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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Numa tinha por ele o respeito do “sheik” pelo sultão; uma mescla de terror físico e assombro religioso. Nada avançava na sua presença que não soubesse ser de sua opinião; nada dizia na sua ausência que não fosse um quente elogio ao bei.

— O Sofônias é um chefe! Ele sabe manobrar e comandar! Depois, é de uma lealdade...

Como Numa, afora alguns recalcitrantes, que se apoiavam na força transitória do Presidente, todos eram assim no temor àquele emir, aquele kã legislativo.

Vimo-lo passar com o seu passo demorado, numa lentidão vagarosa de monarca em seu palácio, mas a sua solenidade tinha alguma coisa de manequim, era dura, era procurada, como se não estivesse habituado a ela.

O cigarro de palha vinha-lhe meio apagado no canto dos lábios e ele olhava sem expressão a tudo aquilo, com aquele seu olhar sem brilho que parecia ser falso, emprestado.

No seu porte, não havia coisa alguma de dominação. Era vulgar de fisionomia, empastada, sem expressão, rígida; mas apurara-se no vestuário, usando a roupa muito colada ao busto, que parecia modelado num espartilho.

Aproximou-se acompanhado de Quitério, cuja gagueira dava às suas palavras lisonjeiras a lentidão das baforadas de incenso queimado ao turíbulo. Numa chegou-se ao califa e cumprimentou-o longamente.

— Menino, obrigado — disse com ênfase Sofônias. - Essas coisas agradam muito. Nós, homens da nação, que vivemos “encangados” no respeito às leis e aos princípios republicanos, só temos esses momentos para nos vingar dos nossos inimigos — “embolamo-nos”!

Falava sempre com metáforas e termos de criador e de matadouro.

A sua mulher chegara e o grande senador perguntou com aquela voz em que os “aa” eram demorados e muito abertos:

— Filha, não falta nada?

— Nada, Sofo.

— Quero que os amigos saiam satisfeitos. O “potreiro” deve ser bom para todos.

Aos poucos, ele se viu cercado e todos tinham vontade de mais humilde se mostrarem. O gordo Pieterzoon era o único que falava com desembaraço. O prestígio de sua real inteligência sobre o chefe dava-lhe esse direito; mas os outros, o Brochado, o Sarmento Heltz e até o general Tupinambá só tinham um desejo:

rojarem-se aos pés daquela espécie de monarca oriental sem califato nem kanato.

Dentre todos, aquele que dava maiores demonstrações de admiração e respeito a Sofônias era Brochado, não só porque era o mais falso, como queria apagar no espírito do grande chefe as picardias que lhe tinha feito.

Tratavam dos últimos acontecimentos políticos. O caso em questão era a formação de um novo Estado com territórios adjudicados por um recente tratado. O projeto era inofensivo, mas Sofônias queria aproveitá-lo para fazer uma demonstração e força ao governo. O procedimento do Presidente não lhe agradava; Simplício parecia não lhe querer obedecer e Sofônias temia que a sucessão presidencial lhe fosse desfavorável. Até agora, não se havia declarado francamente, mas empenhava os seus esclarecedores: os jornais e aqueles dos seus deputados que simulavam independência de pensamento. A imprensa do governo, conhecendo perfeitamente o jogo, não se animava a atacá-lo e a da oposição ajudava.

Alguém, no momento, referiu-se ao discurso terrível que, contra o formidável Sofônias, pronunciara o Albuquerque.

Costale, deputado, adiantou mesureiro:

— Frases! Frases! Retórica e mais nada!

Esse Costale, Raimundo Costale, tinha a mania do americano, do “yankee”, e a de que estava destinado a promover o soerguimento da agricultura no Brasil. A mania de “yankee” viera-lhe do gosto de raspar o bigode, moda muito pouco americana, e de ter passado uns meses nos Estados Unidos; e a de salvador da agricultura não se sabia bem donde vinha. É verdade que tinha uma fazenda, como toda gente, mas fazenda de recreio que não lhe dava lá grandes lucros, nem mesmo os comuns.

De fato era rico, mas dos rendimentos das fábricas de tecido que tinha e montara com o produto do caucionamento de títulos sem valor a um banco do Estado.

Foi, portanto, com o desprezo mais “yankee” que pronunciou:

— Frases! Frases! Retórica e mais nada!

Pieterzoon, um grande e grosso homem, gigantesco e desarticulado, holandês de origem, objetou:

— Não há de ser assim, dizendo frases, que vocês hão de desfazer a impressão que ele fez na opinião.

— Ora, a opinião! — comentou Numa. — A opinião somos nós que sabemos por que o Sales é a favor...

Ao que Brochado retrucou:

— Eu não tenho grande conta da opinião, quando sou governo. O povo se fabrica e quando não se fabrica, há chanfalho, bala e pata de cavalo; mas, quando não se está no poder, é preciso cativá-lo.

Sofônias ouvia um e outro com olhar distraído, aquele olhar torvo de agonizante, onde havia uma única e mortiça luz. Por fim, tirou uma fumaça, e disse:

(continua...)

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