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#Comédias#Literatura Brasileira

As Asas de um Anjo

Por José de Alencar (1860)

As Asas de um Anjo é um texto teatral em que José de Alencar aborda temas como moral, hipocrisia social e redenção. A obra acompanha o destino de uma jovem seduzida e marginalizada pela sociedade, expondo o contraste entre aparência e virtude. Com tom crítico e dramático, o autor provoca reflexão sobre os julgamentos sociais e os limites impostos às mulheres no século XIX.

Comédia

(prólogo, quatro atos, epílogo)

(Levada à cena em 1858, no Ginásio Dramático, Rio de Janeiro. Após algumas apresentações, esta peça foi proibida pela Polícia)

Personagens

Luís Viana

Ribeiro

Araújo

Pinheiro

Meneses

Antônio

José

Carolina

Margarida

Helena

Vieirinha

Uma menina

A cena é no Rio de Janeiro, e contemporânea.

PRÓLOGO

(Em casa de Antônio. Sala pobre)

CENA I

(Carolina, Margarida e Antônio)

(Carolina defronte a um espelho, deitando nos cabelos dois grandes laços de fita azul. Margarida cosendo junto à janela. Antônio sentado num mocho, pensativo)

Carolina – É quase noite!...

Margarida – Que fazes aí, Carolina? Já acabaste a tua obra?... Prometeste dá-la pronta hoje.

Carolina – Já vou, mãezinha; falta apenas tirar o alinhavo. Olhe! Não fico bonita com meus laços de fita azul?

Margarida – Tu és sempre bonita; mas realmente essas fitas nos cabelos dão-te uma graça!... Pereces um daqueles anjinhos de Nossa Senhora da Conceição.

Carolina – É o que disse o Luís, quando as trouxe da loja. Tínhamos ido na véspera à missa e ele viu lá um anjinho que tinha as asas tão azuis, cor do céu! Então lembrou-se de dar-me esses laços... Assentam-me tão bem, não é verdade?

Margarida – Sim; mas não sei para que te foste vestir e pentear a esta hora; já está escuro para chegares à janela.

Carolina – Foi para experimentar o meu vestido novo, mãezinha... Quis ver como hei de ficar quando formos domingo ao Passeio Público...

Margarida – Ora, ainda hoje é terça-feira.

Carolina – Que mal faz!

Margarida – Está bom, vai aprontar a obra; a moça não deve tardar. É verdade!

CENA II

Margarida e Antônio

Margarida – Não sei o que tem a nossa filha! Às vezes anda tão distraída...

Antônio – Quantos são hoje do mês, Margarida?

Margarida – Pois não sabes? Vinte e seis.

Antônio (contando pelos dedos) – Diabo! Ainda faltam quatro dias para acabar! Precisava receber uns cobres que tenho na mão do mestre e só no fim da semana... Que maçada!

Margarida – Não te agonies, homem! O dinheiro que deste ainda não se acabou; e hoje mesmo aquela moça deve vir buscar os vestidos que mandou fazer por Carolina.

Antônio – Quanto ela tem de dar?

Margarida – Três vestidos a cinco mil-réis... Faz a conta.

Antônio – Quinze mil-réis, não é?

Margarida – Quinze justos. Já vês que não nos faltará dinheiro; podes dormir descansado que amanhã terás o teu vinho ao almoço.

Antônio – Ora Deus! Quem te fala agora em vinho? Não é para ti, nem para mim,

que preciso de dinheiro. (Margarida acende a vela com fósforos)

Margarida – Para quem é então, homem?

Antônio – Para Carolina.

Margarida – Ah! Queres fazer-lhe um presente?

Antônio – Tens idéias! Não!... Sim!... (Rindo) É um presente que ela há de estimar.

Margarida – Não; sim... Explica-te, se queres que te entenda.

Antônio – Lá vai. Há muitos dias que ando para te falar nisto; mas gosto de negócio dito e feito. Estive a esperar o fim do mês pela razão que sabes, do dinheiro; e o fim do mês sem chegar. Enfim hoje, já que tocamos no ponto, vou contar-te tudo.

(Chega-se à porta da esquerda)

Carolina – Margarida está lá dentro; podes falar.

Antônio – Não reparaste ainda numa coisa?

Margarida – Em quê?

Antônio – Nos modos de Luís com a pequena. Como ele a trata.

Margarida – Quer dizer que Luís é um rapaz sisudo e trabalhador.

Antônio – Só?... Mais nada!

Margarida – Não sei que mais se possa ver em uma coisa tão natural.

Antônio . Escuta, Margarida, tu te lembras quando eu era aprendiz de marceneiro, e que te via em casa de teu pai, que Deus tenha em sua glória. Tu te lembras?

Também te tratava sério...

Margarida – Então pensas que Luís tem o mesmo motivo?...

Antônio – Penso; e eu cá sei o que penso.

Margarida – Descobriste alguma coisa?

Antônio – Oh! se descobri! um companheiro lá da tipografia muito seu amigo me contou que ele tinha uma paixão forte por uma moça que se chama Carolina.

Margarida – Ah! Anda espalhando!...

Antônio – Não estejas já a acusar o pobre rapaz; ele não disse a ninguém. Um dia no trabalho... Mas tu sabes como é o trabalho dele?

Margarida – Não; nunca vi.

Antônio – Nem eu; porém disseram que é fazer com umas letras de chumbo o mesmo que escreve o homem do jornal. Pois nesse dia, Luís que estava com o juízo cá na pequena, que havia de fazer?...

Margarida – O quê?

Antônio – Em vez do que estava escrito deitou Carolina, Carolina, Carolina... Uma folha cheia de Carolina, mulher! No dia seguinte a nossa filha andava com o jornal por essas ruas!

Margarida – Santa Maria! Que desgraça, Antônio!

Antônio – Espera, Margarida; ouve até o fim. Tem lá um homem, o contramestre da tipografia, que se chama revisor; assim que ele viu a nossa filha, quero dizer o nome, pôs as mãos na cabeça; houve um grande barulho; mas como o rapaz é bom trabalhador acomodou-se tudo. É daí que o companheiro soube e me disse.

Margarida – Psiu!... Aí vem ela.

Antônio – Melhor! Acaba-se com isto de uma vez.

Margarida – Não lhe fales assim de repente.

Antônio – Por quê? Gosto de negócio dito e feito.

Margarida Mas Antônio...

(continua...)

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