Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)
Brás chamava-se o homem que havia acabado de entrar; tinha talvez a mesma idade de Venâncio, mas era tal o seu parecer e o seu trajar, o seu viver e o seu praticar, que em toda a parte se fazia conhecer pelo nome de Brás-mimoso. Tudo nele era com efeito mimoso: estatura muito menos que ordinária, pequeninos pés, delicadas mãos... pisar subtil... e até juízo curto. Com o melhor gênio do mundo, vivia, contudo, em guerra declarada com a natureza, e, se não lhe era possível vencê-la, ao menos escondia os triunfos que ela sobre ele obtinha.
Assim, o peso dos anos tinha conseguido começar a dobrar-lhe o corpo, pois Brásmimoso comprou um espartilho, e se pôs teso, direito e gracioso, como uma palmeira. Os cabelos lhe foram pouco a pouco caindo; Brás-mimoso usou logo de cabeleira. Os dentes se lhe cariaram e se perderam; Brás-mimoso apelou para uma dentadura postiça.
Com o crescer da idade conheceu que se ia tornando pesado, Brás-mimoso não perdeu mais em sarau alguma ocasião de dançar a valsa de corrupio, e por último fez-se mestre nos sapateados da polca.
Lembrou-se que poderia ir ficando rabugento e frio; Brás-mimoso não deixou mais a companhia das moças, tornou-se namorado; como nunca, recita versos, canta modinhas e escreve cartas de amor.
Também não lhe falta tempo para nada disso. Oficial reformado no posto de capitão, ele passa vida de anjo: almoça, janta e ceia sempre, e muitas vezes dorme em casa dos amigos, de manhã vai para os botequins ler periódicos; se é tempo de legislatura, às dez horas guarda-se no melhor lugar de uma das galerias e ouve, e decora para repetir nos círculos que freqüenta, os mais fortes discursos da oposição; se as câmaras estão fechadas, passeia, ou lê romances, nas quintasfeiras vai ao museu, de tarde ao passeio público, e à noite às assembléias, ou ao teatro no camarote de algum conhecido. Freqüenta muito a Rua do Ouvidor, sabe de modas e de vestidos, como M.me Godin, de flores como M.me Finot, de cosméticos e pomadas como Mr. Desmarais. Possui uma lista de todas as moças bonitas do Rio de Janeiro com a nota das suas moradas, tem a modéstia de se crer amado por quase todas, conhece meio mundo, vai a toda a parte, come, bebe, e fala, como... só ele.
Nós o vamos encontrar almoçando com a família de Venâncio; estão à mesa cinco pessoas.
Venâncio, que almoça com boa vontade de quem sabe que a mesa é o único prazer que lhe resta no mundo.
Tomásia, que, devorando quanto vê diante dos olhos, assegura a todos os momentos que nunca tem fome, mas que se vê obrigada a alimentar-se por causa da sua querida filhinha, que deseja amamentar com os seus próprios seios, medrosa dos inconvenientes do leite mercenário.
Félix, moço de vinte e seis anos, de estatura ordinária, magro, pálido, com as mãos muito brancas e bem-feitas, desconfiado e melancólico de natureza, mas com tais qualidades modificadas pela freqüência das sociedades, vestia calças e colete branco e uma sobrecasaca, que magnificamente lhe assentava; tinha ao pescoço uma gravata de cor, muito baixa, e bordada com igualdade matemática por uma estreitíssima dobra do colarinho; sobrinho de Tomásia, freqüentava ele com admirável assiduidade a casa da titia; comendo com a rapidez e boa vontade de um caixeiro, de cada vez que levava o bocado à boca, Félix lançava uma olhadura fulminante sobre a prima Rosinha.
Rosa é a mocinha, a quem já conhecemos do teatro; com os seus dezesseis para dezessete anos, é ela uma menina dessas moreninhas capazes de fazer andar com a cabeça à roda a mais de meia dúzia de rapazes a um tempo; pouco alta, esbelta, com lindos e vivos olhos pretos, com pequeninas mãos, proporcionados pezinhos, Rosa, que se vê ao espelho mais de trezentas vezes por dia, gosta muito de si mesma, e, animada pela perigosa educação com que foi criada, é sem mais nem menos conquistadora, travessa e espertinha demais; como tem às suas ordens a chave da despensa, e o dia inteiro por seu, ela come menos que um passarinho diante dos hóspedes, e serve o chá tomando as taças com as pontas dos dedos, mostrando assim um rico anel de brilhante que nunca deixa.
Finalmente Manduca, com quem igualmente já tomamos conhecimento no teatro, era o predileto de Tomásia, rapaz apaixonadíssimo por pão com manteiga, com a qual já tinha emplastrado três partes do seu escarpado rosto.
Tomando a última gota de chá, Venâncio levantou-se, como quem se supunha demais naquela roda, e retirou-se.
Apenas acabava de sair o velho marido, Brás-mimoso voltou-se para a dona da casa, e disse:
— Devo confessar-lhe, Sr.ª D. Tomásia, que tenho dado tratos ao pensamento para penetrar aquele mistério, do qual me falou ontem à noite.
— Mas... não me recordo.
— Ora... quando me perguntou se eu conhecia o moço da gravata azul-celeste.
— Veja só!... pois ainda se lembra disso? estou pensando que só para fazer-me essa pergunta veio dar-nos o prazer de almoçar conosco; vês, Rosinha, nós as mulheres somos exclusivamente as curiosas...
— Mas como me tinha prometido a decifração do mistério...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. O moço loiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2107 . Acesso em: 6 jan. 2026.