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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Os outros olharam surpresos para Manuel Canho; embora não conhecessem qual a habilidade do brasileiro na gineta, era tal a façanha, que todos à uma duvidaram do bom resultado. Pasmos com o arrojo do gaúcho, e ainda mais com a confiança e singeleza de seu modo, se preparavam para assistir a segundo trambolhão, e rir à custa do rio-grandense, como tinham rido à custa do paraguaio. 

Posto cerco ao animal, os peões conseguiram depois de alguns esforços, tocá-lo para o gramado.  

— Basta, disse Manuel, agora deixem a moça comigo. 

Tinha a baia parado a alguma distância e vibrava o olhar cintilante sobre a gente reunida então perto do alpendre. Suspensa na ponta dos rijos cascos, longos e delgados, de cabeça levantada, cruzando a ponta das orelhas finas e canutadas, com o pêlo erriçado e a cauda opulenta a espasmar-se pelos rins, parecia o animal prestes a desferir a corrida veloz. 

O Canho adiantou-se alguns passos, cravando o olhar na pupila brilhante da baia, ao passo que soltava dos lábios um murmurejo semelhante ao rincho débil do poldrinho recém-nascido, quando busca a teta materna. No semblante rude e enérgico do moço gaúcho se derramava um eflúvio de ternura. 

Ao doce murmurejo, as orelhas do animal titilaram com ligeiro estremecimento, enroscando-se como uma concha, para colher algum som remoto, esparso no ar. Fita no semblante de Manuel a vista ardente e sôfrega, dir-se-ia que a inteligente égua interrogava o pensamento do homem e queria compreendê-lo. 

À medida que ela inalava o fluido magnético do olhar do gaúcho, uma expressão meiga e terna se refletia na pupila negra. Serenava a braveza e cólera acesas na próxima luta. O pêlo riçado ia-se aveludando, as ranilhas de suspensas pousavam sobre a relva, enquanto os flancos clássicos, alongando-se, perdiam a torção dos músculos, retraídos para o salto. 

Lentamente, a passo e passo, aproximou-se o gaúcho, até que pôde estender-lhe a mão sobre a espádua. A égua arisca arrufou-se de novo. Rápido foi o assomo; outra vez soara a seu ouvido, mais terno e plangente, o débil ornejo, ao tempo que a mão, instrumento e condutor d’alma humana, alisava-lhe a anca e a selada com um doce afago. 

Estava o generoso bruto aplacado e calmo, mas ainda não rendido. Cingiu-lhe Manuel o colo garboso com abraço de amigo, e encostou-lhe na cabeça a face. Os olhos de ambos se embeberam uns nos outros e se condensaram em um mesmo raio, que fluía e refluía da pupila humana à pupila eqüina. 

Que palavras misteriosas balbuciavam os lábios do gaúcho ao ouvido do indômito animal, com a mão a titilar-lhe os seios, e os olhos a se engolfarem no horizonte límpido por onde se dilatavam os pampas? 

O bruto entendia o homem. Quando Manuel aspirou as baforadas da fria rajada que vinha do deserto, a égua espreguiçou o lombo, recurvando o pescoço para estreitar o gaúcho; e um relincho de alegria arregaçou-lhe o beiço. 

Em profundo silêncio assistiam os companheiros ao colóquio do bruto com o homem. Essa luta da razão com a força é sempre eloqüente e admirável; aí patenteia-se o homem, rei da criação: o triunfo não pertence unicamente ao indivíduo, mas à espécie. 

Vendo Manuel, depois de repetidos afagos, passar a ponta do cabresto pelo pescoço do animal, os campeiros tomaram fôlego. Seus olhares se cruzaram, transmitindo uns a outros a expressão da própria surpresa, e buscando o sinal da alheia. O pensamento, que assim flutuava nesses olhares, reproduzia-se a trechos em exclamações breves e entrecortadas: 

— Então? 

— É verdade? 

— Quem diria? 

— Monta? 

— Ele, parece... 

— Também creio. 

— Nunca pensei. 

— É de pasmar. 

— Só mandinga! 

Atento aos gestos de Manuel, o chileno não tirava os olhos do ponto. Ouvindo os ditos dos companheiros, retorquiu com despeito:

— Até montar, ainda há que ver. 

Com efeito a baia recusava entregar o focinho ao cabresto. Encrespando de novo o pêlo, empinou-se para soltar o galão, e arremeter pelo pasto. Já as patas repeliam o chão, e o talhe da égua, lançado como uma seta, perpassava nos ares. 

— Não dizia! exclamou D. Romero com ar de triunfo, voltando-se para a roda. 

A resposta foi uma exclamação estrepitosa, que prorrompeu dos lábios dos companheiros: 

— Bravo! 

Quando o vulto esbelto relanceava por diante dele, o Canho, com incrível ligeireza, salto no espinhaço da égua, que lá se foi a escaramuçar pelo campo, gineteando graciosamente e vibrando os ares com nitridos de prazer. 

Depois de algumas voltas, quis o rapaz trazê-la ao terreiro, mas encontrou resistência, que depressa venceu. Amaciando-lhe as finas sedas da clina com a mão direita, se debruçou ao pescoço para abraçá-la. O inteligente bruto, de seu lado, voltou o rosto para ver o semblante do gaúcho, e talvez agradecer-lhe sua carícia. 

Domada, ou antes, rendida ao amor e à gratidão, a baia aproximou-se do terreiro sacando com gentileza e elegância, como faria o mais destro corcel em luzida cavalhada. 

— Ganhou o animal, amigo, mas assim eu não o queria decerto. 

— Que pretende o senhor dizer com isso? 

(continua...)

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