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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Espera, homem... A ascensão, bem? E foi levantando as mãos e batendo o espaço com elas como se fossem duas asas. Rápido, jogou o braço e, inclinado, surdamente, explicou: Depois, ganhando a linha desimpedida, a vasta e livre estrada aérea, voando, voando, voando, vendo a terra como um nevoeiro, como a viu Menippo, o mar como uma mancha lúcida, depois as brumas inferiores, brumas, brumas, brumas e nós, como deuses, navegando em nuvens, numa celeridade vertiginosa, fazendo versos ao grande vácuo, falando onde só os trovões atroam, rindo onde só riem as madrugadas e orvalhando a terra vil com champanhe... Heim? Que dizem vocês? E quando chegarmos a Paris, diante do mundo pasmado e ouvirmos, nos Campos Elíseos, as aclamações do povo magnífico da cidade por excelência... Vocês não pensam nisso? Que diabo! Vocês não têm sangue! Não têm nervos...!

— É belo, não há dúvida, disse Fortúnio, mas receio que nos aconteça o mesmo que aconteceu a Faetonte.

— Qual Faetonte! Faetonte era uma besta! Você então não toma a sério a minha idéia?

— Como não tomo?

— E se visses o balão não entravas nele?

— Conforme: amarrado e com garantia de vida.

— Pois eu vou. Vou e vocês hão de ficar aqui de boca aberta, torcendo-se de inveja. Faço a volta do mundo em uma semana e depois...

— Depois...?

— Depois, descanso. Tenho a minha obra. Achas pouco a conquista do espaço?

— Eu não acho pouco: acho muitíssimo!

— Então por que ris?

— Não estou rindo.

— Watt também passou por louco.

— Mas ninguém te julga louco.

— Nem eu admito. Afirmo que resolvi o problema e, dentro em breve, vocês terão a prova. Um dia, acordando, hão de vocês ver um pontozinho fugindo no espaço, fugindo, fugindo e, quando perguntarem, aterrados, à gente do observatório: "Que meteoro é aquele que vai pelos ares fora vertiginosamente?" ouvirão dos sábios as palavras solenes: "É o Patrocínio que está passeando em balão. Vai jantar no Cáucaso." E então... rira bien qui rira le dernier. E com esta, meus amigos, até logo. Tenho hoje uma conferência no Club Tiradentes. E saiu justamente quando entrava Montezuma, o velho, o amável Montezuma, o grande historiador do Rio da Prata, portador do althéa providencial.

CAPÍTULO XXV

Montezuma, oficial de marinha reformado, apesar dos cabelos brancos e da feição venerável de patriarca, conservava no coração todo o viço dos vinte anos. Alma que se não regelava, longe de agregar-se às neves da ancianidade, chegandose aos homens do seu tempo, que andavam curvados, entristecidos, à espera do vencimento da letra da vida, buscava a companhia dos rapazes, vivendo nela muito à vontade e com estos nada inferiores aos do mais ardente boêmio.

Como o Timon de Luciano andara com Pluto e com a Miséria, sendo íntimo de ambos: esbanjara milhões e tivera dias sem lume, longe da pátria, em terras sopradas pelo minuano.

A história da sua vida, narrada miudamente, daria um copioso romance de aventuras, qual mais extraordinária, umas felizes, outras desastrosas. Vogara nas águas do Sul governando um navio carregado de gêneros e outro transformado em hospital, que ardeu sobre as águas paraguaias quando os nossos guerreiros desafrontavam a bandeira que os guaranis de Lopez ousadamente ultrajaram. Foi ele quem, a 11 de Junho, tendo a notícia da vitória do Riachuelo, saiu a anunciar o feito pelas terras do Prata, transmitindo a nova ao Brasil com abundância de hipérboles. Íntimo de todos os grandes homens das Repúblicas do Sul, falava dos ditadores como de companheiros de noitadas. Empenhara capitais em revoluções, comprometera-se em golpes de Estado e, depois de haver dissipado milhões, vivia das suas glórias, não como o misantropo de Atenas, encolhido e bilioso, mas sonhando com empresas complicadas, sempre a somar milhares.

Homem de casos análogos e de sátiras, tinha sempre uma anedota a propósito e um comentário cáustico para todos os acontecimentos políticos.

A mulher era a sua intemperança e raro era encontrá-lo sem "uma senhora virtuosíssima, esposa, viúva ou filha de um amigo do Rio da Prata".

Com essas Penélopes Montezuma aparecia no Pascoal e gastava largamente, não em linho para que fiassem honestamente, mas em sedas, em carros, em champanhe.

Muito amigo dos rapazes, além de outras virtudes, possuía um talismã inestimável: o althéa. Era um guarda-chuva de cabo branco que, nos momentos precários, passava das mãos do seu dono para o prego. Às vezes entretido em grupos políticos, Montezuma discutia, com azedume, questões financeiras quando sentia que lhe puxavam o guarda-chuva. Era algum dos boêmios.

— Estás com fraqueza pulmonar? Queres o chazinho de althéa? E, rindo, lá o entregava e o rapaz corria ao Hoffmann que, por conhecer intimamente o "objeto", dava os cinco mil réis, que era tudo quanto conseguia arrancar o precioso talismã. Quantas e quantas vezes, sob aguaceiros torrenciais, Montezuma, encolhido em algum vão de porta, lamentava o seu guarda-chuva:

(continua...)

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