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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Alma do Lázaro

Por José de Alencar (1873)

Que desgraçado ente que eu sou!... Não faço sofrer só aos que me amam; obrigo-os ainda a se rebaixarem.


29 DE MARÇO

Voltava de ver sumir-se no horizonte o navio que levou-me Luíza.

Cheguei a casa. Pela janela aberta olhei o vulto da cidade a colear pela margem do rio, e disse de mim para mim pensando na gente que a habita:

- Estou só!

E me enganava ainda. Mal tinha murmurado aquelas palavras, veio Maria. Falou, o que raro sucedia. Pela primeira vez, cuido eu, disse uma cousa que se entendesse. A repulsão que eu inspiro, foi-lhe raio de luz, na treva espessa de sua alma.

Pediu-me que a vendesse. Não mais quer servir-me... Tem medo do contágio... 

Senhor!... Senhor!... - A Vossa misericórdia é infinita, como a Vossa bondade inexaurível! E não chega para o aflito de mim, nem um óbolo sequer! Vergai-me sob o peso da Vossa cólera, mas dai-me fé e resignação: e eu Vos louvarei, meu Deus, na plenitude da minha dor.

Tenho eu culpa, se me criastes ente de razão? Por que me destes a inteligência? Não a tivera, que esta carne se iria consumindo no roer das úlceras, sem que soltasse uma queixa! Amparai-me, Senhor, amparai-me contra mim mesmo! Tenho medo de descrer!


29 DE MARÇO

Do profundo da minha angústia clamei ao Senhor, Ele me ouviu, e enviou à terra um anjo para ungir-me da sua fé.

Santa cousa é a inocência!... Será que a alma pura e ignorante deste mundo está mais impressa do seio do Criador, e mais próxima de seu berço? Quem pode saber, e quem dizer, se o que chamam razão, não é enfermidade do espirito preso à terra?

Naquela tarde aziaga, que me se parou de Luiza, tomou-me o desespero e levou-me sem tino por essas ruas além. Vaguei, como animal, perdido do dono, e que todos enxotam. A mim, enxotavam-me de mim mesmo ânsias de acabar com tanto penar. Tinha horror à vida.

Ouço alarido: e logo vejo, a correr espavorida pelo caminho, a gente que passava. Ser de mim que fugiam, foi o que primeiro cuidei; mas vinham de meu lado, e nem me viam.

Voltando-me conheci qual a causa era do alvoroço. Um cão espritado que ia duma para outra banda, mordendo quem encontrava.

Bem claro percebi, quanto já não era deste mundo, pois daquilo fugia ele, que eu andava a procurar. Fui-me direito ao animal. Mas até o sabujo me tem asco. Parou bem junto de mim; roçou por mim e foi perto morder um pobre velho, a quem tardo levavam as pernas trôpegas dos anos.

Cheguei-me a ele, de quem já todos com medo se arredavam; e carregando-o nos braços, levei-o para a tenda do ferreiro mais próximo, onde lhe queimei a ferida com ferro em brasa. Mal se aplacou a dor, e soube o velho quem eu era, repeliu-me de si como uma causa vil, e foi-se, sem voltar o rosto.

Quanto horror lhe causei!


1 DE ABRIL

Tornei às Cinco Pontas para ver a casa da menina da Ave-Maria, e ouvi-la cantar a sua oração de todas as noites.

Era lusco-fusco; e não me animei a aproximar da praia com receio de que vendo-me, reconhecesse o miserável que sou e de quem todos fogem.

Os outros, já não estranho. Tão habituado estou à crueldade do mundo; mas ela?... não quero ser-lhe um objeto de repulsão. Ignore para sempre que existo, e possa eu de longe, em silêncio, contemplá-la, como a estrela do céu a que dirige sua prece.

Quando ela acabou de cantar, sentou-se no terrado, junto de uma roseira de Alexandria que estava coberta de flores, e ficou olhando o mar, onde com a ardentia se esfacelavam as vagas em chuva de pedrarias cintilantes.

Tinha de todo caído a noite; e já fazia bastante escuro, para que me pudesse aproximar sem receio. Avistou ela meu vulto, pois senti que seus olhos se fitavam nele; e não sei o que foi de mim, que não me lembrei mais onde estava, nem se vivia ainda neste vale de lágrimas.

Do que só me recordo é de encontrar-me, em tornando a mim, posto de joelhos, a soluçar um pranto em que parecia ir-se toda a minha alma. Quanto tempo estive assim, não o poderia dizer, nem o como isso sucedeu, tão alheio fiquei deste mundo e de suas misérias.

Deitei a medo os olhos para o terrado. Uma sombra alva perpassava entre as moitas do terrado. Era ela que recolhia-se vagarosamente.

Será possível, mãe, que eu ame neste mundo outra criatura com as abundâncias do coração e a santidade com que sempre te estremeci?...


2 DE ABRIL

Meu Deus!.. . Meu Deus! calcastes sobre mim, pobre verme da terra, a Vossa mão onipotente, e eu não murmurei.

A peste soprou em minhas veias seu hálito de chamas, que me requeima o sangue e devora as carnes. Meu corpo, o que é senão um crivo de dores, e um inferno onde me abraso em vida?

Tudo sofrerei resignado. Mas, Senhor, poupai-me a esse cruel martírio! Sentir-se a gente vil para aquela a quem vota seu amor!... Parece-me que ainda não tinha sofrido toda a degradação de minha pessoa. Contra a repulsão do mundo revoltava-se minha alma que o despreza como a um ventre de misérias. Contra o nojo que às vezes tenho de mim mesmo, consola-me o pensamento de que meu ser purifica-se nessa chama em que abraso-me.

(continua...)

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