Por José de Alencar (1861)
Isabel — Mais do que paixão; porque é também estima, respeito e admiração.
Clarinha — E teu marido te paga com o mesmo amor?
Isabel — Ele?... Não sei, Clarinha... Nunca lhe perguntei...
Clarinha — Ah! não sabes!... Sentes tudo isto, dizes que uma mulher bonita e inteligente basta querer para ser amada por seu marido, e não sabes se teu marido te ama?... Pois minha rica prima, a tua história é muito bonita, mas não me agrada!
Isabel — Asseguro-te que sou mais feliz do que mereço.
Clarinha — Ora, pois não está se vendo nos teus olhos! Se a felicidade doméstica — não e assim que se chama? — tem esse sorriso triste, e esse rosto pálido, podes ficar certa que não a deixo entrar na minha casa. Não! Prefiro mil vezes as espingardas, os cães de caça e os aborrecimentos de Henrique. Isabel — Escuta!
Clarinha — Vamos ver se Augusto já veio. (Pausa) Então não vens?
Isabel — Não!... Inda não chegou!
Clarinha — Não importa! Quero correr a casa! Há tanto tempo!... Eu também tenho aqui as minhas recordações! Vou te mostrar o lugar onde Henrique confessou a primeira vez que me amava... quando os médicos declararam que Augusto estava salvo! Vem!
Isabel — Não! Não posso agora... Não gosto de entrar lá.
Clarinha — Por que motivo?
Isabel — Ele pode suspeitar que desejo conhecer os seus segredos!...
Clarinha — Meu Deus! Quanto mistério para se amar seu marido. Deste modo Henrique pode ficar descansado.
CENA XI
As mesmas e Miranda
Miranda (entrando) — Adivinhei que já estava aqui.
Clarinha — Oh! Excelentíssimo!
Miranda — Sempre bonita e sempre alegre!
Clarinha — É o que me vale!... Se eu não trouxesse a alegria comigo, morria de tristeza naquele desterro de Petrópolis.
Miranda — Como está Henrique?
Clarinha — Bom; já anda passeando. Mas que é isto, meu tio? Cabelos brancos?...
Miranda — Estou velho, Clarinha.
Clarinha — Com trinta anos!... E de repente!... Quando aqui estava, não tinha nenhum!
Miranda — Tinha e muitos.
Clarinha — Não, Senhor. Nunca vi.
Miranda — Porque os pintava! Era uma fraqueza minha... Ainda fazia a corte a... Bel... a sua prima. Não queria parecer velho.
Clarinha — Mas, agora está homem sério: já não se ocupa com essas ninharias. Só trata de ser ministro!
Isabel (a meia voz a Clarinha) — E há de ser!
Miranda — Não tenho semelhantes aspirações! A política faz-me às vezes de um vício. Dá-me as emoções que os outros encontram no jogo, ou na embriaguez.
Atordoa-me: nada mais!...
Clarinha — Não lhe gabo o gosto.
Miranda — Este mundo, Clarinha, é um precipício que todos devemos atravessar pelo estreito passo da vida. O imprudente pára no meio e olha o fundo, vacila e cai.
É preciso fechar os olhos e correr, para não sentir a vertigem.
Clarinha — Mas essa teoria é só para os homens.
Miranda (sorrindo) — Não a aconselho a ninguém.
Clarinha — O que é verdade é que a política tem-no feito velho, magro, feio, e até distraído.
Miranda — Sei que tenho todos os defeitos, mas ainda não tinha reparado nesse último.
Clarinha — Pois não, sempre que vinha da rua apertava a mão de Bela.
Miranda — Não apertei agora! Ah! foi realmente uma distração. Outra vez não cairei nesta falta.
Clarinha — Ainda está em tempo.
Miranda — Minha mulher...
Clarinha — Minha mulher?... Diga a Senhora. É mais aristocrático!
Miranda — Be...la dispensa. (Afasta-se)
Clarinha — Mas eu não dispenso.
Isabel (gesto implicante) — Deixa-te disso.
Clarinha — Se é uma cousa que eu achava tão bonito! E tinha pedido a Henrique que tomasse com o Senhor umas lições de bom marido!... Mas estou vendo que o mestre desaprendeu!...
Miranda — Não diga isto. (Vai a Isabel) Está satisfeita? (Estende a mão e toca apenas a de Isabel)
Clarinha — Deveras, meu Senhor!... Era assim que apertava a mão de Bela? Tenha a bondade! (Miranda recua vivamente)
Isabel — Clarinha!
Clarinha — Ora! Não vejam que sacrifício beijar uma testa tão bonita?
Miranda — Já estamos velhos: essas ternuras são ridículas.
Clarinha — Diga o que quiser. Há aqui alguma cousa que eu hei de descobrir.
Miranda — Que lembrança... Por uma ninharia?... Faço-lhe a vontade. (Acena que beija)
Isabel (a meia voz) — Perdão!... Eu não tenho culpa!
Clarinha — Assim é que se acabam com esses arrufos... Agora, Bela, dá-me de almoçar que estou caindo de fome. Henrique que almoce onde estiver!
Isabel — Não queres mudar o vestido?... Teu quarto está pronto! (Vai saindo, entra Henrique da rua)
Clarinha — Vamos. (A Miranda) Vossa Excelência permite. (Chegando-se a meia voz) Não me queira mal. Sei que os homens nunca devem ceder; mas, não posso vê-lo agastado com Bela! E por quê? Por alguma zanguinha! Alguma teima que nada vale...
Miranda — Justamente!... Ela teima em não dar uma ordem, com receio de contrariar-me; e o que me contraria é que esperem por mim. Tudo quanto ela mandar acho bem feito!
Clarinha — Delicadeza da parte de Bela... Não repare nisso... Ela lhe quer muito bem!
Miranda — Muito! Eu tenho provas!
Isabel (na porta) — Não vens, Clarinha?
Clarinha — Aqui me tens! (A Henrique) Oh! depressa voltou!
CENA XII
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.