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#Romances#Literatura Brasileira

Garatuja

Por José de Alencar (1873)

— Que partes são estas agora, Sr.ª Miquelina dos Anjos; não parece mulher de quem é, acudiu a voz de meio bordão do nosso Freire. 

— Mas homem, se não está em mim. 

— São visagens da pequena. 

— Eu vi, senhor pai, acudiu Marta. 

— Havia de ser algum macaco, ainda que já eles não andam por estas paragens, tornou o tabelião. 

— Reparaste no pé, menina? Tinha unha de... daquele bicho? 

— Isso não tinha; mas olhava para a gente com uns modos. 

— Fez-te uma careta, não foi? É macaco, não tem que ver. 

— Sempre era bom esperar mais... 

— Faz-se tarde, e já devíamos estar chegados. Ande daí, mulher!  

Resolveu-se afinal a Sr.ª Miquelina dos Anjos a passar; mas por cautela ia rezando à meia voz o magnificat, e ainda era preciso que o Sebastião lhe desse uma demão, empurrando-a às guinadas com o cotovelo. 

A Marta, essa ia adiante, e embora se embiocasse toda, lidando por esconder-se dentro em si mesma a uns olhos que estava entrevendo por toda a parte e em cada folha, contudo não mostrava lá muito medo do caipora. 

Ivo, surpresa da encantadora aparição, ia persegui-la com o pensamento já todo cheio de ninfas e dríades, quando a voz grossa do tabelião espancou-lhe as doces ilusões, e arrojou-o da mitologia à realidade. 

Escondeu-se atrás do tronco de uma paneira, que ainda as havia nessa altura, e espiou a passagem do tabelião que voltava com a família de uma quinta da Carioca onde fora passar o domingo, e pousara para tornar com a fresca da manhã, pois estavam na força do verão. 

Fez-se a passagem do ponto arriscado, que era justamente a encruzilhada, sem o menor contratempo: a viração serenara; nem um ramo farfalhou, nem uma folha estalou no mato. Já a Miquelina respirava, quando ouviu-se ali perto, dois passos atrás, um estrídulo, que aos ouvidos da mulher soou como uma gargalhada de bruxo. 

— O caipora! bradou ela, e disparou pelo caminho fora. 

O Sebastião Freire, sarapatando e um tanto bambo das pernas, com os olhos gázeos a saltarem desta àquela banda do caminho, lá se foi de recuo, aos trancos, receoso de que lhe surgisse do mato algum mau companheiro, caipora ou bicho, com que se visse abarbado. 

A única pessoa da família em quem os guinchos não produziram grande susto foi em Marta. Apesar de seu modo bisonho e tímido, bispara ao passar o vulto do Ivo de espreita por trás da árvore; e atinou logo com a travessura, pela simples razão de que no lugar do rapaz, ela faria o mesmo. 

Quando pois o Garatuja arremedou o conhecido regougo do macaco, conheceu logo a pequena donde vinha a artimanha, e em vez de susto, o que teve foi vontade de rir; mas tolheu-a o respeito aos pais, e também o acanhamento de mostrar-se ao rapaz em correspondência de travessura com ele.  

Até as abas da cidade, cujo povoado começava na Rua da Ajuda, foram o tabelião e a sua metade em constante sobressalto por causa do maldito macaco, que os perseguia saltando de pau em pau. 

— Arrenegado bugio, gritava o Sebastião; vou deste passo encomendar-te ao almotacé, para te filar e torcer-te o gasnete. 

— E o senhor a teimar com o macaco! Quando lhe digo que é o caipora, legítimo de Braga! 

Se inda agorinha lhe bispei os chifres. Não vistes, Marta? 

— Creio que vi!... Agora me lembro, vi mui bem! 

— Não vistes nada!... berrou o tabelião perdendo a tramontana. É forte embirrância! Declaro eu, Sebastião Ferreira Freire, tabelião do público judicial e notas desta leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro por El-Rei, nosso senhor. 

Aqui o nosso homem desbarretou-se com as maiores mostras de reverência. 

Novo desbarretamento. 

— ... por muitos e dilatados anos, como todos havemos mister a bem do reino e da religião católica apostólica romana, única verdadeira... Tomou respiração e continuou: 

— Declaro que é macaco, do que dou testemunho e porto por fé, e em prova da verdade firmo com meu público sinal... 

Estacou de repente o Sebastião, e caindo em si, viu que não estava no cartório a ler o fecho de uma escritura, mas em caminho para a casa. Encapelou o feltro paulistano na cabeça, e deitou-se a pernadas pela Rua da Ajuda. 

Ao entrar em casa, Marta disfarçadamente volveu o rosto e viu de esguelha no canto, o Ivo, que a espreitava. 

 

VIII 

 

SUMIÇO QUE LEVOU UM CUPIDO ARMADO EM GUERRA, 

E ESTAMPADO EM PERGAMINHO 

 

Daquele encontro em diante, tornou-se o Ivo menos assíduo na tenda do pintor. 

Levava os dias agora a calcurriar a Rua do Aleixo, já atirando pedras aos passarinhos, já perseguindo os gafanhotos na relva, ou as rãs nas touças de bananeiras. Tudo lhe servia de pretexto para volver atrás, passar e repassar por diante das gelosias; e fincar-se horas e horas, como um mastro de Natal, em frente à porta do tabelião. 

(continua...)

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