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#Comédias#Literatura Brasileira

Uma Pupila Rica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1840)

Uma Pupila Rica é um texto dramático que expõe, com ironia e crítica social, os conflitos entre amor, ambição e interesses financeiros no interior da família. Por meio de diálogos vivos e situações teatrais, a obra revela a condição frágil da órfã rica, cercada por disputas e convenções sociais, enquanto questiona a moral, o casamento por interesse e o poder do dinheiro nas relações humanas.

Ato lº

Sala de estudo e de trabalho de senhoras: duas portas ao fundo: ao lado direito uma porta ao fundo e janelas abrindo para o jardim: piano, harmônico ou harpa, músicas, mesa contendo frutas, papéis, álbum, estojos de desenho, bastidores ricos para bordados, grande espelho, mobília elegante e apropriada, ornamentos, quadros de trabalhos de seda e de flores, flores naturais e vasos.

Cena 1ª

Firmino e Teodora

Teodora Isso não... eu não posso deixar de convidar Estefânia: sei que o sobrinho tentou fazer ou mesmo fez a corte a Corina e sou capaz de jurar que a tia não foi estranha a isso; mas tua pupila repelia definitivamente a um, e eu te asseguro que hei de espantar a outra.

Firmino Todavia! conhecer-lhes as intenções e chamá-los para casa é o maior dos erros: bastam as visitas com que eles me importunam...

Teodora Queres que eu rompa minhas relações com Estefânia?... digo-te que não vale a pena lembrar a pretensão já anulada de Fortunato... sabes, se também devo ter cuidado...

Firmino Bem. (toma nota a lápis) Vá mais d. Estefânia e seu sobrinho Fortunato. (dobra o papel) Dezoito convidados: não passo além.

Teodora Por exceção valia a pena dar um baile: o filho do barão do Lago Azul se vaneceria do obséquio: asseguro-te que ele está cativo de Júlia.

Firmino Parece, mas começamos errando: embora Teófilo já tivesse uma vez encontrado Júlia em casa de tua irmã, devias quando esse mancebo te foi apresentado anteontem, limitar-te a oferecer-lhe a nossa amizade.

Teodora Foi isso que fiz, já te disse vinte vezes; conheces porém a cabecinha de nossa filha: apenas minha irmã fez-lhe o presente da boneca, propôs logo o batizado, declarou-se madrinha, e convidou para padrinho Teófilo que aceitou encantado. Que poderia eu dizer?...

Firmino Júlia está muito adiantada! convém abrir-lhe os olhos, ou pelo contrário aconselhá-la a não abrilos tanto...

Teodora Inocência de menina...

Firmino Inocência?... o batizado é pretexto para festa, e a boneca é chamariz de bonecas.

Teodora Ainda bem que o boneco é filho de fazendeiro riquíssimo.

Firmino Sim, o partido é ótimo: todavia ... tua irmã foi casada com um parente de Teófilo: foi ela quem deu a boneca a Júlia; a festa do tal batizado bem poderia ter sido determinada para sua casa... eu faria as despesas: depois convidaríamos Teófilo a jantar conosco...

Teodora Isso não tem senso comum, Firmino; minha irmã é uma pobre paralítica, e somos nós que temos interesse em atrair o filho do barão do Lago Azul.

Firmino E só por esta razão cedi, mas vê bem que as reuniões e saraus em nossa casa por ora não possa convir-nos: Corina já fez 15 anos, e apesar do retiro em que a temos, é patente o cerco que lhe fazem: depois do dr. André de Araújo, conto mais dois pretendentes ao seu dote.

Teodora Devias tê-la deixado presa no colégio até que ela se resolvesse.

Firmino No colégio até os quinze anos! Já estaria casada sem vontade própria, sem audiência minha, e sem licença do juiz dos órfãos.

Teodora E por causa de Corina há um ano que suspendemos os nossos saraus! É preciso acabar com isso!

Firmino Maldita ambição dos homens! Se Corina não tivesse seus duzentos contos de réis, nem pensaria na minha pupila. Poucos a têm, e ela tem mais pretendentes do que Júlia: eu até desconfio de Teófilo...

Teodora De quem a culpa? Desde alguns meses Corina podia estar casada com o meu Carlos, se não te obstinasses em querê-la para o filho da tua primeira mulher!

Firmino Recomeças, Teodora!...

Teodora Sempre me fizeste a vontade; agora, porém, queres sacrificar meu filho à memória e ao amor da tua defunta: é porque sou muito menos amada do que ela o foi.

Firmino Reflete, Teodora: teu primeiro marido foi rico, e na herança paterna Carlos possui bom princípio de fortuna, o meu Peregrino não herdou um real de sua mãe e assim...

Teodora Tenho eu culpa de que a tua defunta não tivesse onde cair morta? Há dezessete anos que o teu Peregrino gozou, não pouco, do que me deixou o pai de Carlos. Não basta?...

Firmino Neste assunto hei de resistir aos teus caprichos.

Teodora E ainda há pouco falavas na maldita ambição!... Que tutor modelo és tu, Firmino!...

Firmino Principias a ofender-me!...

Teodora Se me provocas!... Eu quero Corina casada com o meu Carlos!

Firmino Que inocente paixão por Corina!..

Teodora É como a tua... melhor do que a tua!

Firmino Corina é minha pupila! Sou eu que tenho direitos sobre ela.

Teodora Menos a de condená-la a ser desgraçada com teu filho, que só quer empolgar-lhe o dote...

Firmino Empolgar-lhe!... ah! mas se fosse Carlos... Teodora... isto não é decente... acabemos...

Cena 2ª

Firmino, Teodora e Suzana

Suzana Não é decente, não: (avançando) os criados podem ouvir!

Firmino Tia Suzana!

(continua...)

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