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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Uma manhã, porém, Anselmo invadiu a sala particular do redator-chefe, com um número de O Paiz, onde Silva Jardim havia publicado um artigo, violento e injurioso, no qual Patrocínio era tratado de traidor.

— Já leste este artigo?

— Que artigo...?

— Do Silva Jardim.

— Quem é?

— Homem, falo sério.

— Que diz ele?

— Um pavor. E deves responder.

— O filho, tenho hoje tanto trabalho!.

— Mas queres deixar tais acusações de pé?

— Que acusações!? O homenzinho entende que sou um infame, deixemo-lo com a sua ilusão. Atualmente não me pertenço: José do Patrocínio não é um homem, é uma causa. A minha pessoa não vale a minha idéia. Que me insultem à vontade, orgulho-me disso. Olha que tenho dado assunto, hein?

— Então não respondes?

— Não. Vou escrever um artigo sobre o quilombo de Jabaguara.

Curvou-se, tomou a pena, mas, de repente, aprumando-se, rugiu:

— Não respondo! Insultem-me! Ameacem-me! Tenho o meu programa traçado e não será a pena romba desse merovíngio que me há de fazer abandonar o roteiro. Justamente quando se vem anunciando a grande aurora é que eles querem que eu, esquecendo e abandonando um trabalho quase concluído, vá cuidar de outro. Não faltava mais nada! República numa pátria escrava! Que rosne! Que vocifere, tenho mais que fazer. E sentou-se.

— Queres que eu diga alguma coisa? — Nada; nem uma palavra.

E, placidamente, continuou a escrever o artigo.

CAPÍTULO XXVI

Uma tarde, já Anselmo havia "encerrado o expediente" do jornal e passeava pela rua do Ouvidor, o seu jardim, admirando a "mancenilha humana" quando o servente da Cidade do Rio, que o procurava em todas as confeitarias, entregou-lhe uma carta do Neiva, com a nota de urgência. Abriu e leu, comovido, estas palavras rápidas e tristes: "O Lins está agonizando. Vem!" e o endereço do moribundo.

Anselmo ficou um momento hesitante. Talvez fosse pilhéria do incorrigível boêmio, mas... se fosse verdade? Desceu a rua e encontrou o Duarte que subia carregado de embrulhos.

— Sabes? O Lins está agonizante, disse-lhe ex-abrupto.

— Como?! Não é possível! Quem te disse?

— O Neiva. Escreveu-me. Está aqui a carta.

— Não creias, homem; é troça. Ainda anteontem estive com o Lins numa cervejada. Não creias.

— Que horas são?

O Duarte arrancou do bolso um monstruoso relógio de níquel e, consultou-o, dizendo:

— Cinco mil e quinhentos. — Heim?

— Cinco mil e quinhentos.

— Que história é essa?

— É simples. Este relógio custou-me doze mil réis, a mil réis por hora, assim eu, em vez de dizer, como toda a gente: São quatro, são duas horas, dou o preço correspondente ao tempo, que é dinheiro, como sabes. Em vulgacho são cinco e meia.

— Pois eu vou à casa do Lins. Pode ser verdadeira a comunicação do Neiva e não quero ficar com um remorso eterno. Queres vir comigo?

— Não posso, tenho uma irmã que faz anos hoje. Não vês como vou aqui carregado? Em todo o caso, se houver alguma coisa, manda-me um recado ao largo dos Leões, onde vivo, atualmente, como Daniel. — Então, adeus!

Apartaram-se. Anselmo desceu a rua para tomar o bonde que o devia deixar à porta da casa do Lias, à rua Senador Pompeu. Era uma casa assobradada, bateu. Uma mocinha veio recebê-lo e, tanto que o viu, posto que não o conhecesse, acenou convidando-o a entrar e perguntou com uma vozinha branda:

— O senhor vem ver meu primo?

— Sim, senhora. — Entre.

Levou-o pelo corredor sombrio. Na sala de jantar já o gás estava aceso. Havia gente conversando surdamente em torno da mesa redonda alegrada por um vaso de flores. Burburinhou um sussurro de vozes e Anselmo, sempre guiado pela mocinha, passou a outro corredor, entrando em um quarto, cuja porta ela abrira conservando-se fora.

Numa cama de ferro, ao fundo do quarto triste, sem móveis, iluminado por um bico de gás, agonizava, anquilosado, o poeta paraibano. As mãos cruzadas sobre o peito magro, as faces cavadas os olhos fundos, movendo-se sinistramente, eles apenas, em toda a imobilidade rígida daquele corpo, como se fossem os primeiros vermes que se houvessem alojado nas órbitas e andassem a roer em silêncio. O resto de vida refugiara-se-lhe nas pupilas negras, último reduto da alma, de sorte que eram os olhos que falavam, que sorriam, que perguntavam, que respondiam, que vertiam lágrimas dizendo adeus para o sempre, despedindo-se pelo coração que batia ainda, lentamente, flébil.

Agonizava quando Anselmo entrou e o Neiva, soluçando, com a vela na mão, tomou-lhe o braço, puxou-o para o peito de modo que ele pudesse empunhar o círio alumiador da última hora.

Vendo Anselmo fez um gesto desanimado, trincando os lábios e, mostrando, com um olhar, o companheiro que acabava. Fora houve um surdo rumor de passos, gente chegava à porta como para ouvir o sarrido da dispnéia e o soluço final do que atravessara a vida atordoando a agonia com o estrépito das gargalhadas. Num derradeiro esforço o moribundo volveu os olhos para Anselmo, parando-os, fitos nele. Veio um resto de luz à tona, mas foi, aos poucos, minguando, minguando até que as pálpebras caíram como duas tampas de esquife.

(continua...)

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