Por José de Alencar (1860)
Luís – O senhor pode aproveitá-la para um dos seus folhetins, quando lhe falte matéria.
Meneses – Fica ao meu cuidado.
Vieirinha – Mas não a apliques a ti, conforme o teu costume.
Meneses – Se for uma história de amor, está visto que hás de ser tu o meu herói.
Luís – É uma história de amor. Passou-se há dois anos.
Pinheiro – Aqui na corte?
Luís – Na Cidade Nova. Vivia então no seio de uma família uma moça pobre, mas honrada. Tinha dezoito anos; era linda... como... uma senhora que está a seu lado, Sr. Ribeiro.
Ribeiro – Em que rua morava?
Luís – Não me lembro. Seu pai e sua mãe a adoravam; tinha um primo, pobre artista, que a amava loucamente.
Carolina – A amava?...
Luís – Sim, senhora. Era ela quem lhe dava a ambição; era esse amor que o animava no seu trabalho, e que o fazia adquirir uma instrução que depois o elevou muito acima do seu humilde nascimento. Mas sua prima o desprezou, para amar um moço rico e elegante.
Araújo (baixo) – Vais trair-te.
Luís – Não importa.
Pinheiro – Continue, senhor Viana.
Helena – Eu acho melhor que se faça uma saúde cantada.
Vieirinha – Com hipes e hurras!
Carolina – Por quê?... A história do senhor é tão bonita.
Vieirinha – Lá isso não se pode negar! É um perfeito romance.
Luís – Uma noite, no momento em que esse moço entrava, sua prima seduzida por seu amante, ia deixar a casa dos pais.
Meneses – O! Temos um lance dramático?
Luís – Não, senhor; passou-se tudo muito simplesmente. Ele disse algumas palavras severas à sua prima; esta desprezou suas palavras como tinha desprezado o seu amor, e...partiu.
Vieirinha – Como! O sujeito deixou-a partir?
Luís – É verdade.
Carolina – E a amava!...
Meneses – Era um homem prudente.
Luís – Era um homem que compreendia o prazer.
Pinheiro – Não entendo.
Luís – Ele amava essa moça, mas não era amado; nunca obteria dela o menor favor, e respeitava-a muito para pedi-lo. Lembrou-se que, deixando-a fugir, chegaria o dia em que com algumas notas de banco compraria a afeição que não pôde alcançar em troca de sua vida.
Araújo – Como podes mentir assim!
Ribeiro – Não bebas tanto champagne, Carolina. Faz-te mal!
Luís – Esse homem compreendia o mundo, não é verdade?
Vieirinha – Era um grande político.
Meneses – Da tua escola.
Luís – Desde então ele tratou de ganhar dinheiro; precisava não só para satisfazer o seu capricho, como para aliviar a miséria da família daquela moça, que com a sua loucura, tinha lançado sua mãe em uma cama, e arrastado o pai ao vício da embriaguez. Ah!...
Ribeiro – Que tens?
Carolina – Uma dor que costumo sofrer! Dá-me vinho.
Luís – É justamente o que esse pai fazia. Sentia a dor da perda de sua filha e queria afogá-la com vinho.
Vieirinha – Mau! A história começa a enternecer-me.
Meneses – É bem interessante.
Carolina – Mas falta-lhe o fim.
Meneses – Ah! Tem um fim?
Ribeiro – Carolina!
Carolina – Essa moça... Os senhores desejam conhecê-la?
Vieirinha – Decerto.
Carolina – Sou eu!
Pinheiro – A senhora!
Luís (a Araújo) – Está perdida.
Carolina – Sou eu: e espero que chegue o dia em que possas pagar o sacrifício desse amor tão generoso, que desprezei.
Pinheiro – Mas seu primo?...
Carolina – Já o não é.
Meneses – Como se chama?
Carolina – Não sei.
Araújo – José, dá-me a conta.
Meneses – Espera, vamos juntos.
Araújo – Ainda te demoras!
Meneses – Não.
CENA VIII
(Os mesmos, José e Antônio)
José (na porta) – Ponha-se na rua! Não achou outro lugar para cozinhar a bebedeira?
Antônio (da parte de fora) – Quero beber... Vinho... compro com o meu dinheiro. Eh!
Meia garrafa, senhor moço!
José – Vá-se embora, já lhe disse.
Meneses – Que barulho é este, José?
José – É um bêbado. Achou a porta aberta e entrou. Agora quer por força que lhe venda meia garrafa de vinho.
Araújo – Pois mata-lhe a sede.
José – Se ele já está caindo.
Antônio (cantando) – Mandei fazer um balaio Da casquinha de um camarão
José – Nada! Ponha-se no andar da rua.
Carolina – Deixe-o entrar; talvez nos divirta um pouco. Estou triste.
José – Mas é capaz de quebrar-me a louça.
Pinheiro – Que tem isso? Eu pago o que ele quiser.
Carolina – É uma fineza que lhe devo.
Ribeiro – Mas não é necessária; tu podes satisfazer a teus caprichos sem recorrer a ninguém.
Antônio – Oh! temos bródio por cá também? Viva a alegria! Toca música! Ta-ra, lalá, ta-ri, to-ri (dança).
Meneses – O homem é diletante como o Vieirinha.
Vieirinha – E engraçado como um artigo teu.
Antônio – Estão rindo?... Cuidado que estou meio lá meio cá.
Meneses – Não; faz tanto barulho que vê-se logo que está todo cá.
Antônio – Pois olhe, apenas bebi seis garrafas.
Vieirinha – Não
é muito!
(continua...)
ALENCAR, José de. As asas de um anjo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16675 . Acesso em: 12 jan. 2026.