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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

Vinha porém o seu lindo cavalheiro, enxugava-lhe as lágrimas, e ela sentia-se consolada, e sorria de novo; mas conservava sempre uma sombra de melancolia, que só a pouco e pouco o seu gênio alegre conseguia desvanecer. 

Neste ponto do seu sonho, a portinha interior do jardim abriu-se, e outra moça, roçando apenas a grama com o seu passo ligeiro, aproximou-se da rede. 

Era um tipo inteiramente diferente do de Cecília; era o tipo brasileiro em toda a sua graça e formosura, com o encantador contraste de languidez e malícia, de indolência e vivacidade. 

Os olhos grandes e negros, o rosto moreno e rosado, cabelos pretos, lábios desdenhosos, sorriso provocador, davam a este rosto um poder de sedução irresistível.  

Ela parou em face de Cecília meio deitada sobre a rede, e não pôde furtar-se à admiração que lhe inspirava essa beleza delicada, de contornos tão suaves; e uma sombra imperceptível, talvez de um despeito, passou pelo seu rosto, mas esvaeceu-se logo. 

Sentou-se numa das bandas da rede, reclinando sobre a moça para beijá-la ou ver se estava dormindo. 

Cecília, sentindo um estremecimento, abriu os olhos e fitou-os em sua prima.

— Preguiçosa!... disse Isabel sorrindo. 

— É verdade! respondeu a moça, vendo as grandes sombras que projetavam as árvores; está quase noite. 

— E desde o sol alto que dormes, não é assim? perguntou a outra gracejando. 

— Não, não dormi nem um instante, mas não sei o que tenho hoje que me sinto triste.

— Triste! tu, Cecília? não creio; era mais fácil não cantarem as aves ao nascer do sol. 

— Está bem! não queres acreditar! 

— Mas vem cá! Por que razão hás de estar triste, tu que durante todo o ano só tens um sorriso, tu que és alegre e travessa como um passarinho? 

— É para veres! Tudo cansa neste mundo. 

— Ah! compreendo! estás enfastiada de viver aqui nestes ermos. 

— Já me habituei tanto a ver estas árvores, este rio, estes montes, que quero-lhes como se me tivessem visto nascer. 

— Então o que é que te faz triste? 

— Não sei; falta-me alguma coisa. 

— Não vejo o que possa ser. Sim!... já adivinho! 

— Adivinhas o quê? perguntou Cecília admirada. 

— Ora! o que te falta. 

— Se eu mesma não sei! disse a moça sorrindo. 

— Olha, respondeu Isabel; ali está a tua rola esperando que a chames, e o teu veadinho que te olha com os seus olhos doces; só falta o outro animal selvagem. 

— Peri! exclamou Cecília rindo-se da idéia de sua prima. 

— Ele mesmo! Só tens dois cativos para fazeres as tuas travessuras; e como não vês o mais feio, e o mais desengraçado, estás aborrecida. 

— Mas agora me lembro, disse Cecília tu já o viste hoje? 

— Não; nem sei o que é feito dele. 

— Saiu antes de ontem à tarde; não vá ter-lhe sucedido alguma desgraça! disse a moça estremecendo. 

— Que desgraça queres tu que lhe possa suceder? Não anda ele todo dia batendo o mato, e correndo como uma fera bravia? 

— Sim; mas nunca lhe sucedeu ficar tanto tempo fora, sem voltar à casa. 

— O mais que pode acontecer, é terem-lhe apertado as saudades da sua vida antiga e livre. 

— Não! exclamou a moça com vivacidade; não é possível que nos abandonasse assim! 

— Mas então que pensas que andará fazendo por esse sertão? 

— E verdade!... disse a moça preocupada. 

Cecília ficou um momento com a cabeça baixa, quase triste; nesta posição, a vista caiu sobre o veado, que fitava nela a sua pupila negra com toda a languidez e suavidade, que a natureza pusera em seus olhos. 

A moça estendeu a mão e deu com a ponta dos dedos um estalinho, que fez o lindo animal saltar de alegria e vir pousar a cabeça no seu regaço. 

— Tu não abandonarás tua senhora, não é? disse ela passando a mão sobre o seu pêlo acetinado. 

— Não faças caso, Cecília, replicou Isabel reparando na melancolia da moca; pedirás a meu tio para caçar-te outro que farás domesticar, e ficará mais manso do que o teu Peri. 

— Prima, disse a moça com um ligeiro tom de repreensão, tratas muito injustamente esse pobre índio que não te fez mal algum. 

— Ora, Cecília, como queres que se trate um selvagem que tem a pele escura e o sangue vermelho? Tua mãe não diz que um índio é um animal como um cavalo ou um cão? 

Estas últimas palavras foram ditas com uma ironia amarga, que a filha de Antônio de Mariz compreendeu perfeitamente. 

— Isabel!... exclamou ela ressentida. 

— Sei que tu não pensas assim, Cecília; e que o teu bom coração não olha a cor do rosto para conhecer a alma. Mas os outros?... Cuidas que não percebo o desdém com que me tratam?

— Já te disse por vezes que é uma desconfiança tua; todos te querem, e te respeitam como devem. 

Isabel abanou tristemente a cabeça. 

— Vai-te bem o consolar-me; mas tu mesma tens visto se eu tenho razão. 

— Ora, um momento de zanga de minha mãe... 

— E um momento bem longo, Cecília! respondeu a moça com um sorriso amargo. 

— Mas escuta, disse Cecília passando o braço pela cintura de sua prima e chamando-a a si, tu bem sabes que minha mãe é uma senhora muito severa mesmo para comigo. 

(continua...)

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