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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Corina Aos quatorze anos vim esperançosa para a casa do meu tutor, mas bem depressa tive de chorar pelo meu colégio! Aqui a prisão chega a ser cruel: a tia Suzana sabe como o sr. Firmino e sua esposa conspiram contra os direitos do meu coração, cada qual de seu lado, e no interesse material de seus filhos!

Suzana Tens razão...

Corina Não consentem que eu tenha uma amiga, nem que eu desça sozinha ao jardim, nem que saia uma vez de casa, ao menos para levarem-me à igreja: despediram a minha ama-de-leite que meu pai libertara com a condição de acompanhar-me até o meu casamento: enclausurada e suspeita, as criadas espiam-me, a minha escrivaninha é a miúdo revolvida [sic]: sofro injusta opressão... e sinto-me ameaçada pela prepotência e... oh, tia Suzana... chego a temer o crime...

Suzana Pobre menina! Tem paciência, espera.

Corina Sim, espero; mas sem mãe, sem pai, educada na desconfiança, no medo, nos sofrimentos e nas aflições, de cinco anos de orfandade, sou o que me fizeram ser, sou fingida, e espero, sim espero, escudando-me com o fingimento.

Suzana Era mais nobre ser franca, mas deveras nunca fingiste para enganar-me.

Corina Nunca, porque a tia Suzana desde o primeiro dia em que me falou, falou-me a linguagem que em pequenina eu ouvi da minha mãe.

Suzana Obrigada... podes confiar na velha Suzana...

Corina Com o coração todo aberto e os seus olhos, como eu o abria aos olhos de minha mãe...

Suzana Mas... se nela guardasses um segredo...

Corina Seria seu... e sem reservas. Até hoje a tia Suzana é o único seio leal e amigo que tem acolhido e consolado a triste órfã!...

Suzana Órfã!... Órfã!... Não me chamarás em vão tua mãe!... Serás minha filha. (abraça-a) Voz de mulher, dentro Uma esmola à pobre velha pelo amor de Deus!

Corina (estremece) Oh, é a minha pobre! Posso ir dar-lhe esmola?

Suzana Vai... vai... e abençoada sejas, porque estendes a mão da caridade ao pobre! (Corina vai-se pela porta do jardim: Suzana levanta-se e a segue, abençoando-a, risonha; mas recua da porta e vem sentar-se triste)

Corina (voltando alegre) Já se foi.

Suzana Os outros pobres esmolam à escada da frente, como é que esta vem até aqui, entrando pelo jardim?

Corina Pedi e obtive que lhe permitissem isso: é a minha pobre.

Suzana Ah, e tu trazes sempre dinheiro contigo? (silêncio e confusão de Corina). Tinhas dinheiro, Corina?

Corina (abrindo os olhos) Não... tia Suzana... não tinha...

Suzana Então!... o que deste à tua pobre?...

Corina Eu não dei... recebi... tia Suzana... recebi uma carta do homem que amo, e com quem espero casar. Ei-la aqui. (mostra)

Suzana Um grave erro, menina! Tu mesma sentiste que procedeste mal, pois certamente correste, recebendo essa carta. Mas... eu tinha um peso sobre o coração... tiras-te-mo; por que não mentiste.

Corina E eu lhe digo tudo: o dr. André de Araújo ama-me...

Suzana Doutor André de Araújo?... Não conheço: onde viste esse doutor?...

Corina Outrora na casa de meu pai: nossas famílias eram amigas. Dez anos mais velho que eu, André muitas vezes carregou-me em seus braços, e quando me achei mais crescida, ele me dava bonecas e flores... foi no tempo em que eu era anjo... no tempo da felicidade e dos risos... depois...

Suzana Depois?...

Corina Meu pai morreu: vi ainda uma vez André na hora terrível do saimento para o enterro... ele chorava também, e chegando-se a mim, beijou-me a fronte... sinto ainda esse beijo, e na minha face uma lágrima que lhe caiu!... Separamo-nos; há dois anos, porém, André levou para o meu colégio uma sobrinha, viu-me, reconheceu-me, saudou-me com ternura melancólica, e eu não pude saudá-lo, porque desatei a chorar, lembrando-me de meu pai: depois... tornamos a ver-nos uma... dez... vinte vezes... e pouco a pouco... ah, tia Suzana não sei como foi... nós nos amamos.

Suzana E por que não vem ele pedir-te em casamento?...

Corina Há dois meses que o fez, e meu tutor o repeliu.

Suzana Talvez não seja digno de ti.

Corina André?... Eu ouvi o que diziam dele no meu colégio: é a virtude, a bondade e a ciência entesouradas em um homem a quem não seduz a minha fortuna, pois é mais rico do que eu, e desconhece a avareza por brilha [sic] pela caridade.

Suzana Que entusiasmo! E que te diz ele em suas cartas?...

Corina Pede-me que o ame e espere; e que respeite o meu tutor. Confesso: propus-lhe que apelasse para a autoridade e que me arrancasse deste meu cativeiro.

Suzana E ele?

Corina Condenou esse recurso que provoca o ruído público, mas assegurou-me que em caso extremo não hesitará...

Suzana E que mais...

Corina É tudo: confiar-lhe-ei todas as suas cartas. Quer ler esta que ainda não abri?...

Suzana Quero antes de tudo que me prometas não receber outra.

Corina Oh, e que será de mim?...

(continua...)

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