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#Comédias#Literatura Brasileira

O primo da Califórnia

Por Joaquim Manuel de Macedo (1858)

Beatriz – As músicas?... assim mesmo talvez que algum fogueteiro as quisesse comprar para fazer bombas, e desse por elas duas ou três patacas; e se além disso o senhor vendesse estes trastes a algum belchior, poderia ser que...

Adriano – Silêncio! A senhora parece haver prometido aos santos de sua maior devoção o não abrir a boca hoje, que não seja para dizer parvoíces; fique pois grunhindo sozinha, que irei eu mesmo buscar aqueles inapreciáveis objetos. (Vai-se)

CENA II

Beatriz (Sentando-se) – Havia de ter que ver, se eu me fatigasse por um músico tão ordinário: nada... vou ler o jornal, que o barbeiro da esquina me emprestou; já há de estar desesperado por ele: em quanto aos arranjos desta mansarda, o senhor musicozinho pode muito bem esperar. Vejamos. (Tira o jornal, põe os óculos e lê) “Guerra do Oriente... os Russos e os Turcos... “ Ah! quem me dera ver esta súcia de Turcos toda ela enforcada!... eu cá sou Russa... Russa até os cabelos!... não posso levar a paciência , que hajam homens, cada um dos quais se case com cinqüenta mulheres!... todas as senhoras devem ser Russas. (Lê) “Fala-se em mudança de ministério...” Que me importa?... para mim suba quem subir é sempre a mesma coisa! Quem vê um, viu todos. (Lê) “ontem estiveram expostos durante todo dia no campo da Aclamação um burro, dois cachorros, e três gatos mortos...” Ora que asneira! Pois o campo da Aclamação não é mesmo o lugar do despejo público?... (Lê) “Uma carta da Califórnia , datada de 25 de outubro próximo passado, anuncia com certeza a morte de um Brasileiro de nome Paulo Cláudio Jenipapo...” Jenipapo?... é o mesmo nome do tal musicozinho das dúzias. (Continua a ler baixo e espantada) Oh! Meu Deus!... será possível!... era seu primo!... e ele fica seu único herdeiro!... só se eu me engano... (Ergue-se e esfrega os óculos) Vejamos... vejamos... (Lê) Não... está aqui!... impresso!... em letra redonda!... o senhor Adriano milionário!... e eu chamá-lo musicozinho... não, língua danada! É um musicozão, maior que Rossini, que Donizetti, e que toda essa gente da casa da ópera! É maior que... que... é maior que tudo enfim: o senhor Adriano milionário, vai ter uma casa... criados... é bem capaz de me tomar para sua criada grave... Que inconseqüência havê-lo tratado sem o devido respeito... então eu... eu que sempre tive ao senhor Adriano a maior amizade... mesmo uma amizade que faria desconfiar, se eu já não fosse maior de cinqüenta... vamos pois... zelo... cuidado... trabalhemos com boa vontade... (Arruma os trastes com ardor)

Eu não sou velha enfezada,Menos beata fingida;Sou uma boa criada, Que gosta da vida. E o amorzinho que eu tenhoÉ bom como um serafim, É uma jóia, um tesouro, Um cupido de alfenim. CENA IIIBeatriz e Adriano, trazendo o violão e as músicas.

Adriano – Finalmente, eis aqui tudo.

Beatriz (Correndo a ele) – Oh! Senhor Adriano, meu amorzinho do coração da minha alma! Para que tomou o trabalho de ir buscar tanta coisa lá embaixo?... era eu quem devia ir... eu tinha obrigação disso...

Adriano (Espantado) – O que é isto, senhora Beatriz?... a senhora está deveras falando comigo?...

Beatriz – Certamente: por ventura não sou criada de Vossa Senhoria?

Adriano – Senhora?!!! Senhora Beatriz, diga, está em seu perfeito juízo?...

Beatriz – Nunca me senti melhor.

Adriano – Nada... a senhora não está no seu estado normal.

Beatriz – Sim, senhor... estou mesmo no natural da minha natureza!

Adriano – Todavia... esta esquisita urbanidade... os obséquios que agora me está fazendo... esta mudança do preto para o cor-de-rosa operada em um instante... tudo, tudo é um fenômeno em nossas relações quotidianas.

Beatriz – Talvez que, às vezes, eu me tinha achado de mau humor... é necessário perdoar os pesares internos que me atormentam: quando se tem recebido uma certa educação, e se chegou a ser...

Adriano – Ah! sim... sim...

Beatriz – É duro ver-se depois a gente reduzida a uma triste posição: tirando disto, eu não sou má, e, olhe, tive sempre por Vossa Senhoria a mais decidida predileção...

Adriano – Senhoria outra vez!... enfim, seja como for, antes como está, do que como estava.

CENA IV

Beatriz , Adriano e Celestina, trazendo manuscritos de música e chapas de cobre.

Celestina – Bom dia, Adriano; trago-te as minhas chapas de música, para que admires os meus progressos.

Beatriz – Oh! Que calamidade! Mãos tão delicadas carregando semelhante peso!

Dê-me isso, senhora, dê-me... ande... sente-se... eis aqui uma caixa... descanse...

Celestina (Admirada) – Obrigada... agradecida... senhora Beatriz; (A ADRIANO)

Adriano, como se explica isto?...

Adriano (A CELESTINA) – Celestina, isto como se explica?...

Celestina – Senhora Beatriz, olhe bem para mim: a senhora está bem certa de quem eu sou?

Beatriz – Oh! Se estou! A senhora é a moça mais bela, mais modesta e mais perfeita das vinte províncias do Império do Brasil, e isto é o que eu tenho sempre dito e sustentado.

(continua...)

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