Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)
Enquanto vais remendando
Pensa em ti, quam longe está...
Lá, lá.
Que ditosa te fará,
Lá, lá.
PESTANA (À parte) – Costura que é um gosto! aposto que o soldadinho nunca foi alfaiate... costureira, parece que é! capitão, capitão.
Cena III
Inês, Pestana e Benjamim, com hábito de noviço franciscano, e logo o Capitão Pina.
BENJAMIM (Apressado) – Quero falar ao coman... (Reconhecendo Inês) Oh!...
INÊS (A Benjamim) – Silêncio...
BENJAMIM (A Inês) – Como está fascinadora com a farda de soldado!... mas eu não consinto... fugi do convento e venho entregar-me.
INÊS (A Benjamim) – De modo nenhum!... fuja eu preciso muito do senhor livre do recrutamento... preciso...
PESTANA – Reverendíssimo, conhece este soldadinho?
BENJAMIM – Não é da sua conta: quero falar ao comandante... ou ao general... ou não sei a quem.
PESTANA (À parte) – Que frade malcriado!...
INÊS (A Pestana) – Não chame o capitão...
BENJAMIM (Puxando Pestana) – Chame o capitão!
INÊS (Puxando Pestana) – Não chame!...
BENJAMIM (Puxando Pestana) – Chame!... Chame!...
PESTANA (A Inês) – Que tem o senhor com o frade?
INÊS – Também não é da sua conta.
PINA (Chegando) – Que é isto?...
PESTANA (A Inês) – Faça a continência...
INÊS – Deixe-me! agora não estou para continências.
PINA – Reverendíssimo, venha para o estado maior.
BENJAMIM – Aqui mesmo: eu venho...
INÊS – Senhor capitão, ele veio pedir o lugar de capelão do regimento...
PINA (A Inês) – Soldado! não te perguntei coisa alguma.
INÊS – Mas eu quando quero falar, não espero que me perguntem...
BENJAMIM – Venho declarar que sou o Benjamim que fugiu de Macacu vestido de mulher e com o falso nome de Antonica da Silva...
INÊS – É mentira dele, senhor capitão; o frade é meu primo e vem com esta...
PINA – Sargento, leva o soldado para o quartel...
PESTANA (A Inês) – Marcha!
INÊS – Não vou: agora não saio daqui.
PESTANA – Senhor capitão, recolho o insubordinado ao xadrez.
PINA – Deixa-o: talvez eu queira interrogá-lo.
PESTANA (À parte) – Foi-se a disciplina!... entrou no regimento uma saia por baixo da farda.
PINA – Reverendíssimo, como hei de acreditar no que diz?... esse hábito religioso...
BENJAMIM – Como eu era sacristão dos franciscanos em Macacu, entendeu o provincial que podia trancafiar-me no convento da cidade, e fazer de conta que sou noviço.
PINA – Então...
BENJAMIM – Fugi do convento... não quero ser frade... prefiro ser soldado...
INÊS – Oh... oh... oh!... quanta mentira!... o Benjamim sou eu.
PINA (A Inês) – Cala-te!... (Bate com o pé).
INÊS (Ressentida) – Perdão!... não se trata assim a uma...
PINA – A uma?
INÊS – Sim, senhor... a uma pessoa de educação.
PINA – Reverendíssimo, vou oficiar ao coronel, dando-lhe parte de tudo (Indo-se) E também ao provincial dos franciscanos... (Recolhe-se ao estado maior).
INÊS – Não sabe o que fez! destruiu a minha obra.
BENJAMIM – Não podia deixá-la aqui: serei soldado... mas não se esqueça de mim, oh! e se seus pais consentirem.
INÊS – Eu falarei a meu padrinho...
BENJAMIM – Que sombra de felicidade! (Toma a mão de Inês).
INÊS – Tenha fé! o sonho há de realizar-se!...
BENJAMIM – Nunca se amou como eu amo!...
PESTANA – Olhem o frade!...
Cena IV
Inês, Pestana, Benjamim e Mendes.
INÊS (Alegre) – Oh!... é meu padrinho!
MENDES – Onde e como venho encontrar-te? (Severo) uma donzela ousa vir meter-se em um quartel de soldados!... (Inês abate-se).
BENJAMIM – Coitadinha!... poupe-a: está arrependida; acabo de ouvi-la em confissão... ficou contrita, e eu absolvi-a.
MENDES – Mas eu não a absolvo: manchou sua reputação, condenou-se às censuras e à zombaria de todos... sou eu padrinho, mas nego-lhe a minha bênção!...
INÊS – Ah!... ah!... (Desata a chorar).
BENJAMIM – Não chore! não chore... senão eu... não poderei conter-me... desato numa berraria...
MENDES – De que servem choros? lágrimas não lavam manchas da vida e do proceder da mulher; o pranto não me comove! (À partee brando) o pior é que eu não posso vê-la chorar!...
INÊS (De joelhos e a chorar) Per... dão... meu pa... drinho...
MENDES (Comovido e à parte) – É preciso ser severo (Alto) Não há perdão!...
semelhante escândalo... não se perdoa!... (À parte) eu creio... que exagero a severidade...
ela está aflitíssima... (Alto) Não se perdoa!...
INÊS (Caindo de bruços a soluçar) – Eu... morro!... ah!...
MENDES – Inês!... Inês! (Erguendo-a) Perdoa-se... não posso mais... perdoa-se!...
eu te perdôo!... (Chorando).
INÊS – Oh!... oh!... sou feliz!... (Abraçando Mendes).
BENJAMIM (Enxugando os olhos) – Isto deve fazer mal... não, deve fazer bem aos nervos..
MENDES (Afastando brandamente Inês) – Deixa-me... tomar tabaco... (Tira a caixa e o lenço, enxuga os olhos, e toma tabaco).
BENJAMIM – Dê-me uma pitada... também preciso tomar tabaco (Toma).
PESTANA (Comovido) – Senhor... padrinho... eu... igualmente... se me faz a honra..
MENDES – Tomem... tomem tabaco (A Inês) que loucura foi essa, Inês?...
INÊS – Foi loucura, foi; mas a causa.. - é mesmo um negócio, de que eu tenho a falar a meu padrinho...
MENDES – Quando eu pensava em casar-te, em te arranjar
noivo...
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Antonica da Silva. 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=213 . Acesso em: 02 jan. 2026.