse para as moças que se tinham posto ao abrigo subindo a ribanceira da montanha:
- Acho bom chamar o cãozinho!
(continua...)
ALENCAR, José de. Sonhos d’Ouro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1849 . Acesso em: 27 jan. 2026.