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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

O Matuto é um romance regionalista que retrata a vida no interior nordestino, explorando costumes, valores e conflitos sociais da época. A narrativa acompanha personagens ligados ao meio rural, destacando tensões entre tradição e mudança. Com linguagem marcada pelo regionalismo, a obra valoriza a cultura local e apresenta um olhar crítico sobre a realidade social do sertão.

I

Pasmado é uma velha povoação, outr’ora aldeia de índios, duas léguas ao norte de Iguarassú, na estrada de Goiana. É célebre por seus ferreiros, ou mais especialmente pelas facas de ponta que estes fabricam, as quais passam pelas melhores de Pernambuco onde têm estendida e tradicional nomeada. Não há terra que se não distinga por usança, defeito, qualidade ou particularidade local, que vem a ser o seu como traço característico, a sua feição dominante. Quem passa por Tigipió, na estrada de Jaboatão, encontra a cada canto tocadores de viola que vêm alegres, e pé no mato pé no caminho. Dos casebres do Barro o que logo se mostra aos olhos do viandante são mulheres metediças, com as cabeças cobertas com flores, os cabeções arrendados e decotados, os seios quase de fora. Costumes dos povoados onde ainda não tiveram grande entrada o trabalho e a instrução.

Passando-se por Goiana ouve-se daqui uma trompa, dali um baixo, adiante um pistom, além um trombone, uma clarineta, uma flauta, um assobio, uma harmonia ou uma melodia qualquer, e não se vê sala nem corredor que não tenha nas paredes uma, duas ou três ordens de gaiolas com passarinhos cantadores e chilreadores. Há ai o instinto musico da Bohemia.

Quem atravessa Pasmado pela primeira vez, tem a ilusão de que todas as arapongas da mata próxima estão ali a soltar seus estrídulos acentos. Mas logo vê homens tisnados batendo com o martelo sobre a bigorna, foles assopradores, carvões ardentes e flamejantes. Então a ilusão muda. O que parece é que todas as forjas de Vulcano foram transportadas para aquele imenso laboratório de instrumentos mais destruidores do que conservadores da vida e do sossego alheio.

Neste particular, o de ser largo e opulento mercado de armas malfazejas, talvez Pasmado só possa contar em todo o império brasileiro uma rival – a côrte do sobredito império, na qual a navalha do capoeira disputa a primazia, em gênero, numero e caso, á faca do matuto do norte. A côrte e a província neste ponto cortam-se bem. Uma não tem que falar da outra. No que Pasmado se parece com todos os velhos povos, é em ter casas esburacadas; entulhos e matos pelo meio das ruas; aqui uma baixa, ali um barreiro, onde, de inverno, coaxam os sapos dia e noite, respondendo á vozeria desentoada dos seus semelhantes que moram nas moitas formadas por dentro dos largos, sem licença nem proibição da municipalidade. A rua mais pública e principal da povoação é aquela por onde corre a própria estrada. Perto ficam os olhos-d’água nativa onde os moradores vão prover-se da de que precisam, quando não aparam, por sua comodidade, como costumam, em potes e gamelas a que cai das biqueiras da casa durante as chuvas. O certo é que, ou indo busca-la nas fontes ou aparando-a na porta da casa, não curtem sede os moradores de Pasmado dias e noites, ainda de verão, como curte a pobreza deste esplendida e orgulhosa cidade – primeira capital da América do Sul.

Em um rancho ou garapeira que se via algumas dezenas de passos antes da povoação, estavam reunidos, por uma noite de 1706, á roda de um fardo de fazendas, vários matutos que voltavam do Recife, onde tinham ido vender algodão. Entre eles havia dois almocreves das proximidades de Goiana, um por nome Francisco, o outro Victorino.

O rancho não era mais do que o prolongamento da garapeira, com a qual tinha comunicação interior. Era, como são tais pontos, apenas envarado até meia altura e coberto de telhas. De um lado estava a longa manjedoura em que os cavalos dos rancheiros passavam a noite aproveitando, de mistura com alguns pés de capim, cortados de tarde, os talos e retraços que nela tinham deixado os cavalos dos rancheiros na noite anterior. Do outro lado o alpendre mostrava-se inteiramente livre, como convinha, a fim de terem os hospedes espaço para as suas redes, que eles armavam de um enchamel para outro, e donde a qualquer hora da noite podiam ver os seus animais alguns passos de distância, comendo se havia o que, ou estudando como muitas vezes acontecia. O dono da garapeira, responsável pela segurança dos animais, fechava as portas do puxado quando via os rancheiros recolhidos, e só reaparecia ai de madrugadinha para receber destes a respectiva paga. Muitas vezes, estava ele ainda deitado quando ouvia uma voz que lhe dizia: - Aqui fica o dinheiro, seu Ignacio.

Era a voz do rancheiro, o qual punha por baixo da porta a quantia devida. Nunca nenhum se ausentou sem ter primeiro cumprido o seu dever, com a proverbial probidade do matuto e do sertanejo do norte.

No tocante ao traje, ver um dos matutos era o mesmo que ver os demais. Camisa por cima de ceroulas de algodão – eis em que ele consistia.

(continua...)

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