Por Coelho Neto (1890)
— É isto! Tenho um guarda-chuva que é um tapa-misérias. Nem sei em que prego está... E, se via um dos rapazes, ia imediatamente perguntando: Foste tu que penduraste o althéa?
— Não.
— Quem foi?
— Não sei.
— Nem sabes em que casa está?
— Não. E bem necessitado ando eu dele.
— E eu! Vou tirá-lo amanhã.
— Olha, se o tirares e se não chover, empresta-mo porque estou precisado de uma gravata.
— Pois sim. E lá ia o Montezuma encharcado, à procura do homem que havia empenhado o guarda-chuva providencial.
Estimado por todo o grupo o velho boêmio, que era incapaz de negar auxilio a quem o procurava, só era avaro das relações femininas. Se alguém se aproximava "das honestas senhoras", que ele ocultamente protegia, abespinhava-se, declamando grandes moralidades e saía furioso, com desabalados gestos: "Que não havia respeito! Pessoas de tão reputada virtude não mereciam a menor consideração."
Como uma personagem de lenda Montezuma andava quase sempre a tinir. Um dia, porém, irrompia a notícia de que havia comprado carruagem e parelhas caras e, efetivamente, à tarde, gente acudia à rua Gonçalves Dias para ver o homem tomar o landau e bater para Botafogo com muitos embrulhos e vários pince-nez no nariz. Dias depois reaparecia com o althéa, murcho, contando que vendera a equipagem e que viera a pé da praia de Botafogo ao Catete, para pedir a um velho amigo dez tostões para o bonde.
Nesse tempo, porém, andava ele em boas relações com a Fortuna: a sua carteira mal fechava, engorgitada de cédulas e ele sabia de cor o número das apólices que possuía.
Vendo os rapazes aproximou-se e, logo de longe, como Anselmo afastasse uma cadeira, declarou que não se queria sentar. Andavam pessoas acompanhandolhe os passos e tudo quanto fazia era sabido em casa, de sorte que vivia em constante guerra civil. Era forçado a retrair-se para que não se desse com ele o caso de... fulano, que tanto alvoroçara Montevidéu em mil oitocentos e tantos. E, para contar o caso, sentou-se, pediu um vermute e esqueceu-se da guerra civil, pondo-se a falar do imperador com irreverência:
"Que era um velho mentecapto que vivia a quebrar versos e a espiar os astros para fingir de poeta e de sábio. Neto de Marco Aurélio... Neto de D. João VI, o suíno, isso sim." Profetizou a abolição com energia: "Ou vem ou escangalhamos essa caranguejola em dois tempos. A América deve ser livre. Olheim para as Repúblicas do Prata, vejam como nadam em prosperidade, sem precisar de escravos para as suas culturas. Isto é uma vergonha! Confesso que, às vezes, tenho pejo de dizer que sou brasileiro. Pois havemos de viver sempre no último plano, e por quê? Porque temos um rei de burla. Está enganado: ou acaba com a escravidão, realizando a vontade do povo, ou vai passear; não precisamos de figura de proa na nau do Estado. Sou republicano, não de hoje. Já na escola de marinha escrevia manifestos republicanos. Posso lá com isso! Sinto não ter fortuna, senão... ah..." Mas apareceu à porta uma das "senhoras virtuosíssimas", acenou com o leque a Montezuma e o velho, muito comovido, pondo mais um pince-nez no bico, despediuse para receber dignamente a dama "viúva de um ilustre comodoro".
O grande acontecimento dessa época foi, sem dúvida alguma, o estabelecimento da cozinha na Cidade do Rio. Atendendo às queixas dos redatores, que viviam lívidos e magros, mal nutridos no sóbrio Quinhentão, Patrocínio resolveu realizar um dos seus ideais que era ter a mesa das refeições ao lado das mesas de trabalho, de modo que os seus prestimosos auxiliares, mal pingassem o ponto final no artigo, subissem a curta escada que levava à sala dos repastos, quente como uma fornalha e sem luz.
A mesa era vasta e ocupava toda a sala. Um cozinheiro, mestre perito em adubos, homem de alto poder inventivo em matéria de iguarias, tomou conta do fogão e, nas suas vestes rituais, amplo avental e o competente boné, apareceu, num radioso dia de março, tresandando à cachaça e bambo. Foi justamente no dia em que se inaugurou, com urras! e um peru de forno, a prestimosa inovação.
Anselmo quis escrever um estirado artigo, muito burilado, proclamando a generosidade do redator-chefe, vários poetas rimaram sonetos, a alma lírica expandiu-se largamente com o aroma sedutor dos refogados. Nessa apetitosa manhã a inspiração nobre não surgiu do cérebro, mas da cozinha que perfumava toda a casa.
Ao meio-dia, descendo o último original, Patrocínio, muito grave, recebendo os representantes dos jornais, convidou-os para o primeiro almoço.
Passaram todos à sala que havia sido ornamentada vistosamente e as cadeiras foram todas ocupadas. No centro da mesa uma dourada maionese rutilava. Era um prato digno do triclínio de Apício, não só pela beleza com que o mestre o dotou, mas pelo cheiro que dele se desprendia, que era de pôr em risco de pecado o mais abstinente monge da Tebaida.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.