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#Romances#Literatura Brasileira

Os Dois Amores

Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)

Os Dois Amores, de Joaquim Manuel de Macedo, apresenta uma história marcada por sentimentos intensos, escolhas difíceis e conflitos do coração. A obra acompanha personagens divididos entre afetos distintos, revelando como o amor pode gerar dúvidas, sacrifícios e desencontros. Com linguagem envolvente e foco nas emoções humanas, o texto convida o leitor a refletir sobre paixões, expectativas e consequências das decisões afetivas.

CAPÍTULO I

O “CÉU COR-DE-ROSA”

NINGUÉM há na cidade do Rio de Janeiro, que não conheça perfeitamente o largo da Lapa do Desterro.

Sobretudo, ele se faz notável pelas missas, que de madrugada se dizem em seu pequeno convento; por suas belas festas do Espírito-Santo com seu império sempre cheio de oferendas, e seus grandes fogos de artifício; e enfim, pela multidão imensa de povo, e pelos carros, ônibus e gôndolas, que incessantemente por aí transitam, indo ou vindo desses bairros aristocráticos, que ficam além do cais da Glória.

E, como para compensar esse ruído constante e essa concorrência de que falamos, o largo da Lapa tem por vizinhas algumas ruas pequenas, mas bonitas, que se podem chamar solitárias em comparação dele.

No ano de 1846, porém, os habitantes de uma dessas ruas, de cujo nome agora não nos podemos ou não nos queremos lembrar, mas que será fácil conhecê-la pelo que dela diremos, começaram a notar que ela se ia tornando muito freqüentada a certas horas do dia.

De tarde, quando já o sol não incomodava e a sombra e o frescor convidavam as moças a chegar à janela, viam-se passar primeira e segunda vez pela rua de... numerosos mancebos, que trajavam com elegância e gosto, e que por seus modos e ademãs mostravam pertencer ao círculo feliz, que atualmente se conhece pelo nome do – bom-tom.

Deu isto muito que pensar aos sossegados habitantes da rua de.... até que finalmente certo dia um homem que ali morava, e que se chamava Jacó, apontando para uma casa, que ficava defronte da sua, disse em tom confidencial a alguns de seus vizinhos: – a causa é aquilo.

Também Jacó era a pessoa mais capaz de descobrir qualquer mistério. Pelo sim, pelo não, diremos já, em duas palavras, quem era ele.

Jacó tinha sido escrivão, e apenas há três anos havendo perdido o seu lugar por motivos que ele a ninguém dizia, mas que o fizeram viver na cadeia durante alguns meses, retirou-se do centro da cidade, onde habitava, e veio com sua mulher e uma escrava morar na rua de...

A casa de Jacó era térrea, e constava de uma porta e duas janelas de vidraça cobertas com cortinas brancas: a porta abria-se para um corredor ao lado direito do qual outra dava entrada para a sala.

Sem ter nada em que se ocupasse, Jacó vivia do fruto de seus antigos trabalhos, e sua mulher, para ajudá-lo nas despesas da casa, fazia um pequeno comércio de balas e confeitos, que a escrava vendia em um tabuleiro à porta do corredor.

Um homem baixo, um pouco gordo e um pouco calvo, com os cabelos que lhe restavam, já meio grisalhos, com olhos pequenos e vivos, tendo sempre no semblante uma alegria fingida, tomando rapé, e trajando constantemente um fraque roxo, abotoado até em cima, calças pretas, e botins de cordovão de lustro – era Jacó.

Uma mulher alta, gorda, com poucos cabelos, olhos pardos, rosto, e principalmente o nariz, que não era pequeno, muito vermelhos, com pés imensamente grandes, com voz fina, retumbante, e falando de contínuo – era a sra. Helena, a mulher de Jacó.

Este par vivia na mais estreita união, e tendo pouco ou nada em que cuidar, gastava o tempo em descobrir mistérios.

Jacó tinha o seu posto de dia, sentado junto de uma das janelas, e só o deixava se supunha conveniente seguir a alguém; dali ele observava e adivinhava tudo: seu olhar vivo penetrava no interior da casa alheia, e seu ouvido apurado ouvia, apesar das paredes, o que se falava na dos vizinhos; se saía, apanhava e lia o pequeno escrito, que desprezado rolava no chão; e de noite, escondido atrás da cortina da janela, devassava as ruas, e escutava o que diziam aqueles que passeavam conversando.

Helena ajudava excelentemente seu marido nesse inocente passatempo: ela conhecia os escravos de todas as casas, praticava com eles, e dava conta a seu esposo das questões domésticas, dos segredos e das mais miúdas circunstâncias da vida alheia: o papel em que vinha da venda embrulhado o açúcar, era lido e estudado; e durante a noite uma das cortinas das janelas pertencia aos cuidados de Helena.

A intriga, a maledicência e mesmo a calúnia alimentavam este homem e esta mulher, que se tinham encontrado no mundo tão iguais, tão dignos um do outro.

Não era pois acreditável que a causa dos passeios desses mancebos por aquela rua, dantes tão pouco freqüentada, escapasse a Jacó e sua mulher.

Um dia Jacó disse: – a causa é aquilo.

E aquilo era uma casa de bela aparência, que ficava defronte da dele: casa muito conhecida, mesmo muito amada pelos habitantes da rua de.... ou melhor pelos habitantes e freqüentadores do bairro da Lapa do Desterro.

(continua...)

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