Por José de Alencar (1853)
Ambientado no Rio de Janeiro do século XIX, o texto apresenta a figura enigmática do ermitão da Glória, personagem que desperta curiosidade e reflexões sobre solidão, memória e costumes urbanos. A narrativa mistura observação social e tom reflexivo, revelando episódios do passado e hábitos da cidade. Com linguagem acessível e olhar atento, a obra transforma uma figura marginal em símbolo de um tempo e de seus valores.
I
AO CORSO
Cahia a tarde.
A borrasca, tangida pelo nordeste, desdobrava sobre o oceano o manto bronzeado.
Com a sombra, que projectavam os negros castellos de nuvens, carregava-se o torvo aspecto da costa.
As ilhas que bordam esse vasto seio de mar, entre a Ponta dos Búzios e Cabo Frio, confim diam-se com a terra firme, e pareciam apenas saliencias dos rochedos.
Nas aguas da ilha dos Papagaios balouçava-se um barco de borda rasa e um só mastro, tãocosido á terra, que o olhar do mais pratico marinheiro não o distinguiria a meia milha de distancia entre as íraguras do penedo e o farilhão dos abrolhos.
Pelas amuradas e convez do barco viam-se recostados ou estendidos de bruços, cerca de dez marujos, que passavam o tempo a galhofar, molhando a palavra em um garrafão de boa cachaça de S. Gonçalo, cada um quando chegava a sua vez.
No tilhá sobre alva esteira de côco estava sentada uma linda morena, de olhos e cabellos negros, com uma boca cheia de sorrisos e feitiços.
Tinha ao collo a bella cabeça de um rapaz, deitado sobre a esteira, n'uma posição indolente, e com os olhos cerrados, como adormecido.
De momento a momento, a rapariga debruçava-se para pousar um beijo em cheio nos lábios do moço, que entreabria as palpebras e recebia a caricia com um modo, que revelava quanto já se tinha saciado na ternura da meiga cachopa.
— Acorde, preguiçoso! dizia esta galanteando.
— Teus beijos embriagam, amor! Não o sabias ? respondeu o moço fechando os olhos.
N'esse instante um homem, que descêra a abrupta encosta do rochedo com extrema agilidade, atirou-se á ponta da verga, e travando de uma driça deixou-se escorregar até o convez.
O desconhecido, que assim chegava de modo tão singular, era já bem entrado em annos, pois tinha a cabeça branca e o rosto cosido de rugas; mas conservára a elasticidade e nervo da idade viril.
Com a arfagem que o movimento do velho imprimiu ao navio, sobresaltou-se toda a maruja; e o moço que estava deitado na esteira, ergueuse de golpe, como si o tocára occulta mola.
N'esse mancebo resoluto, de nobre e altivo parecer, que volvia em torno um olhar sobranceiro, ninguém por certo reconheceria o indolente rapaz que dormitava pouco antes no collo de uma mulher.
Na postura do moço não havia a menor sombra de temor nem de surpreza, mas sómente á investigação rapida e o arrojo de uma natureza ardente, pronta á affrontar o perigo em toda a occasião.
Do primeiro lanço viu o velho quie para elle caminhava:
— Então, Bruno?
— Ahi os temos, senhor Ayres de Lucena; é só fisgar-lhes os arpéos. Umá escuna de truz !
— Uma escuna!... Bravo, homem! E diz-me cá, são flamengos ou inglezes ?
— Pelo geito, tenho que são os malditos francezes.
— Melhor; os francezes passam por bravos, entre os mais, e cavalheiros! A termos de acabar, mais vale que seja a mãos honradas, meu velho.
A esse tempo já a maruja toda a postos esperava as ordens do capitão para manobrar.
Ayres voltou-se para a rapariga :
— Adeus, amor; talvez nunca mais nos avistemos n'este mundo. Fica certa porém que levo comigo duas horas de felicidade bebidas em teus olhos.
Cingindo o talhe da rapariga debulhada em lagrimas, deu-lhe um beijo, e despediu-a atandolhe ao braço uma fina cadeia de ouro, sua derradeira joia.
Instantes depois, uma canoinha de pescador afastava-se rapidamente em demanda da terra, impellida a remo pela rapariga.
Oe pé, no portaló, Ayres de Lucena, fazendo á maruja um gesto imperioso, commandou a manobra.
Repetidas as vozes do commando pelo velho Bruno, collocado no castello de prôa, e executada a manobra, as velas desdobraram-se pelo mastro e vergas, e o barco singrou veloz por entre os parceis.
ULTIMO PAREO
No anno de 1608 em que se passam estas scenas, a cidade de S. Sebastião do Rio de Janeiro, tinha apenas trinta e tres annos de existencia.
Devia de ser pois uma pequena cidade, decorada com esse pomposo nome desde o primeiro dia de sua fundação, por uma traça politica de Estacio de Sá, n'este ponto imitado pelos governadores do Estado do Brasil.
Aos sagazes políticos pareceu da maior conveniencia semear de cidades, e não de villas, e menos de aldeias, o mappa de um vasto continente despovoado, que figurava como um dos tres Estados da corôa de Sua Magestade Fidelissima.
Com esse plano não é de admirar que um renque de palhoças ás faldas do Pão de Assucar se chamasse desde logo cidade de S. Sebastião, e fosse dotada com toda a governança devida a essa jerarchia.
Em 1608 ainda a cidade se encolhia na crista e abas do Castello; mas quem avaliasse da sua importancia pela estreiteza da area occupada, não andaria bem avisado.
Estas cidades coloniaes, improvisadas em um momento, com uma
população adventicia, e alimentadas pela metropole no interesse da defeza das
terras conquistadas, tinham uma vida toda artificial.
(continua...)
ALENCAR, José de. Alfarrábios: O ermitão da Glória. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43220 . Acesso em: 30 jan. 2026.