Por Coelho Neto (1890)
— Pois quem come em alfurja como esta deve sempre ter um médico à cabeceira.
Anselmo sentou-se e, almoçando, expôs a Ruy Vaz o plano de um romance que tencionava publicar na Cidade do Rio: O Rei Fantasma, cuja ação se desenvolvia num reino imaginário da África.
— Por que não deixas essa mania de orientalismo, homem?
— Gosto.
— Ora, gostas... Trata de aplicar o teu espírito ao meio. Podes fazer obra magnífica sem sair da tua terra. Tens natureza, tens almas, que mais queres? Preferes lidar com títeres a lidar com homens. Nunca farás um livro verdadeiro, sentido, farás sempre obra convencional. Deixa em paz os deuses gregos e as odaliscas turcas, não te preocupes com os templos da Hélade nem com os minaretes de Stambul: põe-te em relação com a natureza da tua pátria. Tens um campo vasto de explorações — desde o sertão, quase virgem, até a rua do Ouvidor, que é o círculo central das almas brasileiras. Deixa-te de Oriente.
— Mas o romance está quase pronto.
— Pois publica-o. Mas fica nesse, não escrevas outros.
— E os contos?
— Também os contos. Queres assuntos deliciosos para contos admiráveis? Estuda o povo. A alma moderna é mais sofredora do que a antiga e a Dor é um manancial inesgotável. Deixa-te de ninfas e de faunos, trabalha com homens. Queres saber a razão por que muitos escritores preferem o orientalismo? Porque é mais fácil fazer a pompa do que a verdade: são como o discípulo de Apelles. Manda à fava essa mania e trata de fazer obra sentida.
Anselmo começava a irritar-se com essa observação que lhe soava aos ouvidos com a insistência de um remorso. Diziam-lhe todos a mesma coisa. Protestou:
— Que diabo! Vocês falam tanto contra a mania do orientalismo e admiram Salammbô.
— Perdão, Salammbô não é apenas uma obra de ficção: aquela tela deslumbrante é feita com verdadeiros fios de ouro. Há ali, a par do quadro histórico de uma civilização, um largo estudo de caracteres. Salammbô tem alma. Hamilcar vive, Spendius é uma figura palpitante e o povo de bárbaros, assim como a gente púnica, não é um ajuntamento de títeres. Há naquela obra lapidária uma alma forte que vitaliza os tipos. Ainda assim, apesar de mestre Flauberv haver trabalhado aquele mármore africano com o mesmo escrúpulo com que Fídias burilava as suas figuras imortais, prefiro à grandeza deslumbrante do rútilo poema a simplicidade de Mme. Bovary. Lança os olhos à obra de Balzac. Tudo nela é humano, desde Eugenie Grandet e o Pêre Goriot até o Le lys dans la vallée. Tu mesmo, no dia em que começares a lidar com almas, hás de convencer-te da verdade. Vê a obra do que copia uma academia como se amesquinha diante de um estudo do natural. Posso falar-te assim porque conheço ambos os processos, sei quanto custa transportar para o livro uma alma surpreendida na grande vida e quanto é fácil fazer obra maravilhosa. Experimenta.
— E tu, por que escreves páginas de ficção?
— Por desfastio. Tenho uma válvula de expansão de sonhos.
— Pois é o que se dá comigo. A minha faculdade essencial é a imaginação. Vivo a sonhar, as idéias pululam no meu cérebro e sinto que são as sementes antigas que se fazem floresta. Comecei a estudar em livros orientais. Foram as Mil e uma noites a obra que mais funda impressão deixou em meu espírito quando se ia formando, depois as histórias que me contavam nos serões tranqüilos e, finalmente, as leituras. Eu procurava, de preferência nos poetas, as descrições da vida levantina — em Byron o D. João, A noiva de Abydos, o Giaour; em Gautier o seu grande mundo fantástico; em Flaubert Salammbô e assim sucessivamente. A minha imaginação, assim fecundada, foi-se desenvolvendo nesse meio e hoje sinto que, se deixar o Oriente, fico como um homem que, trazido vendado, se achasse, de repente, como por encanto, num intrincado labirinto de onde não pudesse sair por desconhecer os meandros.
É possível que, mais tarde, consiga livrar-me do que chamas a minha mania, mas deixa-me extravasar. É necessário que eu alije de mim todos os sonhos para poder empreender nova carreira. Por enquanto é impossível e não quero contrariar as tendências do meu espírito. Demais, quer-me parecer que se pode fazer obra verdadeira com o cenário faustoso. Um homem, pelo fato de andar vestido com uma cabala de seda oriental e de trazer à cinta alfanje e turbante à cabeça, não deixa de ser homem. Gautier vivia em Paris vestido à oriental. A alma é como a luz: pousa em toda a parte.
— Mas queres convencer-me de que podes descrever a vida de Bassora ou de Cacheimira como descreverias a vida do Rio Janeiro? Podes fazer o estudo sincero de um homem de Bombaim como farias de um dos sujeitos que encontramos a todo nas ruas? Podes analisar a alma de um pária?
— Posso.
— Como?
— Imaginando.
— Ah! Imaginando... E por que não hás de descrever vendo a dor triste de um homem que sofre a teu lado, cujo pranto vês cair gota a gota, cujas lamentações escutas? Não achas que assim farás obra mais completa, mais viva, mais duradoura?
— No fundo do sonho há sempre a verdade.
— Preferes então sonhar?
— Prefiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.