Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Além disso a vala teve durante anos certa importância administrativa, porque foi considerada muro da cidade, ou linha extrema urbana.

Entretanto a vala ficou exposta, destapada, e como de tudo se abusa, abusaram da inocente e benfeitora os colonos moradores das vizinhanças que a fizeram servir, para o despejo de quanto de pior serviço de suas casas era preciso despejar.

Em breve e necessariamente a desvirtuada vala tornou-se imunda, repugnante, fétida e foco de miasmas, e a Rua do Padre Homem da Costa que avançou até ela devia ser nesse seu novo limite de habitação muito desagradável e anti-higiênica.

Mas apesar das ruins condições determinadas pelo abuso que ficou mencionado, casas se foram construindo aos lados da vala e principiou a formar-se a rua que tomou dela o nome e que hoje se chama de Uruguaiana.

Além da vala, o espaço que se estendia entre o monte de Santo Antônio e o mar, e dessa linha para o centro até a depois chamada cidade nova inclusive, tudo era campo do Rosário.

Em 1764 ou 1765 o Vice-Rei Conde da Cunha ordenou à Câmara Municipal da cidade que fizesse cobrir com lajes grossas a vala fétida e pestífera; a obra executou-se prontamente, e para que não fosse de todo prejudicado o esgoto das águas das chuvas, a vala recebeu ralos de pedra no encruzamento das ruas.

E todavia ainda houve abuso de ralos!

Em todo caso foi considerável o melhoramento olfativo e higiênico, sendo o Conde da Cunha muito aplaudido e louvado por isso nas memórias do tempo.

E eis aí como se escreve a história!

O Vice-Rei Conde da Cunha, doente e velho, que raro se mostrava, passeando pelas ruas da cidade, porventura nunca tinha recebido em seu vice-real nariz o gasoso testemunho das exalações da vala aberta, e entrou na obra melhoradora apenas com a sua indispensável assinatura na ordem expedida para que a vala fosse coberta com lajes grossas.

O que inspirou e determinou esse melhoramento foi noturno e ridículo caso, cuja história parece romance, e há de divertir os meus leitores no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 4

Como e por que o ajudante oficial da sala do Vice-Rei Conde da Cunha meteu-se a jogar a banca na casa de João Fusco; desenvolve-se a história que parece romance, e na qual são personagens João Fusco e a Sra. Helena, a menina Águeda, a mãe Jacoba, o cão Degola, o oficial da sala, o sacristão da Igreja de S. José e um lobisomem que uma noite põe em desordem a banca, e perseguido pelos jogadores escapa abismado na vala, enquanto o sacristão de S. José, aproveitando o ensejo, bate a linda plumagem com a menina Águeda, logo depois sua esposa: diz-se como o banho do lobisomem foi o motivo de se cobrir a vala com lajedos; o oficial da sala faz prender por falsas suspeitas de pasquineiro o sacristão, que é solto por intervenção do vigário, e transcreve-se um pasquim que apareceu em frente à Rua do Padre Homem da Costa junto da vala.

O Vice-Rei Conde da Cunha foi mas não foi quem mandou que a Câmara Municipal fizesse cobrir com lajedos a vala nauseabunda e pestífera. Este foi mas não foi parece absurdo; é, porém, uma das verdades mais verdadeiras, que ainda às vezes se revelam em fatos. Foi porque assinou a ordem, mas não foi - porque de outrem partiu a iniciativa e a determinação.

O Conde da Cunha, velho, achacado e sem atividade, era o Vice-Rei; via, porém, pelos olhos, e governava pela cabeça de seu ajudante oficial da sala, o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso de Menezes, que por muito hábil, inteligente e insinuante ganhara sua inteira e cega confiança e se tornara o vice-rei de fato.

Infelizmente Alexandre Cardoso era de mau caráter, de costumes dissolutos, jogador, libertino, desenfreado em suas paixões, e tanto mais perigoso, que além de valente e corajoso, dobravam-lhe a ousadia, o poder de que dispunha e a certeza da impunidade.

No tempo do vice-reinado do Conde da Cunha jogava-se muito, jogava-se demasiadamente na cidade do Rio de Janeiro, muito e apenas um pouco menos do que atualmente. O jogo dominante era então a banca.

Alexandre Cardoso jogava quase todas as noites; mas só em rodas de gente rica e a mesas cobertas de ouro; uma vez, porém, fez exceção a essa regra.

Uma noite, em 1764 ou em 1765, passando ele pela Rua da Vala, entrou como por acaso na loja de João Fusco e pediu ao caixeiro biscoitos de carimã, balas, e mais ia pedir quando se interrompeu perguntando:

- Que fazem lá dentro?

- Jogam a banca; sim senhor.

- Chama João Fusco.

João Fusco correu logo ao chamado.

- Eu também quero jogar, disse Alexandre Cardoso.

E entrou sem-cerimônia, dizendo aos jogadores que respeitosos e surpresos se levantaram.

- Não há nada de novo, é apenas mais um parceiro.

Alexandre Cardoso mostrou-se agradável, desfez o acanhamento da companhia, jogou, perdeu duzentos cruzados, e alegre, e brincalhão levantou-se e disse:

- Basta por hoje, voltarei porém à desforra, João Fusco! na tua casa joga-se liso. Adeus.

E saiu.

Agora breve explicação.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...89101112...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →