Por José de Alencar (1875)
— Êsse não se conta; desde o dia em que o sr. capitão-mór saíu de jornada, que êle também desapareceu da fazenda.
— Ah! Então é que pediu-nos licença, e nós lha concedemos.
— Com certeza que há de tê-la pedido, acrescentou o Agrela.
Descarregou o capitão-mór no feitor um olhar que o aturdiu:
— Manuel Abreu, chegámos e vimos achar o fogo nas matas da Oiticica a meia légua de nossa casa; e ninguém na fazenda soube, nem acudiu em tempo. Como foi isto, Manuel Abreu?
— Com licença do sr. capitão-mór, saberá vossa senhoria que eu não sei. Ainda não estou em mim com um caso dêstes!
— Pois amanhã há de estar averiguado quem foi o causador do incêndio, para lhe ser lançado conforme a culpa.
Dirigiu-se o fazendeiro ao pórtico da casa, cujos degraus subiu, para entrar na sala pintada de florões a fresco pelo teto e pelas paredes e guarnecida de móveis de jacarandá forrados de moscóvia com tachas de prata.
Ali estavam ainda D. Genoveva e a filha que se levantaram para recebê-lo.
Então, só então, quando todos os deveres de dono da propriedade estavam cumpridos, consentiu o capitão-mór que afinal pulsasse o seu coração de pai.
Cingindo com o braço o talhe de D. Flor, cerrou-a ao peito; no desusado alvorôço que perpassou-lhe a fisionomia sempre calma e serena, se reconhecia que a alma fôra profundamente percussa.
Depois que abraçou a filha, sem arroubos, solene mas prolongadamente, o capitão-mór levou-a para o sofá e sentando-a defronte de si esqueceu-se a fitá-la, como se não a tivesse visto por largo trato e se quisesse recuperar dessa privação de sua imagem.
Êste pormenor mostrava o relêvo do homem que era o capitão-mór. Formalista severo, adicto às regras e cerimônias, que se esmerava em observar escrupulosamente, imbuído de uma gravidade que tinha por essencial ao decôro de uma pessoa de sua categoria e posição, sujeitava todos os afetos como todos os interêsses a essa rigorosa disciplina das maneiras.
Não era, porém, êsse modo do Campelo a afetação ridícula de meneios em que se requinta a fatuidade; e sim uma temperança de gesto e de palavra, que se comediam pelo receio de descaírem em vulgaridades.
Nascia tal resguardo do nobre estímulo de manter o estado que lhe havia criado a fortuna. Campelo provinha de sangue limpo, mas plebeu; e almejando um pergaminho de nobreza, que enfim alcançara, êle queria merecê-lo por seus dotes e ser primeiro fidalgo na pessoa, do que no brasão.
Assentava bem esse temperamento do gôsto no porte avantajado do capitão-mór e imprimia-lhe ao aspecto muita dignidade.
Sua compleição robusta ostentava-se na plenitude do vigor aos toques dessa moderação inabalável; e a fisionomia cheia, plácida e séria, impunha a quantos lhe falavam um irresistível acatamento.
Enquanto o capitão-mór comprazia-se em contemplar a filha, D. Genoveva referia ao marido o perigo a que havia por milagre escapado a donzela; e no meio da sua narrativa não deixou de insinuar uma doce exprobação à fleuma que o marido conservara quando ela lhe comunicara seus terrores.
— Eu tinha fé em Deus que nos havia de conservar nossa filha, D. Genoveva; respondeu serenamente Campelo.
Já de todo caíra a tarde; e as sombras da noite se desdobravam pelas encostas da serra.
Os viajantes recolheram aos seus aposentos enquanto não chegava a hora do terço de Nossa Senhora, que antes da ceia se devia rezar na capela, em louvor e graça pela chegada dos donos da casa.
A campa tangida vivamente soltava os repiques argentinos, sombreados pela surdina dos longos pios das aves noturnas e dos ulos da brisa nas grotas da serra.
V – Jó
Retirando-se da sala ao despertar da donzela, Arnaldo saíra fora no pátio.
Aí encontrou ao lado de seu cavalo o baio, que o acompanhara; prendeu este amarrando as rédeas a um dos pilares da varanda, e meteu-se pelo arvoredo para não ser visto da gente da casa.
Ao atravessar por detrás da habitação, lançou de passagem, do alto da eminência, um olhar para o terreiro, e percebeu o que lá se estava passando com a chegada de D. Genoveva.
Bem desejava ficar-se aí, nessa posição, assistindo de longe àquela cena e tomando nela a sua parte, ao menos com os olhos e o pensamento. Mas chamava-o além outro cuidado, que mais o dominava naquele instante.
Quem o observasse nesse momento notaria a expressão de ternura com que seu olhar envolvia a pessoa de Justa, como que acariciando-a.
Era sua mãe, a quem abraçava de longe, enquanto o segredo que o trazia arredado da casa lhe não permitia receber sua bênção.
Nessa ocasião sentiu que lhe puxavam pela aba do gibão; sem nenhuma surpresa voltou-se.
Encontrou, como esperava, uma cabra rajada, cujos chifres indicavam ser já bem idosa; levantou-a pelas mãos, e reclinando-se, abraçou-a com efusão. Depois essa carícia afastou o animal e com o gesto impediu que o seguisse.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.