Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)
CLARIMUNDO – Cincinato – Há caso de contrabando... obrigações não cumpridas... agravação do comércio ilícito, de que o informei... precisamos conversar amanhã...
HELENA – Sem cerimônia... eu esperarei à janela...
CINCINATO – Oh, não, minha senhora; aqui não posso explicar-me com o sr. Clarimundo; trata-se de negócios comerciais complicados... jogo na praça... baixas de câmbio... contratos secretos... falência eminente... empresa anônima com letra aberta no banco da pouca... quero dizer da nenhuma vergonha... perdão minha senhora...
CLARIMUNDO – Basta... eu devia ter vindo mais cedo... prenderam-me compromissos... mas... amanhã... amanhã... (Outro tom.) este desastrado está sempre a doidejar... é o seu costume... (Aflito.)
HELENA – Nem sempre: colaço de Adriano, tem sido para mim o irmão mais delicado, e o amigo mais respeitoso...
CINCINATO – É que só me apresento a falar-lhe, quando me sinto em horas lúcidas.
CLARIMUNDO – Estarias sempre lúcido, se não fossem as más companhias...
oh! as más companhias!... (Outro tom.) quem são os dois figurões que saíram daqui, quando entrávamos?... vi-os no corredor e pareceu-me reconhecê-los.
CINCINATO – A um sem dúvida conhece: é o mais feliz dos capitalistas; porque sem fonte de renda tem inesgotáveis fundos de reserva nos cofres da fraternidade: é Fábio o irmão de dª. Úrsula.
CLARIMUNDO – Fábio!... e o outro?
CINCINATO – O outro lhe é desconhecido: chama-se Bráulio, venerando tio de
uma sobrinha de quem não é tio... perdão minha senhora; é o rei do barato; em reino de casa de jogo o barato significa sangria, e o reino é de sanguessugas; porque, além do barato, que é veia aberta, há ali a sobrinha do tio de quem não é sobrinha, e tornando-se prima mesmo de quem não for seu primo... perdão, minha senhora.
HELENA – Como se chama ela?...
CINCINATO – Dionísia (Movimento de Helena.) uma carta de jogo que anda fora do baralho e que às vezes embaralha de modo... não sei como o diga... perdão minha senhora, eu me vejo muito embaralhado para poder explicar... mas ela é na verdade mazela.
HELENA – E formosa, pelo menos bonita?...
CINCINATO – Hoje em dia a beleza tornou-se equívoca... perdão, minha senhora, nem sempre; em regra, porém, misericórdia! pastas de pó de arroz no rosto, no colo, nas espáduas, o diabo em dez tintas enganadoras, e além da caiação e da tinturaria postiços a desnaturar a natureza: a três passos de distância há velhas que arrebatam pelo fulgor da primavera.
CLARIMUNDO – Má língua!
CINCINATO – Acresce que atualmente o belo é o arco-íris combinado com o aleijão: para o aleijão tacões enormes de botinas a empurrar o corpo para diante e anquinhas deformes a puxá-lo para trás; arco-íris em vestido com duas saias, uma azul e outra cor-de-rosa, com apanhados amarelos, enfeites pretos e corpinho cor de agapanto com fitas verdes e rendas brancas, afora os laços monstros e...
HELENA – Mas essa moça... Dionísia...
CINCINATO – Beleza equivoquíssima; em perpétuo toilette de carnaval destemperado: tez pálida... rosada... clara... morena a capricho da variedade, cabelos negros... castanhos... cinzentos... louros conforme os dias da semana; é bela? é ponto controverso entre os dias da semana.
CLARIMUNDO – Já tagarelaste demais, e estás estorvando o meu passeio com Helena; vai almoçar comigo amanhã às nove horas precisas... hotel Provenceaux segundo andar.
CINCINATO – Hotel Provenceaux... segundo andar... sem falta. seremos três a almoçar; porque eu sou dois à mesa dos amigos. Minha senhora... (Aperta a mão de
Helena.) Sr. Clarimundo, até amanhã. (Aperta a mão de Clarimundo.) CLARIMUNDO – Às nove horas... ou antes... ( Vai-se Cincinato.)
CENA V
CLARIMUNDO e HELENA
CLARIMUNDO – Excelente mancebo! tipo de lealdade e honra; é pena que desame o trabalho e tão estouvado às vezes se mostre.
HELENA – Vive na abastança com o que possui; não tem ambições e o seu estouvamento a ninguém prejudica; comigo, embora colaço de meu marido, leva o respeito a condições de cerimônia, e é um amigo de fidelidade exemplar.
CLARIMUNDO – É, posso dizê-lo; mas... como se acha?...
HELENA – Estou muito melhor... (Passeiam.)
CLARIMUNDO – Vim encontrá-la um pouco abatida... evidentemente padece; quando há três anos fui para o Rio da Prata, deixei-a mais alegre e gozando melhor saúde: não é feliz?...
HELENA – Muito feliz, Adriano... é tão bom para mim!...
CLARIMUNDO – Sabe como estimo seu marido: é um perfeito cavalheiro; mas às vezes entre jovens casados basta a sombra de uma suspeita para anuviar a felicidade.
HELENA (Trêmula.) – Eu confio no amor de meu marido: Adriano me trata
com a mais extremosa delicadeza.
CLARIMUNDO – Pareceu-me que se perturbou... eu tenho o direito...
HELENA – Oh! enganou-se, não posso queixar-me de Adriano: sou feliz.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Remissão de Pecados. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2159 . Acesso em: 6 jan. 2026.