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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

CARLOTINHA - Sim; ele te ama e te amou sempre! Um engano, uma fatalidade...

HENRIQUETA - Bem cruel!... Eu perdoaria de bom grado à sorte todas as minhas lágrimas, mas não lhe perdôo o fazer-me mulher de outro!

CARLOTINHA - Então, está decidido!

HENRIQUETA - Eu não te disse! Sou sua noiva! Meu pai deu-lhe a sua palavra. Ele me acompanha já com direito de senhor. Por sua causa estive quase não vindo...

CARLOTINHA - Como assim? Ele recusaria...

HENRIQUETA - Não; mas meu pai convidou-o para acompanhar-nos, e eu lembrei-me que Eduardo sofreria tanto vendo-me junto desse homem, que um momento fiquei indecisa!

CARLOTINHA - Por quê? Ele sabe que tu não o amas.

HENRIQUETA - Não importa.

CARLOTINHA - Mas enfim vieste. Fizeste bem!

HENRIQUETA - Não sei se fiz bem. Fui arrastada! Creio que aos pés do altar, se ele me chamasse, eu ainda me voltaria para dizer-lhe, enquanto sou livre, que o amo e que só amarei a ele!


CENA VIII

Os mesmos, VASCONCELOS, D. MARIA, AZEVEDO


VASCONCELOS - Onde está o nosso Doutor? Não há mais quem o veja.

CARLOTINHA - Subiu ao seu quarto, já volta.

VASCONCELOS - Oh! D. Carlotinha! Como está?!... Apresento-lhe meu genro. O Sr. Azevedo. (A AZEVEDO) É a mais íntima amiga de Henriqueta.

AZEVEDO - E eu o mais íntimo amigo de seu irmão! Há, portanto, dois motivos bastante fortes para o meu respeito e consideração.

CARLOTINHA - Muito obrigada! (A HENRIQUETA) Vai-te sentar; estás toda trêmula!

HENRIQUETA (baixo) - E ele, por que não vem?

CARLOTINHA - Não tarda! (Afastam-se.)

VASCONCELOS (a D. MARIA) - Parece-me um excelente moço, e estou certo que há de fazer a felicidade de minha filha.

D. MARIA - É o que desejo; tenho muita amizade à sua menina e estimo que seu marido reúna todas as qualidades.

VASCONCELOS - Para mim, se quer que lhe diga a verdade, só lhe noto um pequeno defeito.

D. MARIA - Qual? É jogador?

VASCONCELOS - Não; o jogo já não é um defeito, segundo dizem; tornou-se um divertimento de bom-tom. O que noto em meu genro, e que desejo corrigir-lhe, é o mau costume de falar metade em francês e metade em português, de modo que ninguém o pode entender! D. MARIA - Ah! Não observei ainda!

VASCONCELOS - É uma mania que eles trazem de Paris e que os torna sofrivelmente ridículos. Mas não se querem convencer!

AZEVEDO - Tem um belo jardim, minha senhora, um verdadeiro bosquet. Oh! c'est charmant! Não perdôo, porém, a meu amigo Eduardo não ter aproveitado para fazer um kiosque. Ficaria magnífico!

VASCONCELOS - Então, entendeu?

D. MARIA - Não, absolutamente nada!

VASCONCELOS - O mesmo me sucede! Tanto que às vezes ainda duvido que realmente ele me tenha pedido a mão de Henriqueta!

D. MARIA - Ora! É demais! (Sobem.)

AZEVEDO (a CARLOTINHA) - Aqui passa V. Ex.a naturalmente as tardes, conversando com as suas flores, em doce e suave réverie!

CARLOTINHA - Não tenho o costume de sonhar acordada; isso é bom para as naturezas poéticas.

AZEVEDO - Les hommes sont poètes; les femmes sont la poésie, disse um distinto escritor. Oh!

Eis a flor clássica da beleza.

CARLOTINHA - A camélia?

AZEVEDO - Sim, a camélia é hoje, em Paris, mais do que uma simples flor; é uma condecoração que a moda, verdadeira soberana, dá à mulher elegante.

CARLOTINHA - Parece-me que uma senhora não precisa de outro distintivo além de suas maneiras e de sua graça natural. Que dizes, Henriqueta?

HENRIQUETA - Tens razão, Carlotinha; não é o enfeite que faz a mulher; é a mulher que faz o enfeite, que lhe dá a expressão e o reflexo de sua beleza.

AZEVEDO - Teorias!... Fumées d'esprit... (A CARLOTINHA) Mas, minha senhora, disse há pouco que se podia fazer deste jardim um paraíso!

CARLOTINHA - Como? Diga-me; quero executar perfeitamente o seu plano.

AZEVEDO - Com muito gosto. Vou traçar-lhe em miniatura o jardim de minha casa; de nossa casa, D. Henriqueta.

CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Deixo-te só! (Dá o braço a AZEVEDO.)

AZEVEDO - Aqui un jet d'eau. À noite é de um efeito maravilhoso! Além de que espalha uma frescura! (Afastam-se.)


CENA IX

Os mesmos, HENRIQUETA, EDUARDO, VASCONCELOS. D. MARIA EDUARDO - D. Henriqueta!


HENRIQUETA - Ah!... Sr. Eduardo!

VASCONCELOS - Como está? Eu não passo bem das minhas enxaquecas!

D. MARIA - É do tempo!

VASCONCELOS - Qual, D. Maria! Moléstia de velho! Onde está ele? (A EDUARDO) Quero apresentar-lhe meu futuro genro.

EDUARDO - Conheço-o; é um dos meus camaradas de colégio! 

VASCONCELOS - Ah! Estimo muito. (A D. MARIA) Eu cá não tenho camaradas de colégio; mas tenho os de fogo! Na guerra da Independência...

AZEVEDO (voltando) - Acabo de dar um passeio pelos Campos Elíseos!

CARLOTINHA - Na imaginação... É lisonjeiro para mim!

EDUARDO - Boa tarde, Azevedo!

HENRIQUETA (a CARLOTINHA) - Ah! Nunca esperei!

CARLOTINHA - O quê?

HENRIQUETA - Tu me iludiste!

AZEVEDO - Participo-te, meu caro, que tens uma irmã encantadora. Estou realmente fascinado. A sua conversa é uma gerbe de graça; uma fusée de ditos espirituosos!

EDUARDO - Admira! Pois nunca foi a Paris, nem está habituada a conversar com os moços elegantes!.

AZEVEDO - É realmente étonnant!

(continua...)

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