Por Lima Barreto (1911)
Sobre uma tela de cinco metros sobre dois e meio de altura, mandei que ele pintasse as coisas mais desencontradas desse mundo. No primeiro plano, pus um “embrulho” de palavra ilegível que mais pareciam caravelas; o mar parecia de um azul tão carregado que tendia para o negro; ao alto pus numa grande desordem a Torre Eifel, a Vênus de Milo, um trem de ferro, um prelo de imprimir, etc. O céu fiz vermelho como se estivesse pegando fogo. Enquadrei coisa tão doida em uma moldura durada e anunciei a minha exposição.
Nas vésperas, por meio de uma “interview” tive o cuidado de explicar a teoria do meu quadro. Afastava-me, dizia eu, das modernas regras de perspectiva, para dar a impressão e antigüidade; a batalha era simplesmente delineada, no intuito de não se obter, com a sobrecarga de detalhes, uma diminuição do símbolo, transformando-a em uma grosseria fotográfica, etc.
Convidei todas as altas autoridades e com quem mais instei que viesse foi com o Bonifácio. era nele que eu depositava toda a minha esperança.
No dia marcado, muito solene e convencido, dentro de uma enorme sobrecasaca, lá estava eu à espera das autoridades.
Não tardaram a chegar e, entre Bonifácio e o Presidente, dirigi-me para o salão em que o quadro estava exposto. Logo que o viu, Bonifácio exclamou:
— É maravilhoso!
O Presidente confirmou:
— É extraordinário!
O Ministro do Interior alongou-se mais:
— É de uma originalidade flagrante.
O Ministro das Belas Artes que até aí se mostrava reservado, não se conteve:
— É uma obra prima!
Os outros convidados não oficiais vieram chegando e, vendo o entusiasmo do grupo “executivo”, abundaram nas mesmas considerações.
A Viscondessa de Cinco Pontes veio cumprimentar-me e disse-me:
— Pode o senhor ficar certo que pintou o quadro mais original do nosso século.
Não ficaram aí os cumprimentos e elogios, que foram muitos, mas da maioria dos quais não me recordo mais.
Naquele dia, o sucesso foi absoluto e, nos que se seguiram, não diminuiu muito. Os jornais, em geral, me fizeram elogios, senão rasgados, ao menos gabaram a minha concepção ousada, fazendo restrições sobre a minha técnica; O meu antigo contendor passou-me um deboche em regra, mas a sua opinião não pesou, como não pesaram as dos pequenos jornais e revistas em que fui debochado a valer.
Em resumo: o julgamento de Bonifácio foi vitorioso e a minha extravagante borra teve as honras de obra-prima.
Foram tais os elogios que eu mesmo me convenci de que era um grande pintor e tinha uma vocação perfeitamente “vinceana” que até então não tinha sabido aproveitar.
Tratei de agradecer às pessoa eminentes a honra que me tinham dado e comecei pelo Bonifácio.
— Oh, caro Bogoloff — disse-me ele quando me viu - você tem todas as habilidades. O Presidente gostou muito de seu quadro, achou-o original, e falou mesmo em adquiri-lo para a Pinacoteca Nacional. Você quanto quer por ele?
Pensei um instante e respondi com modéstia:
— Quero dez contos.
— Peça vinte, homem. — Vai lá.
E daí a dias tinha eu vendido por tal quantia a minha maravilhosa extravagância ao Estado, para ensinamento e edificação dos pósteros.
CAPÍTULO IV
FUI UM MOMENTO SHERLOCK HOLMES
(A primeira lauda dos manuscritos deste capítulo não foi localizada)
Graças a ele, vim a conhecer muita coisa dos bastidores da política e tive ocasião de incomodá-lo em pequenos obséquios. Após ter pintado a batalha da Salamina, cujo sucesso excedeu à minha expectativa, resolvi descansar e gastar com parcimônia o dinheiro que o quadro me rendera. Vivi retirado muitos meses e pouco apareci nos lugares públicos e quase nenhuma visita fiz.
Aluguei nos arredores da cidade uma chácara e lá passei o dia a plantar couves.
Certo dia, estando deveras aborrecido, tomei a resolução de vir até a cidade.
Desembarquei cedo e como tivesse fome, procurei um restaurante.
Ao entrar, encontrei já sentado à mesa o deputado Numa que me chamou para junto de si. Antes de mais nada, ele me perguntou:
— Não vais à manifestação de Sofônias?
— Quando é? — Amanhã.
Disse-lhe que não; Numa, porém, insistiu, expondo curiosas doutrinas com abundância de fatos concretos, doutrinas que eu resumo aqui para edificação dos jovens que se destinam à carreira política. Mais ou menos, ele me disse, as belezas que se seguem.
Essas presenças, essas atenções, enfim, este ritual de salamaleques e falsas demonstrações de amizade influía no progresso da vida. Como havíamos de subir, ou, pelo menos, de manter a posição conquistada, se não fossemos sempre às missas de sétimo dia dos parentes dos chefes, se não lhes mandássemos cartões nos dias de aniversário, se não estivéssemos presentes aos embarques e desembarques dos figurões?
Um bota fora, às vezes, decidia uma eleição. Vejam só o que aconteceu com o Batista. Estava nas boas graças do Carneiro, mas, no dia do embarque deste para Pernambuco, deixou de ir. Carneiro notou e, quando o Bandeira quis incluí-lo de novo na chapa, opôs-se tenazmente.
Os chefes não admitem independência, nem mesmo nos embarques.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.