Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– É porque tu não sabes, Celina, o que se passou então dentro de mim. Nas sociedades parecia-me ouvir dizer – coitada! – quando eu passava perto de um círculo de cavalheiros; eu julgava-me ofendida no meu orgulho, rebaixada na convicção que eu tinha de ser bela; bela sim, e mais bela que as outras, quando eu via entrar na sala pelo braço de seus maridos minhas companheiras de colégio, algumas mais moças que eu e nenhuma tão bonita como eu mesma me supunha!... Oh Celina!... eu sentia que o sangue me estava subindo à cabeça naqueles terríveis momentos; concebia desejos de matar-me, e às vezes fugia para o toilette, e chorava como chora uma criança em desespero!...
A “Bela Órfã” começava a ouvir com interesse a relação daqueles segredos íntimos de um coração de mulher.
– Em outras ocasiões, prosseguiu Mariana, conversava-se familiarmente em uma roda de moças; passava-se da discussão sobre o último sarau a falar-se acerca de vestidos e modas, e enfim se sucedia cair a conversação a respeito de idades, era para mim um suplício acerbo obrigarem-me a dizer a minha. Eu mentia, Celina, eu dizia que tinha dezoito anos, e dentro de mim sofria horríveis torturas, vendo como aquelas que me conheciam, sorriam-se e beliscavam-se ouvindo-me mentir diante delas!
– Uma vez, continuou a viúva, era em um brilhante sarau; Matilde, a minha melhor amiga, passeava conversando comigo; de repente parou, e como inspirada por um demônio, disse-me: – Ah! é verdade, Mariana, é preciso cuidares de casar-te; estás te fazendo velha!... – Oh!... então eu tive vontade de matar a minha melhor amiga. Fugi daquele sarau... disse que estava doente; meu pai trouxe-me para casa cheio de cuidados; eu corri a esconder-me no meu quarto, e passei a noite inteira chorando. No outro dia (foi certamente o meu destino, Celina) meu pai mandou-me chamar à sala; estava com ele um homem que eu havia encontrado algumas vezes mas que nenhuma atenção me merecera: esse homem vinha pedir a minha mão; meu pai deu-me a liberdade de responder, e eu, sem perguntar quem ele era, qual o seu nome e o emprego que na sociedade exercia, disse-lhe que – sim! – e passado um mês eu era mulher de um homem que não amava, e de quem podia ser filha.
– Mas foi uma loucura!... exclamou Celina.
– Oh! sim, foi, e caro tive eu de pagá-la. Eu tinha feito, sem o pensar, o sacrifício de minha vida; não me era porém então doloroso, porque meu coração estava livre... eu não amava. Mas parece que Deus quis castigar-me de pronto; porque Deus, Celina, não abençoa a união daqueles que se não amam. Logo na noite de nossas núpcias, meu marido me apresentou um mancebo de nome Henrique, e me convidou a abraçar nele o seu primeiro amigo; e nessa mesma noite, portanto, vi um homem que preferi a meu marido. E daí por diante todos os dias sempre esse mancebo belo, nobre, ardente, de olhos tão lindos, e um sorrir tão meigo, se apresentava diante de mim, ao pé de meu marido pálido, abatido, com os cabelos começando a embranquecer, sem espírito para compreender a mulher que desposara, e sem poder ser amado por ela!
– Oh! devia ser horrível!... murmurou a “Bela Órfã”.
– Como chorei então a minha vida de solteira!... Sim, eu estava passando novos tormentos, tormentos dobradamente dolorosos. Dantes era a minha vaidade que me perseguia, mas que eu poderia vencer, e rir-me dela se tivesse sido menos louca; então era um poder mais forte, era o meu coração que se tornara meu inimigo, que me pedia o que eu não podia dar-lhe, e que, a pesar meu, a despeito de meus esforços para subjugá-lo, mesmo junto de meu marido e principalmente a seu lado, ele me bradava – amo Henrique!...
– E esse segredo terrível... ia perguntando Celina.
– Este amor funesto e invencível, continuou Mariana sem atendê-la, eu o sentia ir crescendo mais e mais todos os dias; para cúmulo de minha desdita, para tornar-se mais iminente o perigo em que eu me achava, Henrique amou-me perdidamente. Oh! e nos momentos em que eu contemplava esse nobre mancebo a hesitar quando me falava; a lançar-me a furto olhares ardentes, a tremer quando me dava o braço, a suspirar involuntariamente se a meu lado se sentava, e tão forte e tão grande, e tão fiel a seu amigo, que nunca achava uma frase terna para me dizer, e que sempre tantos elogios tinha para fazer a meu marido; eu amaldiçoava os laços que me prendiam, concebia outra vez desejos de matar-me, e outra vez escondida no meu quarto, chorava como chora uma criança em desespero!...
– Oh! devia ser horrível! repetiu Celina.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.