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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Em certa ocasião, sendo a fortuna do grupo limitada e havendo-se um dos convivas excedido em libações, Fortúnio lembrou-se de substituir com água da Carioca a quantidade de outra água que havia sido ingerida; mas o caixeiro, dando pela fraude, protestou e exigiu o que não havia, porque todos os poetas juntos não valiam 220 réis. Houve larga discussão e uma bengala ficou como refém nas mãos do hoteleiro, representando um extraordinário de seis cálices. Ruy Vaz, que não se podia habituar com aquela casa sórdida, freqüentada pelo que havia de pior na cidade, rejeitava os convites que lhe faziam os companheiros.

— Não, ao Quinhentão não vou. É detestável, repugnante, cheira à graxa. Depois aqueles caixeiros irritam-me os nervos — de tamancos, imundos, sempre a bradarem continuações, como folhetins encarnados. Prefiro ficar in albis. A mesa para mim não é apenas o comedouro, deve ter algum encanto aprazível à vista. Os olhos também comem, comem os ouvidos, o nariz come e o tato igualmente. Não dispenso a baixela, os cristais, as flores e gosto de sentir nos dedos uma toalha lustrosa e um guardanapo liso... O guardanapo ali tem a cor de um esfregão, a toalha parece um pano de açougue; as moscas vêm comer com a gente à mesa e, às vezes, com tanta gana, que nos entram pela boca, e lá ficam.

— Oh! Não é tanto assim, Ruy Vaz!

— Como não é tanto assim? Aquilo é horroroso!

— Como sabes?

— Por informações. Um amigo meu, que ali jantou, comeu tais imundícies que, no dia seguinte, teve de ir ao escritório de um médico lavar o estômago com sabão.

— As feijoadas são excelentes, Ruy Vaz. Já uma vez comi chispes maravilhosos!

— Eram pés de algum dos caixeiros.

— Ora... hás de lá ir comigo.

— Eu?

— Tu, sim.

— Estás enganado.

— Pois eu vou todos os dias.

— Tu? — perguntou Ruy Vaz com espanto.

— Então?

— A que horas almoças?

— Às dez.

— Ah... — fez o romancista. Pois só te digo que é uma imundície. Prefiro a fome.

— Pois eu não.

Uma manhã, como de costume, entrou Anselmo no Quinhentão. Às mesas os fregueses habituais devoravam: caixeiros de casas vizinhas, em mangas de camisa, sem gravata, mastigando com fúria, operários, estudantes. Ouvia-se o rechino das frigideiras e as moscas voejavam pousando em enxames, nas toalhas, no chão, e atirando-se à boca dos que comiam, como abelhas que investissem a aivados.

Anselmo, para não ser visto da rua, procurava sempre uma das mesas do fundo e, dando as costas à porta, empanturrava-se, ouvindo as chalaças dos caixeiros e as estrondosas gargalhadas do dono da casa, tipo acabado de Sileno, ventrudo, com uma papada roxa que se lhe derramava pelo colarinho, dando uma impressão de sórdida fartura. Quando ria toda a casa atroava. Anselmo ia sentar-se quando, olhando para um dos ângulos, rompeu a rir vendo Ruy Vaz inclinado, a devorar, com grande convicção e apetite, um último, que era o clássico bifezinho tênue, com três batatinhas mirradas. Caminhou e, diante da mesa do romancista, cruzando os braços, perguntou:

— Que é isto? Tu? Ruy Vaz levantou a cabeça e, dando com o companheiro, sorriu sem vexame. Então, sempre te resolveste?

— Ah! Meu amigo, eu faço tudo pela Arte. Senta-te. Vens almoçar?

— Sim, venho.

— Pois aqui estou. Decididamente não se pode amar a Verdade. Se o público soubesse quanto custa ser naturalista pagava os meus romances a peso de ouro. Vou às estalagens apanhar em flagrante a grande vida de tais colméias e, para que a gente não se perturbe com a minha presença, visto-me de carregador, metome em tamancos. Subo às pedreiras, penetro, com risco de vida, as reles tavolagens, passo horas e horas entre a gente tremenda dos trapiches, converso com catraieiros e, finalmente, venho comer nesta baiúca, como vês.

— Mas, então, não foi por fome?

— Qual fome! Eu podia ter ido almoçar ao Globo, mas ando acompanhando um tipo.

— E onde está ele?

— Comeu e saiu. Para que não desconfiasse, porque ele já deve ter notado que o sigo, pedi um almoço e pus-me a comer... maquinalmente.

— Quiseste também fazer um estudo do bife que aqui se dá?

— Homem, não estás muito longe da verdade. E queres que te diga? Não é tão mau como eu imaginava. É pequeno, uma amostra, mas passa. Tenho comido piores em hotéis de primeira ordem.

— As aparências iludem.

— Estou convencido. Vou agora provar o chá. Que tal?

— Hediondo e tóxico!

— Já agora... E, chamando o caixeiro com superioridade: Arranja-me um chá, com pão quente.

— Pão quente é extraordinário.

Ruy Vaz pasmou e, depois de encarar o caixeiro, que se pôs a torcer a toalha imunda:

— Extraordinário, heim!? Extraordinário és tu! E pão frio...?

— Ah! Pão ao natural?

— Ao natural?! Que diabo é pão ao natural?

— É pão que não vai ao forno.

— Homem, esse é que é extraordinário. Pois há aqui um pão que não vai ao forno?

— Para ser aquecido. Ora! O senhor está caçoando! Vá lá, diga de uma vez:

Quer ou não o pão torrado?

— Não, quero ao natural, sou naturalista. Francamente, Sr. Anselmo, isto é hediondo! É medonho! E almoças e jantas nesta casa? Quem é o teu médico?

— Não tenho.

(continua...)

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