Por Coelho Neto (1890)
— Pois meu amigo, acho que fazes mal.
— Pode ser.
— Queira Deus que te não arrependas.
— Não me hei de arrepender.
— Veremos.
— Pois sim.
— Bem, vamos sair. O hotel começa a tornar-se insuportável.
— Para onde vais?
— Para a Cidade do Rio.
— Estás outra vez com o Patrocínio?
— Como secretário da folha.
— Então, até logo. Vou retocar umas páginas. Adeus. — Adeus, Ruy Vaz
CAPÍTULO XXIV
A Cidade do Rio tornou-se "o estuário do gênio indígena" como bramia o Neiva atirando bengaladas ferozes às mesas dos cafés.
Para o órgão da propaganda abolicionista afluía a flor da inspiração. Luiz Moraes era assíduo, ora entrava levando uns formidáveis alexandrinos, que ressoavam tonitruosamente como carros de guerra; ora, a pedido do Patrocínio, sentava-se a uma das mesas e escrevia o artigo de fundo, com mais imagens do que uma igreja, reclamando, em nome do coração e em nome da Justiça e... de Spencer, a liberdade dos que sofriam. Octavio Bivar, ou mandava uma das suas poesias finamente buriladas ou, com a pena incandescida, rendilhava sátiras. Pardal, sempre irônico, enchia tiras e tiras com os seus paradoxos ou bradava por sangue e fígados com a mesma calma com que, no Londres, à tarde, pedia o seu absinto. Fortúnio, Duarte, o próprio Ruy Vaz, sempre atarefado, parando um instante, escrevia algumas linhas rápidas sobre a questão palpitante ou sobre um livro que aparecia, aproveitando o ensejo para expor a sua estética, defendendo o naturalismo.
A Vida Moderna, apesar das grandes esperanças dos seus redatores, desaparecera da circulação e a "alma literária", como dizia o Luiz, andava errante, esvoaçando estonteada pelo sarçal do jornalismo mercenário como a ave que perdeu o ninho, piando aqui uma elegia, chilreando além um ditirambo, sem abrigo certo, peregrina e dorida.
Patrocínio, sempre sonhando, depois de pronto o jornal, procurava os rapazes à hora do vermute e, arrebatado, expunha os seus planos maravilhosos:
— Rapazes, vamos fazer a Cidade do Rio. Aquilo não é meu, é nosso... e é uma mina! Aquele jornal é uma mina! Tudo está em saber explorá-lo. Que diabo! Não basta ter talento, é preciso também um pouco de senso prático. Andam vocês numa vida de eterna contingência: Um, não tem sapatos, como o Fortúnio que, há dias, recordava, com saudade, o tempo em que descia as escadas a correr sem receio de que as solas lhe ficassem nos degraus, porque não eram cosidas com barbante, como agora. Outro, Bivar, anda com um chapéu de palha que parece uma cesta de compras. Anselmo apareceu-me com umas calças cor de telha que quando ele as tirava, ficavam de pé no meio do quarto como se fossem de barro. Entanto, se vocês quisessem trabalhar comigo, em um ano... em um ano não digo, mas em dois, levantávamos uma fortuna e abalávamos para Paris. Ali, ali sim! Ali poderiam vocês cultivar a grande Arte. Paris é uma cidade, não é esta choldra onde a gente, aos vinte anos, tem a cabeça branca e aos trinta é ruína, a cair. Começo a sentir-me cansado, já não sou o mesmo homem. Há ocasiões em que fico debruçado à mesa, com a pena sobre o papel, a rabiscar, a rabiscar, e nada de sair o artigo...
— Ah! Mas quando sai, exclamou o Moraes bambaleando-se, quando sai é... como o corpo de bombeiros.
Houve uma gargalhada estrepitosa, porque o Moraes, juntando o gesto às palavras, derrubou copos, garrafas e teria estourado um sifão se Ruy Vaz não acudisse ligeiro.
Foi em uma dessas palestras que Patrocínio revelou o seu grande segredo:
"Tinha resolvido o problema da direção dos balões."
— Já sei que vocês vão sair daqui comentando as minhas palavras com pilhéria. Pois meus amigos, é a verdade: tenho o segredo de Dédalo.
— As asas de cera.
— Perdão, não ria. Falo sério e vocês não têm o direito de duvidar da minha palavra, porque ainda não dei provas de loucura ou de imbecilidade. — Então vai tudo agora pelos ares?
Patrocínio não respondeu a Anselmo e continuou:
— Tenho estudado a questão com empenho e posso exclamar: Eureka! Trabalho lentamente, porque aqui no Rio de Janeiro não há um fundidor que execute um molde perfeito. Dá-se-lhe um desenho e o bruto faz coisa inteiramente diversa. E a gente que se lembre de protestar. Vocês sorriem? Pois sim... Eu hei de rir lá de cima quando, depois do meu banho frio e de um cálice de conhaque, sair daqui no meu balão, às seis da manhã, para almoçar, às onze, em Lisboa.
O sonho empolgou-o e o intrépido propagandista, o destemido tribuno, o polemista audaz pôs-se a falar com enternecimento, inclinando-se para que as suas palavras não saíssem do círculo dos amigos que, impressionados, já não sorriam, ouvindo, com enlevo, a narração maravilhosa do grande homem:
— Imaginem vocês a coisa nos ares, nós todos na barquinha, porque havemos de ir todos...
— Só se for uma das barcas Ferry, adiantou Fortúnio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.